sábado, julho 08, 2006

Schumann, 150 anos depois (6)

OUVINDO POEMAS DE HEINE COMO «LIEDER» DE SCHUMANN

Nunca talvez tão grande poesia encontrou sua grande música
assim. Outros poemas grandes foram musicados para o canto,
e de outros não tão grandes se fizeram canções magníficas.
Mas raro assim aconteceu que a palavra fosse dita em música
como a pensada música que nela havia para lá dos sons da linguagem,
na amargura do sentido que do riso ganha uma doçura triste
que é delicada reticência em que as palavras soam
como a própria vida quando se desfaz em perdido sonho.
Não mais refinadamente se gritaram as maiores das mágoas,
sem nenhum grito, sem olhos pelo espaço, e o pranto
feito o som de um piano que acompanha a voz
impetuosa ou pensativa, mas que não chora
e apenas disserta musicalmente sobre as dores do poeta.
São pequeninos dramas líricos. Mas pouco drama em música
jamais teve esta concentrada solidão, tão severa e nua,
sem cenário e sem orquestra, e sem personagens sequer:
a vida inteira numa voz e num piano, que
são a poesia funda que não disse o homem
que brincou perseguido, exilado e traído,
com tudo o que perdia mas na voz ganhava.

27/4/1964

Jorge de Sena

2 Comentários:

Blogger Luis Eme said...

Esta homenagem a Shumann (a que nem sequer faltou a música...), não poderia terminar melhor, com as palavras de Jorge de Sena. Parabéns pelo memorial.

1:28 p.m.  
Blogger Pedro Martins said...

Caro Luís Milheiro,

Fico-lhe grato pelas suas palavras. Mas Jorge de Sena não é o fim da linha. Até ver, é Florbela Espanca...

1:35 p.m.  

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