segunda-feira, agosto 07, 2006

PARA QUE SERVE O AR CONDICIONADO?

(texto de 2004)

Como calculam, é raríssimo falar-se de Portugal na televisão americana. “É preciso morrer alguém”, dir-se-ia proverbialmente. E, no caso corrente, é preciso morrer, literalmente, alguém. Ou seja, para o público americano Portugal existe enquanto vago repositório de dez milhões de seres humanos, ou enquanto palco de acontecimentos que afectem – directa ou indirectamente – os Estados Unidos. (Como a célebre cerimónia dos Açores, há alguns meses, onde se tomaram decisões públicas sobre a guerra do Iraque). Politicamente, para os Estados Unidos, Portugal “não existe”.


Eu, que vivo nos Estados Unidos (e fora de Portugal) há onze anos, tenho a certeza disto: se se perguntar a vinte americanos nas ruas de Nova Iorque o que pensam dos portugueses, dez perguntarão, distraídos, “o que são portugueses?”, cinco responderão que sim, que adorariam visitar o Rio de Janeiro; quatro diriam que, infelizmente, nunca tiveram oportunidade de visitar o México, e talvez apenas um saiba que Portugal é um país. E, acrescentaria eu, muito provavelmente esse único entrevistado sabe de Portugal apenas isto: que é um país!


No entanto, quando há drama humano as coisas mudam, em particular no que diz respeito aos meios de comunicação social. As coisas mudam pouco, mas mudam. Por exemplo, quando há ‘novidade’ estatística – os vinte e tal incêndios simultâneos a que se assistiu dramaticamente na televisão portuguesa – a CNN perde a cabeça e chega a dedicar a Portugal toda uma barra de texto (!), avançando diligentemente embora discretamente sob a imagem de Jennifer Lopez saindo de uma discoteca e evitando os paparazzi, atentamente acompanhada por Ben Affleck. A CNN está disposta a dar a Portugal dez segundos do seu tempo precioso, desde que haja mortos, incêndios, ou, pelos menos, assombrosos caprichos atmosféricos.


Os EUA comovem-se com países que ardem. Não com países que sobrevivem com regularidade, timidez, heroicidade. Ou com mediocridade, indignidade, pequenez.


Mas com países que ardem.


Eu, que sou naturalmente e infinitamente mais sensível às aventuras e desventuras do torrão pátrio do que a CNN, também me levantei da cadeira simbólica quando ouvi que Portugal ardia descontroladamente. Parece que não se limpam as matas porque é caro. Ou que se compra madeira queimada porque é barato. Que se não modernizam métodos de apagar fogos porque é caro. E que se utiliza equipamento obsoleto porque é barato.


Depois liguei o ar condicionado e pensei na vaga de calor. Nos mortos de calor de Portugal e da Europa. Nas pessoas que arderam de calor nas suas próprias casas. E fiquei a pensar no fosso cultural que separa os estilos de vida dos americanos do Texas – onde vivo actualmente – e dos portugueses de Portugal, dos espanhóis de Espanha, dos franceses de França. Países onde – como se sabe – se morreu escandalosamente de calor no verão passado.


Aqui no Noroeste do Texas, onde actualmente vivo, temperaturas como as que mataram tanta gente na Europa são o pão-nosso de cada dia. No Texas, ligar o ar condicionado ou o aquecimento central são acções tão naturais – e fáceis – como abrir a porta do frigorífico ou atender o telefone. Com uma média de 40 graus nos meses de verão, mantemos o ar condicionado ligado em casa – de dia e, muitas vezes, de noite – sem pensarmos na improbabilidade que isto teria em Portugal. Por outro lado, nos meses de inverno, ligamos o aquecimento central com o mesmo gesto automático.


Portugal e Espanha – e isto já vi comentar-se quer em jornais ibéricos, quer em jornais americanos – gozam a espantosa distinção de serem dois dos países da Europa onde o clima é mais moderado e onde mais se morre de frio ou de calor.


Nenhum destes gestos – ligar o ar condicionado no verão e o aquecimento no inverno – são gestos automáticos em Portugal porque nem sequer são gestos possíveis na grande maioria das casas portuguesas.


E por duas razões principais: possuir climatização em casa não é, culturalmente, uma prioridade: depois das férias em Cancún e da segunda casa no campo e do último modelo de veículo desportivo, virá, quando muito, a motorizada aquática – não o ar condicionado. É que a ideia de exercer uma influência ‘quase-pseudo-divina’ sobre o clima ainda assusta os portugueses que são, por natureza, assustadiços. Relutantes perante a hipótese de quebra nos ‘brandos costumes’ de amável passividade perante a cultura instituída. Mas os portugueses do-sofá-e-do-controle-remoto de hoje têm ilustres ascendentes nos navegadores que no século XVII naufragavam em África, ou tiritavam de malária no Brasil ou morriam de calor na Índia. Para estes portugueses de há quatrocentos e tal anos as aberrações climáticas pertenciam às monstruosidades do mundo não-europeu – que valentemente enfrentavam – não aos refrigérios do jardim à beira mar plantado – com que constantemente sonhavam em terras estrangeiras e bucolicamente gozavam no fim das empresas. Em Portugal, naturalmente, residia a norma climática, a norma moral, a norma religiosa. Fora de Portugal, obviamente, ficava a barbárie religiosa, a aberração moral, a selvajaria dos excessos meteorológicos.


