Schumann, 150 anos depois (6)
OUVINDO POEMAS DE HEINE COMO «LIEDER» DE SCHUMANNNunca talvez tão grande poesia encontrou sua grande música
assim. Outros poemas grandes foram musicados para o canto,
e de outros não tão grandes se fizeram canções magníficas.
Mas raro assim aconteceu que a palavra fosse dita em música
como a pensada música que nela havia para lá dos sons da linguagem,
na amargura do sentido que do riso ganha uma doçura triste
que é delicada reticência em que as palavras soam
como a própria vida quando se desfaz em perdido sonho.
Não mais refinadamente se gritaram as maiores das mágoas,
sem nenhum grito, sem olhos pelo espaço, e o pranto
feito o som de um piano que acompanha a voz
impetuosa ou pensativa, mas que não chora
e apenas disserta musicalmente sobre as dores do poeta.
São pequeninos dramas líricos. Mas pouco drama em música
jamais teve esta concentrada solidão, tão severa e nua,
sem cenário e sem orquestra, e sem personagens sequer:
a vida inteira numa voz e num piano, que
são a poesia funda que não disse o homem
que brincou perseguido, exilado e traído,
com tudo o que perdia mas na voz ganhava.
27/4/1964
Jorge de Sena

2 Comentários:
Esta homenagem a Shumann (a que nem sequer faltou a música...), não poderia terminar melhor, com as palavras de Jorge de Sena. Parabéns pelo memorial.
Caro Luís Milheiro,
Fico-lhe grato pelas suas palavras. Mas Jorge de Sena não é o fim da linha. Até ver, é Florbela Espanca...
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