Três sonetos de Bocage
nos 200 anos da sua morte
Magro, de olhos azuis, carão moreno,
Bem servido de pés, meão na altura,
Triste de facha, o mesmo de figura,
Nariz alto no meio, e não pequeno;
Incapaz de assistir num só terreno,
Mais propenso ao furor do que à ternura;
Bebendo em níveas mãos, por taça escura,
De zelos infernais letal veneno;
Devoto incensador de deidades
(Digo, de moças mil) num só momento,
E somente no altar amando os frades,
Eis Bocage em quem luz algum talento;
Saíram dele mesmo estas verdades,
Num dia em que se achou mais pachorrento.
* * *
Um Ente, dos mais entes soberano,
Que abrange a Terra, os Céus, a Eternidade;
Que difunde anual fertilidade
E aplana as altas serras do oceano;
Um númen só terrível ao tirano,
Não à triste, mortal fragilidade,
Eis o Deus que consola a Humanidade,
Eis o Deus da Razão, o Deus de Elmano.
Um déspota de enorme fortaleza,
Pronto sempre o rigor para a ternura,
Raio sempre na mão para a fraqueza;
Um criador funesto à criatura,
Eis o Deus que horroriza a Natureza,
O Deus do fanatismo ou da impostura.
* * *
Já Bocage não sou!... À cova escura
Meu estro vai parar desfeito em vento…
Eu aos Céus ultrajei! O meu tormento
Leve me torne sempre a terra dura.
Conheço agora já quão vã figura
Em prosa e verso fez meu louco intento.
Musa!... Tivera algum merecimento,
Se um raio da razão seguisse, pura!
Eu me arrependo; a língua quase fria
Brade em alto pregão à mocidade,
Que atrás do som fantástico corria:
«Outro Aretino fui… A santidade
Manchei… Oh!, se me creste, gente ímpia,
Rasga meus versos, crê na Eternidade!»
Manuel Maria Barbosa du Bocage
nos 200 anos da sua morte
Magro, de olhos azuis, carão moreno,
Bem servido de pés, meão na altura,
Triste de facha, o mesmo de figura,
Nariz alto no meio, e não pequeno;
Incapaz de assistir num só terreno,
Mais propenso ao furor do que à ternura;
Bebendo em níveas mãos, por taça escura,
De zelos infernais letal veneno;
Devoto incensador de deidades
(Digo, de moças mil) num só momento,
E somente no altar amando os frades,
Eis Bocage em quem luz algum talento;
Saíram dele mesmo estas verdades,
Num dia em que se achou mais pachorrento.
* * *
Um Ente, dos mais entes soberano,
Que abrange a Terra, os Céus, a Eternidade;
Que difunde anual fertilidade
E aplana as altas serras do oceano;
Um númen só terrível ao tirano,
Não à triste, mortal fragilidade,
Eis o Deus que consola a Humanidade,
Eis o Deus da Razão, o Deus de Elmano.
Um déspota de enorme fortaleza,
Pronto sempre o rigor para a ternura,
Raio sempre na mão para a fraqueza;
Um criador funesto à criatura,
Eis o Deus que horroriza a Natureza,
O Deus do fanatismo ou da impostura.
* * *
Já Bocage não sou!... À cova escura
Meu estro vai parar desfeito em vento…
Eu aos Céus ultrajei! O meu tormento
Leve me torne sempre a terra dura.
Conheço agora já quão vã figura
Em prosa e verso fez meu louco intento.
Musa!... Tivera algum merecimento,
Se um raio da razão seguisse, pura!
Eu me arrependo; a língua quase fria
Brade em alto pregão à mocidade,
Que atrás do som fantástico corria:
«Outro Aretino fui… A santidade
Manchei… Oh!, se me creste, gente ímpia,
Rasga meus versos, crê na Eternidade!»
Manuel Maria Barbosa du Bocage

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