sexta-feira, fevereiro 10, 2006

Tudo estava certo

Ao Pedro Tamen

Tudo estava certo.
Numa mesa havia um copo.

Três ou quatro amigos
tinham vindo conversar.

Brincavam almas nas árvores,
a fazer cair os frutos.

Abrigávamo-nos quando chovia.
E saíamos de casa quando o sol voltava.

Na estrada ao fundo
ouvíamos passar os carros.

Depois de um longo silêncio,
regressava o sol dos sapos.

O som de duas botas pesadas
cobertas de lama
ecoava pelos campos.

Ternamente.

Quase inaudivelmente.

Três coelhos pareciam ter saído
de um arbusto.

Mas podiam ter sido dois coelhos.

A escapar de garras misteriosas!

A água que escorria das folhas vermelhas
depois de ter chovido tanto
não deixou marcas no chão.

Crianças num quarto,
fechadas,
sonhavam que choravam.

Do vapor da cozinha
mulheres chamavam para jantar a rir,
em vão.

Homens no rio,
fingindo que pescavam
conversavam.

Nuvens conhecidas flutuavam pela casa
chamando, meigamente, as crianças que brincavam.

Com vozes roucas, que assustavam.

António Ladeira
A Minha Cor Favorita é a Neve, 2000

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