Possessos
No próximo dia 9 vamos ter “jazz” na Capela do Espírito Santo. Há dias, já ali se escutou música irlandesa, e por lá ainda há-de passar, a 23, um espectáculo de música indiana e dança oriental. Tudo isto no âmbito de um ciclo estival denominado "espectáculos no património".A fazer fé na última edição do “Nova Morada”, a Câmara Municipal encontrou uma filosofia muito explicada para justificar esta originalidade. É que “o conceito de museu vivo, em que o espaço museológico deve ultrapassar a simples exposição de peças, documentos, imagens, informações sobre lugares ou épocas, que permanecem assim abstractos e distantes de nossas vidas, e promover uma real integração das pessoas com o espaço.” Consequentemente, prossegue a publicação condense, “esta ideia passou para o património sesimbrense tendo como objectivo levar os sesimbrenses e visitantes a visitar (sic) alguns dos monumentos mais emblemáticos do concelho como a Fortaleza de Santiago, Capela do Espírito Santos dos Mareantes e Castelo de Sesimbra.” Tudo isto se lê numa notícia cujo título nos garante que o “património sesimbrense tem ritmo”. Quem diria!
Antes de mais, convirá talvez recordar que a Capela do Espírito Santo, não se encontrando já afecta ao culto, é hoje sobretudo um museu de arte antiga e, o que é mais, de arte sacra. As coisas são como são.
A arte antiga é para ser contemplada e para ser lida. Por isso, a sua fruição, desejavelmente pelo maior número, só terá a ganhar com a realização de visitas guiadas e conferências que habilitem a ver, para além de um simples olhar ainda preso ao sortilégio da estesia. Também não será má ideia levar à Capela recitais de música que seja contemporânea das obras em exposição. Ou, no limite, pôr estas peças a dialogar com outras obras de arte. Aliás, bem andou a Câmara Municipal ao promover este ano na Capela um momento musical barroco por ocasião do Dia Internacional dos Museus, ou ainda, no mesmo espaço, a exposição “A Linguagem da Paixão nas Paixões do Mundo”. Quem procurar um museu vivo, já tem aqui, por certo, muito pano para mangas.
Ir para além disto, como agora está a suceder, pode fazer-nos resvalar para a atrocidade. Não estão em causa os espectáculos em si, apenas a sua adequação a um museu de arte sacra. Haja alguém que, por caridade, me explique qual é o contributo da anunciada “jazz-band” “para a real integração das pessoas com o espaço” da Capela…
Tenho para mim que era evidente que acabaríamos por aqui chegar. Tão certo como dois mais dois serem quatro, o cálice tinha de ser bebido até às fezes. A febre da animação não consente limites. Mas seria bom lembrar que a palavra animação vem do latim “anima”, que quer dizer alma. E melhor será não esquecer que uma alma estranha metida no nosso corpo é coisa de assombrar, sinal de que estamos possessos. E realmente estamos.

3 Comentários:
Possessos de? Votos? Só daqui a 3 anos.Até lá Carnaval todo o ano e ... em todo o lado. Bem, as Escolas de Samba já foram fazer uma exibição na Igreja Matriz. Daí...
Excuridão?Agora é que se começa a faxer lux. E muita.
Realmente agora começa-se a fazer luz. Afinal, ao contrário daquilo que tem sido insinuado neste blog, desde a sua existência, realizam-se actividades culturais organizadas pela Câmara.
Independentemente dos considerandos finais deste post, sobre os quais tenho opinião completamente diferente, este blog – passados alguns meses – divulga que se realizaram na Capela "um momento musical barroco por ocasião do Dia Internacional dos Museus, ou ainda, no mesmo espaço, a exposição “A Linguagem da Paixão nas Paixões do Mundo”
Pedro, por este andar a concelhia do PS dá-te ordens para fechares o blog...
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