António Reis Marques: Sesimbra em pessoa
A Rafael Monteiro chamámos “Senhor Sesimbra”. De António Reis Marques, que nasceu na “Piscosa”, em 23 de Maio de 1927, é justo dizer que se está perante “Sesimbra em pessoa”. Há exagero nestas fórmulas? Somente para quem nelas não reconhece a linguagem dos símbolos. No caso de Reis Marques - e não sugerimos já o mesmo do seu amigo Rafael Monteiro ? -, queremos simplesmente dizer que muito daquilo que de grande, inovador ou perene foi feito em Sesimbra, no último meio século, fica a dever-se à preponderância ou à cumplicidade deste homem.
Mas de quem falamos, afinal, quando falamos de António Reis Marques?
No fundo, falamos de alguém que, em boa medida, tem consagrado a sua existência ao pulsar de uma grande paixão chamada Sesimbra. De alguém que se tem dedicado, com inestimável paciência, à pesquisa, colecção e sistematização da bibliografia e iconografia de Sesimbra. De alguém que possui o maior acervo particular de documentação temática local, constituído por milhares de documentos - livros, revistas, publicações diversas, recortes de imprensa, fotografias e postais ilustrados. De alguém que, ao longo de décadas, tem difundido, dentro e fora do concelho, o nome de Sesimbra, a sua cultura, a sua história. De alguém que, como ninguém, conhece Sesimbra e que, como poucos, a tem dado a conhecer. No fundo, há uma palavra para isto: amor.
Falemos, então, dos primórdios. Instado por João da Luz, Reis Marques estreia-se nas lides jornalísticas em 1945, em «O Sesimbrense». Está firmada uma colaboração de décadas, assídua e valiosa. Nas páginas do periódico fundado por Abel Gomes Pólvora, António Reis Marques será adjunto da Direcção e redactor principal, usando, por vezes, o pseudónimo. De resto, o pedido do editor de “O Sesimbrense”, no ano esperançoso em que a guerra acaba, fará de Reis Marques, nos nossos dias, o mais antigo amador sesimbrense de jornalismo.
Durante décadas também, muito do que Portugal foi sabendo de Sesimbra, soube-o por António Reis Marques: ao longo de cerca de quarenta anos, será o correspondente do «Diário de Notícias» no concelho. No matutino, publica centenas de notícias locais, subscreve diversos artigos de temática sesimbrense. O trabalho é reconhecido e a Direcção do ‘Notícias’ endereça-lhe menções honrosas. No país como no distrito - durante largos anos é, de igual modo, correspondente n’ «O Distrito de Setúbal» e n’ «O Setubalense».
A par do jornalismo, uma outra faceta que não será, porventura, das mais perceptíveis: António Reis Marques está associado a alguns importantes esforços de divulgação turística da sua terra. Em 1960, redige os textos para a edição sobre Sesimbra do Roteiro Turístico de Portugal; por essa altura, saem da sua pena as palavras dos primeiros desdobráveis editados pela já desaparecida Região de Turismo da Serra da Arrábida. Em 1964, Sesimbra está representada na Feira de Santiago, em Setúbal. É Reis Marques quem escreve a introdução histórica e as legendas publicitárias destinadas aos visitantes do pavilhão sesimbrense.
António Reis Marques é também, ao longo da segunda metade deste século, um dos mais destacados membros do movimento associativo de Sesimbra. Em 1947, está na fundação do Grupo Desportivo de Sesimbra. A Liga dos Amigos do Castelo, de cujos corpos sociais fez parte, fica a dever-lhe a redacção dos Estatutos. Ao correr dos anos, integra os órgãos sociais do Clube Naval, do Clube Sesimbrense e da Sociedade Musical Sesimbrense.
No antigo Grémio, que o fará sócio de mérito, foi o Secretário da comissão que promoveu as comemorações do primeiro centenário, em 1953; na “Música”, onde igualmente vê reconhecida a condição de associado de mérito, será um pioneiro: durante a década de cinquenta, organiza os primeiros concursos de quadras populares de que há notícia entre nós - nas noites de São João, no Mercado Municipal; promove, ainda, a primeira “Festa das Costureiras”. Inéditos, estes rasgos valem-lhe menções honrosas. Já antes, em 1949, lhe coubera, em parte, a organização dos primeiros jogos florais de Sesimbra - o “Torneio Sesimbrense do Natal”.
