Sesimbra, 1940
O mundo entrara em guerra. O Estado Novo celebrava duplamente o centenário da fundação e o da independência da nacionalidade. E Sesimbra estava, sem o saber, a poucos meses de o grande ciclone, inclemente, a fustigar. Tempos sombrios, dias sem pão.
Mas foi também em 1940 que “O Sesimbrense” publicou uma série de dezoito sonetos, denominada “Telas Impressionistas”, da autoria de Odette de Saint-Maurice. Eram poemas sobre Sesimbra, o mar e a terra, o sol e o vento, as casas e os homens.
A sua autora contava então 21 ou 22 anos. Não era propriamente uma desconhecida, pois escrevia, desde os 11, para o suplemento infantil do jornal “O Século” e, dois anos antes, em 1938, havia publicado o seu primeiro livro, “O Canto da Mocidade”, colecção de contos infantis, obra prenunciadora da notável escritora infanto-juvenil que Odette de Saint-Maurice viria a ser. Mas, então, era sobretudo uma apreciável sonetista que se revelava aos leitores do jornal da terra, cultivando a forma com certo virtuosismo.
Há poucos anos, sete desses sonetos foram recolhidos e republicados n’ “Os Chamadores”. Outros estão nas páginas da “Sesimbra Eventos”. Alguns ainda apenas viram a luz do dia nas edições d’“O Sesimbrense” do já longínquo ano de 1940. Uma reedição, agora em livro, deste notável ciclo poético é uma das ideias que aqui me atrevo a deixar. A outra, desta complementar, seria a de convidar os artistas plásticos de Sesimbra a reinterpretarem, pelo desenho, pela pintura ou pela fotografia, cada uma das dezoito “Telas Impressionistas”. Talvez o Pelouro da Cultura da Câmara Municipal de Sesimbra pudesse dar uma ajuda.
Por agora, aqui fica uma das Telas, a sétima, alusiva ao “Vendaval”. Como se fora a visão profética do que tragicamente haveria de acontecer em 15 de Fevereiro do ano seguinte.
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VENDAVAL
Bailam as ondas. Louca fantasia
que um génio transcendente realizou.
Sonora – se foi Wagner que orquestrou!
não tem limites, nasce da agonia!
O céu, o assombro mudo, degladia
às vezes o arranco, que tirou
do seu profundo ser, donde emanou
a água que desprende numa orgia!
Gigantes – pobrezinhos dos pequenos! –
bradando pela força altissonante
dos seus caprichos bravos de sensuais…
Banquete de volúpias e venenos…
O mar e o céu – a fúria transbordante –
No fim da ceia hão de espraiar-se em ais!
Sesimbra, 1940
Odette de Saint-Maurice
Mas foi também em 1940 que “O Sesimbrense” publicou uma série de dezoito sonetos, denominada “Telas Impressionistas”, da autoria de Odette de Saint-Maurice. Eram poemas sobre Sesimbra, o mar e a terra, o sol e o vento, as casas e os homens.
A sua autora contava então 21 ou 22 anos. Não era propriamente uma desconhecida, pois escrevia, desde os 11, para o suplemento infantil do jornal “O Século” e, dois anos antes, em 1938, havia publicado o seu primeiro livro, “O Canto da Mocidade”, colecção de contos infantis, obra prenunciadora da notável escritora infanto-juvenil que Odette de Saint-Maurice viria a ser. Mas, então, era sobretudo uma apreciável sonetista que se revelava aos leitores do jornal da terra, cultivando a forma com certo virtuosismo.
Há poucos anos, sete desses sonetos foram recolhidos e republicados n’ “Os Chamadores”. Outros estão nas páginas da “Sesimbra Eventos”. Alguns ainda apenas viram a luz do dia nas edições d’“O Sesimbrense” do já longínquo ano de 1940. Uma reedição, agora em livro, deste notável ciclo poético é uma das ideias que aqui me atrevo a deixar. A outra, desta complementar, seria a de convidar os artistas plásticos de Sesimbra a reinterpretarem, pelo desenho, pela pintura ou pela fotografia, cada uma das dezoito “Telas Impressionistas”. Talvez o Pelouro da Cultura da Câmara Municipal de Sesimbra pudesse dar uma ajuda.
Por agora, aqui fica uma das Telas, a sétima, alusiva ao “Vendaval”. Como se fora a visão profética do que tragicamente haveria de acontecer em 15 de Fevereiro do ano seguinte.
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VENDAVAL
Bailam as ondas. Louca fantasia
que um génio transcendente realizou.
Sonora – se foi Wagner que orquestrou!
não tem limites, nasce da agonia!
O céu, o assombro mudo, degladia
às vezes o arranco, que tirou
do seu profundo ser, donde emanou
a água que desprende numa orgia!
Gigantes – pobrezinhos dos pequenos! –
bradando pela força altissonante
dos seus caprichos bravos de sensuais…
Banquete de volúpias e venenos…
O mar e o céu – a fúria transbordante –
No fim da ceia hão de espraiar-se em ais!
Sesimbra, 1940
Odette de Saint-Maurice

1 Comentários:
Parece uma boa sugestão que a Câmara devia considerar.
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