Fragmentos (4)

(Joy Division)
É deveras espantoso que o Rock, em toda a sua história, só tenha produzido quatro bandas que o trataram e elevaram a uma arte. Quando se fala dos Velvet Underground, ou dos Doors, ou dos Talking Heads, ou dos Joy Division, está-se já muito além das meras distracções (por muito aprazíveis) da música popular.
(…)
O que é indesmentível a quem tenha dois centímetros cúbicos de coração é a recta que a música dos Joy Division traça direito à alma de quem se põe a escutá-los. É que à parte o abalo estético, existe o imponderável efeito sensível, flecha de música que fura todos os tecidos restritivos e superficiais para se afundar na carne, que faz com que os Joy Division se distanciem das outras três grandes bandas do Rock. Nos Doors havia uma pompa barroca que, embora estonteantemente bela, nunca levava a crer existir um fundo sincero de sentimento. E havia, em todo aquele redemoinho possesso de paixão, intromissões de exibicionismo. Nos Joy Division, não existe essa construção cuidada dum drama – o drama é subjacente ao dorido lirismo da música, e é transparente a emoção, revelada tal como ela é. Esse artificialismo dos Doors também se vê nos Talking Heads e nos Velvet Underground. O que surpreende, precisamente, na música dos Joy Division é sentir-se o pulso sensível sem perder a nobreza e até a grandiosidade das outras três.
Miguel Esteves Cardoso
(Escrítica Pop, 1982)

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