De resto, falar da sua vida é falar de uma saudável inquietude.
Entre 1951 e 1954, vamos encontrá-lo - como Secretário - na Comissão de Festas das Chagas, então constituída pelos gerentes das “armações”. E é por proposta sua que é recriado o Feriado Municipal, no dia 4 de Maio - Dia da Procissão do Senhor Jesus das Chagas.
Na Câmara Municipal de Sesimbra - onde será funcionário durante dezasseis anos -, tem a seu cargo os serviços de biblioteca e arquivo, sendo também o responsável pela informação, pela divulgação das actividades culturias e turísticas e pelas relações com a imprensa.
Em 1958, António Reis Marques é o assessor do Presidente da Câmara Municipal para a organização do I Campeonato Mundial de Caça Submarina, que se realizou em Sesimbra. Anos antes, tinha colaborado com o vereador encarregado do reatamento das tradicionais “Festas dos Santos Populares”, redigindo, a partir de 1952, o regulamento do concurso de ornamentação de ruas.
Em 1960, colabora com o Dr. Eduardo da Cunha Serrão na organização e instalação do Museu Arqueológico, no Castelo de Sesimbra. Dois anos mais tarde, organiza e põe a funcionar, na antiga Capela do Espírito Santo, a Biblioteca Municipal. De permeio, em 1961, organiza o primeiro registo toponímico da vila de Sesimbra, identificando e caracterizando as suas principais figuras.
Entre 1968 e 1971, será Vereador na Câmara Municipal, cabendo-lhe o Pelouro da Cultura e Assistência.
No início da década de noventa, António Reis Marques colabora, desde o primeiro número, na revista «Sesimbra Cultural», onde publica diversos trabalhos monográficos simplesmente notáveis - pela abundância das fontes, pela argúcia argumentativa e pela erudição. «Os primeiros jornais de Sesimbra» é o título do estudo publicado no número um da revista, e representa, ainda que em estado embrionário, uma verdadeira ‘História da Imprensa em Sesimbra’.
De resto, para quem tem seguido o trajecto da «Sesimbra Cultural», torna-se evidente que há qualquer coisa do jornalista Reis Marques que passa para o Reis Marques historiador. Não está em causa, como é evidente, aquilo que a revista, pela sua natureza, pede e permite: estudos de pequena dimensão, mais perto dos factos do que do fôlego. Referimo-nos, antes, a uma técnica, sábia, de sedução do leitor, que lança mão de fait-divers para, sob a aparência de uma superficialidade episódica, fazer emergir, entretecida, a abóbada da História, em toda a sua riqueza. A comprová-lo estão, por exemplo, o estudo sobre os presentes que o rei D. Carlos ofereceu a Sesimbra - as «Prendas Reais» -, ou o estudo biográfico sobre Santos Torres, «Um cirurgião sesimbrense do século XVII».
Em Novembro de 1997, a Câmara Municipal agracia António Reis Marques com a Medalha de Mérito do Concelho - Grau Prata. Um reconhecimento tão justo quanto tardio, precisamente no decurso do lançamento do número seis da «Sesimbra Cultural».
E é na «Sesimbra Cultural», ou na agenda cultural «Sesimbra Eventos», que os sesimbrenses - e os outros - podem continuar a visitar esse mundo maravilhoso que é a Sesimbra de Reis Marques. Para além, claro está, das boas e gratas surpresas que ainda nos reserva este homem, que há muito interiorizou, por certo, as palavras de Santos Torres, o cirurgião sesimbrense do século XVIII: “Torpeza é (dizia o famoso Séneca) não deixarem os homens no mundo mais testemunhos de suas vidas, que os anos da idade que tiveram. Também de alguma sorte parece mais que ingratidão, ocultar para si só o que pode ser útil para os outros. Esta sem dúvida é a razão porque uma discreta pena nos afirma, que o que quizer viver bem neste mundo, não há-de viver sòmente para si, mas também para os demais.”
