domingo, julho 09, 2006

O espírito do lugar (10)

MANHÃ NO SADO

Brancas, as velas
eram sonhos que o rio sonhava alto.
Meninas debruçadas em janelas,
via-se, à flor azul das águas, as gaivotas.
E a Manhã quieta (sorrindo, linda, vinha vindo a Primavera…)
punha os pés melindrosos entre as conchas.
Derivavam jardins imponderáveis
dos seus passos de ninfa
e tremiam as conchas
de súbitas carícias.

Longe era tudo: o medo dos naufrágios,
as angústias dos homens, o desgosto,
os esgares das tragédias e comédias
de cada um, os lutos, as derrotas.
Longe a paz verdadeira das crianças
e a teimosia heróica dos que esperam.

Ali, à beira-rio,
de olhos só para o rio, de ouvidos surdos
ao que não é a música da águas,
um sossego alegórico persiste.
Nem o arfar das velas o perturba.
Nem o rumor dos seios capitosos
da Manhã, que nas águas desabrocham
e flutuam, doentes de perfume.
Nem a presença humana do Poeta
- sombra que a pouco e pouco se ilumina
e se dilui, anónima, na aragem…

Sebastião da Gama

2 Comentários:

Blogger Luis Eme said...

Bonita evocação do nosso "Poeta da Arrábida"...

1:40 p.m.  
Anonymous Anónimo said...

Vale bem a pena mencionar que se trata do "Poeta da Arrábida". É que a serra foi enaltecida em toda a sua poesia, logo no seu primeiro livro "Serra Mãe", de 1945. É que foi ele quem, em 1947, deu voz ao protesto contra a destruição da Mata do Solitário, numa altura em que as organizações ambientais ainda não existiam (o seu protesto deu, aliás, lugar à criação da Liga para a Protecção da Natureza, ainda hoje existente). A Câmara de Setúbal instituiu recentemente o Dia Municipal da Arrábida, tendo escolhido a data de 5 de Junho (por ser o Dia Mundial do Ambiente) para a celebração. Não era preciso haver a coincidência, porque Sebastião da Gama já era o nome da Arrábida antes de haver Dia Mundial do Ambiente. Parece que a Câmara vai voltar a discutir a data... e oxalá seja sensível ao que existe de identidade no concelho! Já agora: "Manhã no Sado" é do "Campo Aberto", o terceiro e último livro que Sebastião da Gama publicou (1951). A partir desta data, todas as obras foram edição póstuma.

1:24 a.m.  

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