Entre os duros vaqueiros do Texas, tal como entre os corajosos habitantes do Arizona, ou entre os intrépidos pioneiros do Nevada – controlar o clima é um prolongamento natural do processo de colonização. É indissociável de se ser americano, mesmo no século XXI. A natureza é o inimigo interior. É o monstro a domar na nossa própria terra, dentro de nós próprios. Os americanos, como os brasileiros, são descendentes de não-americanos que decidiram (ou alguém decidiu por eles, no casos dos africanos) não regressar à previsibilidade das suas terras de origem (com a honrosa excepção dos índios). Nada se tem por dado adquirido. Nem o clima. Nem a fertilidade das terras. Nem saber ou querer saber – no caso de cowboys modernos, mesmo os ‘remediados’ ou ricos – de onde virá a próxima refeição ou a próxima cama lavada.


Ao contrário dos portugueses – e dos sesimbrenses de forma aguda (que são, em muitas coisas, ‘portugueses superlativos’) – os americanos não bebem bicas, à mesma hora, com os mesmos amigos no café da esquina durante trinta anos... Em primeiro lugar, porque beber café não é na América do Norte uma actividade social, é, quando muito, uma actividade familiar ou solitária; em segundo lugar, porque não existem espaços sociais a que se possa chamar ‘cafés‘ no sentido português; em terceiro lugar porque ninguém vive trinta anos no mesmo sítio. (As famílias americanas mudam de casa e de estado como quem muda de camisa). Ao contrário dos sesimbrenses, os texanos – e a maioria dos americanos – não dão o seu passeio digestivo depois do jantar, junto ao muro da praia porque: a) não saem de casa depois de jantar; b) não há passeios junto às praias para se andar neles; c) quase não há praias nos Estados Unidos, se tivermos em consideração o tamanho do país.


Sesimbra é uma anti-Lubbock (a cidade texana onde vivo), e será, neste sentido, o oposto da América – apesar dos males do turismo, da “costa-da-caparicização” da vida, das pessoas que se drogam por se cansarem de ser pessoas. Sesimbra é um mundo onde ainda existem ruas percorridas por pessoas reais, pelo seu romantismo anacrónico, impossível e real (perguntem ao Cagica Rapaz!), e pelos seus defeitos também reais. E é isto que nós – exilados em países virtuais, prisioneiros do automóvel climatizado, emigrados no futuro – não temos. E é isto que vós – sesimbrenses, portugueses – ainda tendes. Saibam aproveitar, enquanto puderem, se puderem. Não liguem o ar condicionado.
Para que serve o ar condicionado?

António Ladeira

3 Comentários:

Anonymous Anónimo said...

Eu gosto de ser assim : Sesimbrense , Português e mais culto que esses 95% de americanos .
Claro que estão sempre a tentar dominar o clima por isso é que desconhecem o que é o protocolo de Quioto ( nem convém ).

3:13 p.m.  
Anonymous Anónimo said...

Vamos ver se a PELICANOPENIMPOLVORA, SA., não transformam isto numa americanice dessas...

11:59 p.m.  
Anonymous Anónimo said...

Lubbock, Texas (33º35' N, 101º51'W) is located in northwest Texas. Considered to be at the center of the South Plains, the area is located between the Permian Basin to the south and the Texas Panhandle to the north. Lubbock's official elevation is 3,256 feet.

The county of Lubbock was founded in 1876. It was named after Thomas S. Lubbock, a former Texas Ranger and the brother of Francis R. Lubbock, the governor of Texas during the Civil War. The settlement that is the present-day city of Lubbock was not formed until late 1890. Two settlements within the county, Old Lubbock and Monterey, were combined to form the settlement of Lubbock. During the following year, the settlement of Lubbock was named the county seat for Lubbock County. The city was incorporated on March 16, 1909.

Shortly after incorporation, rail service was established in Lubbock. As agriculture continued to grow within the region and as the railroads continued to expand, Lubbock became the marketing center of the region and earned the name "Hub of the Plains".

Lubbock continued to grow as the city's opportunities increased. In 1925, Texas Technological College opened its doors, providing Lubbock with a major boost to its economy. While Lubbock felt the effects of the Great Depression, the city started to bounce back with the opening of two military training bases during World War II. After the war, Lubbock experienced a tremendous growth rate. During the '40s, Lubbock's rate of growth was second nationally only to Albuquerque.

Lubbock experienced its worst disaster on May 11, 1970, when a tornado, considered to be one of the strongest in recorded history, came through the center of town, wreaking havoc over three square miles of the city. Twenty-six people were killed and there was more than $135 million in damage. The city quickly repaired or replaced the damaged buildings. Part of this renovation included the construction of the Lubbock Memorial Civic Center, built as a memorial to those who died from this devastating tornado.

As of 2001, the estimated population of Lubbock was 201,212. Lubbock continues to grow, relying on the vast agricultural industry of the area as well as on a variety of manufacturing facilities.

12:06 a.m.  

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