Mas de quem falamos, afinal, quando falamos de António Reis Marques?
No fundo, falamos de alguém que, em boa medida, tem consagrado a sua existência ao pulsar de uma grande paixão chamada Sesimbra. De alguém que se tem dedicado, com inestimável paciência, à pesquisa, colecção e sistematização da bibliografia e iconografia de Sesimbra. De alguém que possui o maior acervo particular de documentação temática local, constituído por milhares de documentos - livros, revistas, publicações diversas, recortes de imprensa, fotografias e postais ilustrados. De alguém que, ao longo de décadas, tem difundido, dentro e fora do concelho, o nome de Sesimbra, a sua cultura, a sua história. De alguém que, como ninguém, conhece Sesimbra e que, como poucos, a tem dado a conhecer. No fundo, há uma palavra para isto: amor.
Falemos, então, dos primórdios. Instado por João da Luz, Reis Marques estreia-se nas lides jornalísticas em 1945, em «O Sesimbrense». Está firmada uma colaboração de décadas, assídua e valiosa. Nas páginas do periódico fundado por Abel Gomes Pólvora, António Reis Marques será adjunto da Direcção e redactor principal, usando, por vezes, o pseudónimo. De resto, o pedido do editor de “O Sesimbrense”, no ano esperançoso em que a guerra acaba, fará de Reis Marques, nos nossos dias, o mais antigo amador sesimbrense de jornalismo.
Durante décadas também, muito do que Portugal foi sabendo de Sesimbra, soube-o por António Reis Marques: ao longo de cerca de quarenta anos, será o correspondente do «Diário de Notícias» no concelho. No matutino, publica centenas de notícias locais, subscreve diversos artigos de temática sesimbrense. O trabalho é reconhecido e a Direcção do ‘Notícias’ endereça-lhe menções honrosas. No país como no distrito - durante largos anos é, de igual modo, correspondente n’ «O Distrito de Setúbal» e n’ «O Setubalense».
A par do jornalismo, uma outra faceta que não será, porventura, das mais perceptíveis: António Reis Marques está associado a alguns importantes esforços de divulgação turística da sua terra. Em 1960, redige os textos para a edição sobre Sesimbra do Roteiro Turístico de Portugal; por essa altura, saem da sua pena as palavras dos primeiros desdobráveis editados pela já desaparecida Região de Turismo da Serra da Arrábida. Em 1964, Sesimbra está representada na Feira de Santiago, em Setúbal. É Reis Marques quem escreve a introdução histórica e as legendas publicitárias destinadas aos visitantes do pavilhão sesimbrense.
António Reis Marques é também, ao longo da segunda metade deste século, um dos mais destacados membros do movimento associativo de Sesimbra. Em 1947, está na fundação do Grupo Desportivo de Sesimbra. A Liga dos Amigos do Castelo, de cujos corpos sociais fez parte, fica a dever-lhe a redacção dos Estatutos. Ao correr dos anos, integra os órgãos sociais do Clube Naval, do Clube Sesimbrense e da Sociedade Musical Sesimbrense.
No antigo Grémio, que o fará sócio de mérito, foi o Secretário da comissão que promoveu as comemorações do primeiro centenário, em 1953; na “Música”, onde igualmente vê reconhecida a condição de associado de mérito, será um pioneiro: durante a década de cinquenta, organiza os primeiros concursos de quadras populares de que há notícia entre nós - nas noites de São João, no Mercado Municipal; promove, ainda, a primeira “Festa das Costureiras”. Inéditos, estes rasgos valem-lhe menções honrosas. Já antes, em 1949, lhe coubera, em parte, a organização dos primeiros jogos florais de Sesimbra - o “Torneio Sesimbrense do Natal”.
De resto, falar da sua vida é falar de uma saudável inquietude.
Entre 1951 e 1954, vamos encontrá-lo - como Secretário - na Comissão de Festas das Chagas, então constituída pelos gerentes das “armações”. E é por proposta sua que é recriado o Feriado Municipal, no dia 4 de Maio - Dia da Procissão do Senhor Jesus das Chagas.
