Nome próprio

Feitas as apresentações, e porque mais vale prevenir do que remediar, devemos lembrar que, não obstante quaisquer juízos sugeridos pela homofonia de certas expressões, o nome deste blogue é da lavra de um dos seus responsáveis: António Cagica Rapaz. E, se assim é, não devemos nada a ninguém.
Com efeito, "Sesimbra e ventos" foi título de crónica que o autor de Noventa e Tal Contos assinou num dos primeiros números daquela que, em tempos, no Diário de Notícias, Pedro Rolo Duarte considerou ser uma agenda cultural completa e de qualidade, e que já Helder Pinho, nas páginas de A Capital, apresentara como uma das mais queridas e bonitas agendas culturais da nossa terra.
Dentro de muito pouco tempo, António Cagica Rapaz vai iniciar, nesta página que também é sua, e pelo seu próprio punho, a publicação de novos escritos, se bem que, para todos os efeitos, já esteja ao leme. E, por isso, achou por bem devolver à letra de forma, agora na blogosfera, o texto onde colhemos o nosso nome de família. Que é também um nome próprio...
Sesimbra e ventos
Julho costumava trazer alguns ventos que pacificavam a canícula, brisas desgarradas que ninguém levava a sério, filhas do Mistral que sopra na Provença e do Sirocco que nos vem do Norte de África. Vento de Verão mais parecia animação programada para quebrar a monotonia de dias de sol, céu sem nuvens e água morna. De repente, um sussurro, um estremecimento quase imperceptível, uma breve agitação, um colchão de borracha que se vira, um toldo que se solta, a jangada a baloiçar, areia em remoinho, toalhas e chapéus a esvoaçar, um simulacro de pânico divertido, interlúdio comparável a um dia de nevoeiro em Agosto, pretexto para ir à gaveta buscar uma camisola impaciente, o prazer delicioso do Outono antecipado…
Mas vento mesmo é seco e frio quando dos quadrantes Norte e Leste, húmido e tenebroso quando, vindo do Sul, carrega nuvens negras de chuva roubada ao mar. O vento do Norte empurrava os pescadores para o mar, obrigando-os a procurar a protecção do muro e a rabeça incomparável do sol de Inverno. Esse vento gelado vinha da serra e abanava os eucaliptos do campo do Desportivo onde os jogadores mal chegavam a aquecer, ronhas na ginástica, aplicados só atrás da bola.
Frias eram sempre as manhãs de cada 1.º de Dezembro, com os lingrinhas fardados da Mocidade Portuguesa a tiritar, mas empertigados, de mangas arregaçadas, a Pátria podia dormir descansada, nada atemorizava aqueles heróis do mar rasinho.
O mesmo vento de rachar pedra varria a minha rua Monteiro e arrastava consigo a Judite que ia levar o café e uma carcaça ao marido, o Jaquim Ruço, que muito cedo abalara para a loja. Depois de passar em frente ao jardim, o vento era canalizado para a rua do velho salão do João Mota, fustigando os curiosos que consultavam os cartazes das fitas que, três vezes por semana, ajudavam a esquecer o vendaval e a fome. A plateia custava vinte cinco tostões, preço da evasão e do sonho…
No seu turbilhão imparável, o mesmo vento passava pelo Central, onde o sô Zé conservava as portas bem fechadas, e mal incomodava o Ribamar, mais abrigado, de costas para terra, de frente para a fortaleza. Era aí, no café do Chagas, que o Rafael, ignorando as forças dominantes que frequentavam o Central e o Grémio, se refugiava para pensar, embrulhado no fumo do cigarro, para ler no fundo da chávena de café, para falar, para ouvir os pescadores e os seus companheiros de tertúlia contestatária.
Ventos de incompreensão o exilaram no Castelo onde foi amontoando privações e solidão, mas também saber e paixão, construindo a sua imagem de investigador, filósofo, pensador, dono de uma ciência que as ameias ajudaram a conservar. O isolamento de que sofreu, sobretudo nos últimos anos da sua vida, acrescentou-lhe aquela partícula de mistério que ainda envolve a sua figura de sábio, asceta, eremita, dono de ciências concretas e ocultas, consignadas em manuscritos raros como os que se encontravam na biblioteca proibida, ferozmente protegida pelos monges de “O nome da rosa”.
O seu valor está a ser muito justa e empenhadamente reconhecido e o seu nome já se tornou uma referência e um símbolo. Infelizmente, no caso de personalidades e personagens desta dimensão, como o Rafael ou o António Telmo, a sucessão é mais do que problemática. Quem dará continuidade ao trabalho do Rafael? Quem, neste burgo amorfo, poderá vir a ser o guardião do conhecimento, o condutor do pensamento? Nem tudo está perdido e, se maus ventos não o desviarem, há aí um jovem jurista que me parece digno do mestre…
Ventos de incúria e ganância começaram, há quarenta anos, a cavar a sepultura das espécies costeiras, com a apanha de algas para os japoneses.
Ventos de má fortuna, de políticas e compromissos de cedências obrigaram os nossos pescadores a buscar longe o que, em parte, não puderam, mas que, por outro lado, também não souberam preservar à nossa porta.
Ventos de desgraça trouxeram marés de droga, morte, degradação física e moral. Ventos de incompetência e águas paradas de conformismo destruíram a harmonia da nossa baía.
Ventos de modernidade duvidosa, mau gosto gritante e interesses inconfessados têm acelerado a descaracterização desta nossa terra cada vez mais afogada na cova onde vamos vivendo, com vento da terra, com vento do mar, com vento do Cabo, com vento da Arrábida…
António Cagica Rapaz

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