domingo, julho 23, 2006

Recordar o professor João Chagas...

...falando outrossim do Zé Tucha, graças a uma crónica publicada no "Jornal de Sesimbra" e datada de Setembro de 1999, em que o primeiro evocava o segundo. Com sol, mar e praia, vem mesmo a calhar.
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Zé Tucha – o Sr. Embaixador

Se muitos se lembram do Zé Tucha, vendedor de bolos na praia, durante a época balnear, poucos se lembrarão da venda de castanhas, bolos, barquilhos e línguas da sogra, no Inverno.

Estas vendas eram arte, criatividade e imaginação. Os matacões eram vendidos na paragem das camionetas; as castanhas “Bebé” apregoadas como o melhor dos contraceptivos; os bolos eram rifados; quem tivesse um tostão, comprava um cartão com um número; depois de vendidos dez, um dos compradores tirava de um saco um com o número premiado; a lata dos barquilhos – espécie de bolacha saborosa, estaladiça, enrolada em cone –, tinha uma roleta que, depois de jogada, indicava a quantidade a que o jogador tinha direito: poderiam ser 1 – 2 – 5 – 7 – 10 ou 20; o vinte dava direito a outra jogada grátis.

Era no tempo da II Guerra Mundial; o dinheiro não abundava, não havia nem mini nem hipermercados; os produtos eram escassos; era o racionamento: o pão, o açúcar, o azeite, o sabão, produtos de primeira necessidade, só eram vendidos em quantidades mínimas a quem tivesse senhas distribuídas pela Intendência.

O Zé Tucha sempre conseguia arranjar alguns desses produtos em quantidades que dava para dispensar aos amigos, embora a preços acima do normal.

Um dos produtos que conseguia arranjar era o sabão. Aquele sabão cinzento-escuro, peganhento, um pouco corrosivo, ideal para esfregar soalhos ou para lavar a roupa do mar, grossa, impregnada de peixe – era conhecido por sabão macaco.

O Zé Tucha conseguia-o fazendo a saponificação, não sei de que gorduras – isso era segredo –, e só não conseguia maiores quantidades porque o processo de secagem era muito lento – cerca de seis dias.

Vizinho do Zé Tucha, o José Pato, marçano no Fernando Rasteiro, irreverente, brincalhão, sempre pronto a pregar partidas ao próximo, resolveu atirar com uma porção de excremento de gato para dentro do caldeirão do sabão.

Furioso, o Zé começou a retirar com muito cuidado aquela porcaria da massa saponificada, e qual não foi o seu espanto ao verificar que esta tinha secado em poucas horas.

A partir daí, passámos a ver o Zé, com uma alcofa, pá e vassoura, pelas ruas e telhados à procura de excrementos de gato, que lhe permitiam aumentar extraordinariamente a produção de sabão macaco.

Desembaraçado e inventivo!... Uma vez, precisava de ser consultado em neurologia pelo Prof. Diogo Furtado, assistente do laureado Dr. Egas Moniz. Confrontado com o facto de estar preenchido todo o horário de consultas, perguntou à funcionária quando poderia ser atendido.

- Só daqui a quinze dias.
- DAQUI A QUINZE DIAS?!!! Fazia-me o favor de dizer ao Sr. Doutor que está aqui o Sr. Embaixador.

Perante a informação, o Professor mandou-o entrar, murmurando: Embaixador?!

- Sim! José Embaixador Capítulo!
- Veio sozinho?
- Não. Vim com a minha mulher.

Mostrando um grande senso de humor, o Professor gritou à funcionária:

- Mande entrar a senhora embaixatriz!

Os Embaixadores retiraram-se, depois de receber o receituário e ainda com a oferta de uma consulta gratuita.

João Chagas

12 Comentários:

Blogger Elora said...

Um dia tivemos uma discussão enorme por causa de uns rebuçados caseiros que eu andava a comprar à porta do colégio. A história de aceitar coisas de estranhos e preocupações do género. Só acalmou quando vimos o triciclo verde do homem dos rebuçados e ele percebeu de quem se tratava.
Rebuçados com sabor a nostalgia e que não encontro por mais que procure.

11:04 a.m.  
Blogger Pedro Martins said...

Elora,

Suponho que o homem do triciclo verde fosse o Zé Tucha. Estarei errado?

11:12 a.m.  
Blogger Serendipidade said...

Zé Tucha! Quem não se lembra?
Eu recordo-me bem dos seus rebuçados. Que rebuçados? Os rebuçados do Zé Tucha, pois tá claro...
No recreio não havia rapaz ou rapariga que não saísse pelos portões do ciclo para os ir comprar.

7:12 p.m.  
Blogger Elora said...

Era pois. Mesmo à porta do colégio. E os rebuçados eram duros, de caramelo dourado e translúcidos. É como a p.trafaria diz: tudo quanto era miúdo saía para os ir comprar. Outros tempos, outras ideias de segurança.

11:23 a.m.  
Anonymous Anónimo said...

O meu grupo gostava particularmente que o Sr. Zé Tucha apregoasse "Olha a Bola de Berlim..." e nós, "os jovens-que- torravam-dias-inteiros-ao-sol-de um-Verão-que-teimava-em-acabar" acrescentávamos "...quentinhas do sol!" E o Sr. Zé despejava o seu rol de...de ...vocabúlario menos próprio e nós delirávamos e rebolávamos a rir. Eram os "tais" Verões.

2:53 p.m.  
Blogger Pedro Mendes said...

Reza a lenda que aqueles "matacões" eram feitos numa banheira (a malta mesmo sabendo gostava).
Verdade ou não, posso dizer que eram bons.
E quem não se lembra do lema do Zé Tucha:
"Tem Tosse?! Tussa, coma rebuçados do Zé Tucha!"

4:38 p.m.  
Blogger Joao Augusto Aldeia said...

A sua silhueta à distância, vestido de branco, tal como a de sua mulher, fazendo-nos salivar com a promessa das saborosas fatias de bolo cobertas de côco, são das melhores recordações de antigos dias de praia - tal como o cheiro a tinta fresca dos papéis do cinema João Mota.

Também me recordo, de Inverno, de manhã cedo, quando apanhava a carreira para a escola Emidio Navarro, do seu pregão para os matacões: "Alteia a tosse! Alteia a tosse!". Pelo menos era assim que me soava. A alteia é uma erva medicinal, excelente para asvias respiratórias, que se misturava no caramelo.

5:48 p.m.  
Blogger Joao Augusto Aldeia said...

Não me parece, que é uma família que pouco alteia. Corpo e voz.

11:35 a.m.  
Blogger Pedro Martins said...

Altea, meus amigos, é uma terra espanhola que fica ali para os lados de Valência, e que, tal como Sesimbra, faz parte da geminação europeia Douzelage. Mas é pelos menos vila, se não mesmo cidade. Aldeia é que não.

7:30 p.m.  
Anonymous Anónimo said...

Foi, aliás, dessa terra que veio a pedra que serviu para eu produzir a obra prima da escultura sesimbrense, ou seja, a Pedra Alt(e)a...

5:29 p.m.  
Anonymous Anónimo said...

A Pedra altea na maré baixa...

9:37 p.m.  
Anonymous Anónimo said...

Boa malha, foi d'Alteabaixo...

11:36 a.m.  

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