Na Câmara Municipal de Sesimbra - onde será funcionário durante dezasseis anos -, tem a seu cargo os serviços de biblioteca e arquivo, sendo também o responsável pela informação, pela divulgação das actividades culturias e turísticas e pelas relações com a imprensa.
Em 1958, António Reis Marques é o assessor do Presidente da Câmara Municipal para a organização do I Campeonato Mundial de Caça Submarina, que se realizou em Sesimbra. Anos antes, tinha colaborado com o vereador encarregado do reatamento das tradicionais “Festas dos Santos Populares”, redigindo, a partir de 1952, o regulamento do concurso de ornamentação de ruas.
Em 1960, colabora com o Dr. Eduardo da Cunha Serrão na organização e instalação do Museu Arqueológico, no Castelo de Sesimbra. Dois anos mais tarde, organiza e põe a funcionar, na antiga Capela do Espírito Santo, a Biblioteca Municipal. De permeio, em 1961, organiza o primeiro registo toponímico da vila de Sesimbra, identificando e caracterizando as suas principais figuras.
Entre 1968 e 1971, será Vereador na Câmara Municipal, cabendo-lhe o Pelouro da Cultura e Assistência.
No início da década de noventa, António Reis Marques colabora, desde o primeiro número, na revista «Sesimbra Cultural», onde publica diversos trabalhos monográficos simplesmente notáveis - pela abundância das fontes, pela argúcia argumentativa e pela erudição. «Os primeiros jornais de Sesimbra» é o título do estudo publicado no número um da revista, e representa, ainda que em estado embrionário, uma verdadeira ‘História da Imprensa em Sesimbra’.
De resto, para quem tem seguido o trajecto da «Sesimbra Cultural», torna-se evidente que há qualquer coisa do jornalista Reis Marques que passa para o Reis Marques historiador. Não está em causa, como é evidente, aquilo que a revista, pela sua natureza, pede e permite: estudos de pequena dimensão, mais perto dos factos do que do fôlego. Referimo-nos, antes, a uma técnica, sábia, de sedução do leitor, que lança mão de fait-divers para, sob a aparência de uma superficialidade episódica, fazer emergir, entretecida, a abóbada da História, em toda a sua riqueza. A comprová-lo estão, por exemplo, o estudo sobre os presentes que o rei D. Carlos ofereceu a Sesimbra - as «Prendas Reais» -, ou o estudo biográfico sobre Santos Torres, «Um cirurgião sesimbrense do século XVII».
Em Novembro de 1997, a Câmara Municipal agracia António Reis Marques com a Medalha de Mérito do Concelho - Grau Prata. Um reconhecimento tão justo quanto tardio, precisamente no decurso do lançamento do número seis da «Sesimbra Cultural».
E é na «Sesimbra Cultural», ou na agenda cultural «Sesimbra Eventos», que os sesimbrenses - e os outros - podem continuar a visitar esse mundo maravilhoso que é a Sesimbra de Reis Marques. Para além, claro está, das boas e gratas surpresas que ainda nos reserva este homem, que há muito interiorizou, por certo, as palavras de Santos Torres, o cirurgião sesimbrense do século XVIII: “Torpeza é (dizia o famoso Séneca) não deixarem os homens no mundo mais testemunhos de suas vidas, que os anos da idade que tiveram. Também de alguma sorte parece mais que ingratidão, ocultar para si só o que pode ser útil para os outros. Esta sem dúvida é a razão porque uma discreta pena nos afirma, que o que quizer viver bem neste mundo, não há-de viver sòmente para si, mas também para os demais.”
1999

3 Comentários:
Bravo, Pedro Martins. É um belo retrato de corpo inteiro a que só falta mais meia dúzia de linhas sobre a nobreza de carácter do António Reis Marques, ainda que tal dimensão esteja suavemente inscrita na sua boa prosa.
Só lamento que ele ande a desperdiçar o seu talento em tão má companhia. Ninguém é perfeito, não é ? Acontece...
Pexito Reconhecido,
O António Reis Marques é, sem sombra de dúvida, um homem com grande nobreza de carácter. Sei do que falo.
Pexito reconhecido: Concordo. É realmente desperdiçar talento, para gente que cospe na sopa.
Enviar um comentário
<< Home