Jesus e Buda

Ao Elísio
A França de Voltaire e de Comte tem, por vezes, destas coisas: o império “Le Monde”, que já dava à estampa algumas publicações especializadas (sempre que calha, passo os olhos pelo “Le Monde de la Musique”), lançou, há pouco menos de dois anos, o mensário “Le Monde des Religions”. Feita agora a descoberta, uma leitura em voo de pássaro, pois que apressada e superficial, levou-me a pensar que estamos perante um projecto sério e muito interessante, que sabe aliar o necessário rigor à clareza da exposição, tornando acessíveis – e atraentes – temas nem sempre fáceis, quase nunca empolgantes.
No número 18, de Julho-Agosto (no hexágono, férias são férias!), deparamos, como tema de capa, com um excelente dossiê intitulado “Jesus / Bouddha”, e consagrado às relações (de aproximação e divergência) entre o Cristianismo e o Budismo. Houve um motivo evidente de actualidade para justificar a escolha: o Dalai Lama visitou a França entre 12 e 23 de Julho.
E é justamente dedicado à figura deste fascinante guia espiritual o editorial assinado pelo director da publicação. Nele, Frédéric Lenoir começa por fazer notar a ausência de qualquer propósito de proselitismo (ao contrário daquilo a que nos habituaram os monoteísmos) por parte do mestre tibetano, que diz: “Ne vous convertissez pas, restez dans votre religion”. E o articulista logo se interroga, fazendo ressoar uma pergunta que lhe tem sido dirigida com frequência: “Será este um discurso de fachada, destinado a seduzir os ocidentais?”.
Em resposta, oferece-nos uma história tocante, absolutamente exemplar, que, sem quaisquer comentários, não resisti a partilhar convosco, e que é o motivo fundamental desta entrada.
Conta Lenoir que, há alguns anos, estava em Dharamsala, na Índia, para se encontrar com o Dalai Lama. Uma entrevista de uma hora, por causa de um livro. Na véspera, no hotel, encontrara Peter, um budista inglês, e o seu filho Jack, de 11 anos.
A mulher de Peter tinha morrido meses antes, vítima de doença prolongada, após grande sofrimento. Como Jack houvesse manifestado o desejo de conhecer o Dalai Lama, seu pai escrevera a este último, tendo-lhes sido concedida, na resposta, uma audiência de cinco minutos, o que os deixara encantados.
No dia seguinte, Peter relatou a Lenoir o seu encontro (e de Jack) com o Dalai Lama, que acabara por durar duas horas! Nesse encontro, começou por contar ao mestre a morte da sua mulher, e logo se desfez em lágrimas. O Dalai Lama confortou-o longamente. Depois perguntou-lhe qual a sua religião. Peter deu-lhe conta das suas origens judias, da deportação da sua família para Auschwitz. Dominou-o uma emoção profunda. Voltou a chorar. O Dalai Lama segurou-o nos braços, por muito tempo, enquanto Peter sentia as suas lágrimas de compaixão. Choravam os dois, em simultâneo.
De seguida, Peter falou do seu percurso espiritual: da sua perda de interesse pela religião judaica; da descoberta de Jesus pela leitura dos Evangelhos, e da sua conversão ao cristianismo, que fora, vinte anos antes, a grande luz da sua vida. Mas falou ainda da decepção que teve quando não encontrou a força da mensagem de Jesus na Igreja Anglicana, do seu progressivo distanciamento desta, da necessidade profunda de uma espiritualidade que o ajudasse a viver e, enfim, da descoberta do Budismo, que praticava, havia vários anos, na sua versão tibetana. Quando terminou, o Dalai Lama permaneceu em silêncio, voltou-se depois para o secretário, e falou-lhe em tibetano. O secretário saiu e regressou com um ícone de Jesus. Perante a estupefacção de Peter, o Dalai Lama entregou-lhe o ícone e disse-lhe: “Buda é a minha via, Jesus é a tua via.”
Terceira vez Peter se desfez em lágrimas. Subitamente, reencontrara o amor que tivera por Jesus aquando da sua conversão, vinte anos antes, compreendendo que permanecera cristão. Procurara no budismo um suporte de meditação mas, no fundo, nada o transtornara mais do que a pessoa de Jesus. Em menos de duas horas, o Dalai Lama tinha-o reconciliado consigo mesmo, curando-lhe feridas profundas. E, à despedida, prometera a Jack que o visitaria sempre que fosse a Inglaterra.
Frédéric Lenoir remata o seu editorial afirmando que jamais esquecerá este encontro e os rostos transformados daquele pai e daquele filho, que lhe revelaram a que ponto a compaixão do Dalai Lama não é uma palavra vã, em nada desmerecendo da dos santos cristãos.

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