O Museu das Janelas Verdes (1)
O Museu das Janelas Verdes nunca me tocou em sorte nas visitas de estudo que fazíamos nos tempos do liceu. Sou um visitante assíduo, porém recente, desta nobilíssima casa, assim como não é de há muito o meu gosto pela arte antiga. Falando de um museu, talvez não devesse dizer “casa”, porque os museus são casas ao contrário. Nós habitamo-las. Eles, habitam-nos.Lembro-me bem da primeira visita. Foi há já alguns anos, não muitos, numa manhã cinzenta e dominical, seria Fevereiro ou Março. Nesse mesmo dia, mas de tarde, assisti, bem perto dali, n’ A Barraca, a uma representação de “A Relíquia”. Tratava-se da adaptação feita por António Victorino d’Almeida, para teatro, da celebrada narrativa queirosiana.
Levado que foi à cena em Santos, o Eça vem agora ao caso porque “a casa que os Maias vieram habitar em Lisboa, no outono de 1875, era conhecida na vizinhança da Rua de S. Francisco de Paula, e em todo o bairro das Janelas Verdes, pela Casa do Ramalhete, ou simplesmente o Ramalhete.”
O Palácio Alvor-Pombal, onde em 1884 foi instalado o Museu Nacional de Belas-Artes e Arqueologia (a partir de 1911, Museu Nacional de Arte Antiga), supera na envergadura o “sombrio casarão de paredes severas” que haveria de se revelar fatal aos Maias. Mas certas passagens da obra magna de Eça mostram-nos riquíssimos salões recheados de obras de arte que vão bem ao encontro das actuais colecções do museu. No interior do Ramalhete nem sequer faltam uma bela tela de Constable e um quadro atribuído a Rubens, mestres que, por sinal, estão ausentes da exposição de pintura europeia das Janelas Verdes.
E se o romance se revela um livro prodigiosamente lisboeta, que nos dá também uma certa imagem, porventura desfocada, do país saído da Regeneração, o Museu Nacional de Arte Antiga, sobre ser alfacinha, é medularmente português.
(continua)

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