quarta-feira, maio 24, 2006

Amor à camisola

Se bem se recordam, no domingo passado, o António Cagica Rapaz, em comentário feito às “Fragatas no Tejo junto a Alcochete”, de João Vaz (que aqui aportaram no dia anterior), derivou da beira-rio para a beira-mar, para nos lembrar, no singular e com maiúscula, esse jogador único que foi o Fragata, mítico defesa do Desportivo. Não sei se nesse comentário estava implícito algum convite para mais uma desgarrada, mas a sua última entrada, hoje, a propósito de patriotismo e futebol, constitui causa próxima e eficiente para esta nova entrada… em campo.
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Fragata: alma até Almeida

O apelido não vem no bilhete de identidade mas desde miúdo que lhe chamam Fragata. A gente, depois, vai ao dicionário e não pode deixar de pensar que bem avisado andou o autor do segundo baptismo: barco de guerra, barcaça forte, ave de rapina marítima, homem bem apessoado e activo, eis quatro possíveis sentidos dados à palavra que, desde criança, lhe ofusca o nome civil.

António Cândido Paixão Martelo nasce em 25 de Julho de 1937. A vida vai ser uma luta. Na casa paterna, uma prole copiosa: além dele, sete irmãos. Os tempos, de resto, não são fáceis: sem porto de abrigo e à mercê, não raras vezes, da fúria do mar, Sesimbra atravessa dificuldades. À míngua de distracções, a juventude leva horas e horas, dias inteiros a jogar à bola na praia. Os invernos são passados assim.

Da praia ao Vila Amália, é coisa de alguns minutos. A questão é ter queda e dar nas vistas. Naquele tempo, o fenómeno é uma constante: o Grupo Desportivo de Sesimbra, que emergira, anos antes, da fusão controvertida de três clubes locais, recruta, repetidamente, nos areais, elementos para as suas fileiras.

Fragata não passa despercebido e, em 1955, vamos encontrá-lo na equipa júnior. Depois, é sempre a subir. A estreia na primeira categoria é uma notícia inesperada: tudo começa num domingo de manhã, num jogo de juniores realizado fora de portas. Sem motivo aparente, é substituído ao intervalo e a sua surpresa é grande. Depois, sabe porque saiu e a surpresa é maior: alguns jogadores da equipa principal não puderam responder à chamada e o Desportivo precisa de si. Pedem-lhe que jogue dentro de horas. É o que quer ouvir.

Na estreia, joga a defesa esquerdo. Polivalente, fará, nos primeiros tempos, vários lugares. Só assenta arraiais quando Santana se lesiona gravemente. O valoroso defesa parte uma perna e Fragata fixa-se, dentro das quatro linhas, no lugar onde melhor se lembram dele: o de defesa central.

Dotes e dons, em abundância. Não muito alto, revela-se forte no jogo aéreo. Decidido, nunca torce: se for caso disso, quebra. Mas a força física quase não tem fim e o ânimo é inesgotável. Depois, a técnica e a velocidade são apreciáveis. Um jogador à beira da perfeição. Por que não?

O ano de 1967 é uma vertigem. É o ano dos seus trinta anos. Para muitos futebolistas, é esta a altura de equacionarem o abandono. Fragata, porém, está no auge da sua carreira e ainda tem muito para dar. Em Março, sagra-se campeão distrital; em Abril, o clube presta-lhe homenagem. Na hora dos discursos, um dirigente do Desportivo define-o: “um atleta de eleição”. “O Sesimbrense”, por esses dias, acrescenta, nas suas colunas: “o atleta mais popular de Sesimbra”.

Em 21 de Junho desse ano, o jogo da glória: a vitória em Beja, a subida à II Divisão Nacional. Nos onze anos que se seguem, o Desportivo honra a sua presença no escalão secundário. Dizer que os adversários tremiam quando, em Santana, iniciavam a descida para Sesimbra é, porventura, um saudável exagero. Mas se não tremiam, temiam. O clube apresentava, ano após ano, equipas muito competitivas que punham os rivais em sentido.

Nem sempre foi capitão, mas foi sempre a voz de comando. Dentro do campo, adverte ou incita os colegas: o ânimo é contagioso. É a alma da equipa. Até Almeida.

Os clubes de maior envergadura não o ignoram. Por mais de uma vez, esteve para mudar de ares. Treina, durante meses, no ‘Belenenses’ e só não se transfere para o clube de Lisboa porque pouco ou nada lhe podem pagar; o Vitória de Setúbal também se interessa pelos seus serviços, mas as cartas postas na mesa não lhe permitem dar o salto. No mar, a vida é dura, mas, mal ou bem, é um ganha-pão.

À terceira, porém, quase é de vez: o Varzim apresenta uma proposta tentadora e Fragata está com um pé na Póvoa, de onde, inclusivamente, lhe acenam com um emprego. Mas o Desportivo não abre mão do seu tesouro: dão-lhe uma chata, deixa de andar embarcado. Para bordo ou para terra, leva e traz gente; e passa a viver assim, daquilo que lhe queiram dar. A vida nova não é tão dura e pode treinar todos os dias.

Um símbolo até ao fim. O ano em que o Sesimbra desce de divisão é o ano em que Fragata abandona o clube. Cumprira-se um ciclo tremendo na vida do Desportivo. Na casa dos quarenta, o defesa não se retira de imediato. Joga, ainda, durante algum tempo, no Desportivo de Alfarim. Lendário, o nome do campeão distrital de 1967 ressoava agora nos pelados mais modestos.

A longevidade. Uma vida inteira sem fumar, dirão alguns, enquanto lhe recordam o hábito pendular: o lanche obrigatório ao domingo, depois do jogo no ‘Vila Amália’, numa leitaria, que ainda hoje existe, junto à Fortaleza de Santiago. Era certo e sabido: uma rocha e um copo de leite.

Houve quem tivesse saído, mas Fragata ficou por cá. Não foi à selecção nem foi campeão nacional. Simplesmente, ficou, superlativo, fazendo jus ao nome com que, algures na sua meninice, Francisco Morais, pai de um outro celebrado atleta sesimbrense, resolveu crismá-lo. Por uma vez na vida, alguém foi profeta na sua terra…

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