quinta-feira, dezembro 22, 2005

Do Alentejo

Amanhecer em Estremoz

Uma a uma a noite abria
à luz matinal das rolas
as minúsculas portas da alegria.

Eugénio de Andrade

* * *

Évora Monte

À memória de meu bisavô,
o capitão Francisco Gomes Beirão


Aqui, soturnamente, emudeceu
A alegria da Vida: – o riso e o canto;
Um silêncio dramático de espanto
Enoita Évora Monte que morreu!

Quero falar; não posso! Que sei eu
Dizer, por entre as sombras, que levanto,
Mais que os meus olhos, onde fala o pranto,
Mais que o silêncio a espavorir o Céu?

Mas, (ó Mistério!), pelo Tempo fora,
Pressente-se o nascer de estranha aurora,
O germinar oculto da Esperança:

E este silêncio, tenebroso e aflito,
Há-de ser luz; e a luz Amor, confiança;
E Évora Monte acordará, num grito!

Mário Beirão

* * *

Évora

Ao amigo vindo da luminosa
Itália, a minha cidade, como
eu soturna e triste

Évora! Ruas ermas sob os céus
Cor de violeta roxas… Ruas frades
Pedindo em triste penitência a Deus
Que nos perdoe as míseras vaidades!

Tenho corrido em vão tantas cidades!
E só aqui recordo os beijos teus,
E só aqui eu sinto que são meus
Os sonhos que sonhei noutras idades!

Évora! ... O teu olhar … o teu perfil …
Tua boca sinuosa, um mês de Abril,
Que o coração no peito me alvoroça!

… Em cada viela o vulto dum fantasma …
E a minh’alma soturna escuta e pasma …
E sente-se passar menina e moça …

Florbela Espanca

0 Comentários:

Enviar um comentário

<< Home