quinta-feira, julho 06, 2006

SHAME ON YOU, MISTER LOPRESTI!

Em Março do ano passado, vi a cabeça de Diogo Alves nas Janelas Verdes. Só lhe vi a cabeça, e por sinal bem conservada, numa solução aquosa, dentro de um recipiente de vidro. Era uma das cem peças – e, de todas elas, a mais impressionante – patentes na exposição “Passagens”, aquando do “baptismo” do futuro Museu de Medicina, que o Museu Nacional de Arte Antiga então apadrinhou.

Diogo Alves foi a última pessoa a ser executada entre nós (há século e meio) e Portugal foi o primeiro país a abolir a pena de morte (e a escravatura). Depois de enforcado, Diogo Alves teria inevitavelmente de ficar para a história, mas a sua cabeça, depois de decepada, acabou por se tornar um objecto de estudo para as vindouras gerações de candidatos ao hábito de Esculápio. Com Diogo Alves, chegámos ao domínio literal: a pena capital é hoje, definitivamente, coisa de museu no nosso país.

Mesmo que não pareça, por portas travessas tudo isto vem a propósito de um inqualificável artigo de opinião que o blogue “Boca de Incêndio” foi descobrir num jornal electrónico do estado norte-americano do Wisconsin, seja lá onde for que esta terra fique. Chama-se greenbaypressgazette.com e acolhe como escriba, nas suas colunas, um senhor chamado Mike Lopresti (podem vê-lo aqui), que, na passada terça-feira, a propósito do apuramento da selecção das quinas para as meias-finais do Mundial de futebol, se pôs a discorrer miseravelmente sobre o nosso país, num artigo que pode e deve ser lido aqui.

Se após a leitura de semelhante verborreia os nossos leitores ainda acharem por bem concederem-nos um pouco mais da sua atenção, sempre ajuizaremos que no “Boca de Incêndio” já foi escrito quase tudo que deveria ter sido dito, pois que, na verdade, de arrogância, ignorância e boçalidade se trata na prosa infecta de Lopresti.

Não obstante, vale a pena acrescentar algo mais à justa verberação assinada por António Godinho Gil no seu blogue egitanense.

Quando nos lembramos dos constantes e gravíssimos atropelos aos Direitos do Homem que ocorrem nos Estados Unidos, não podemos deixar de sorrir a qualquer julgamento civilizacional que nos chegue daquelas bandas. Consta, aliás, que as pobres criaturas se deitam periodicamente a empreender relatórios, aturados e doutos, sobre as violações que os outros estados levam à sua conta em matéria de direitos humanos, como se os herdeiros do Tio Sam tivessem instituído o Paraíso na Terra. Conhecemos todos o Éden: Abu Ghraib foi o dó de alma que se sabe; em Guantanamo ainda florescem mártires inesperados; e de costa a costa, em pleno solo americano, sepulturas recentes escondem dezenas de supliciados. Dá nisto, a falta de espelhos em casa.

Convenhamos que é bem mais ligeira a conversa de Lopresti. Trocada por miúdos, consiste em fazer notar que Portugal é do tamanho do estado do Indiana e tem menos habitantes que o Ohio. Que antes do torneio alemão, os portuguesinhos só tinham estado em três fases finais do Mundial e que se pode contar pelos dedos de uma mão as medalhas de ouro conquistadas pelo nosso país nos Jogos Olímpicos. De resto, prossegue Lopresti, impante, do alto do seu nome genuinamente anglo-saxónico, não há portugueses entre os basquetebolistas da NBA ou os finalistas de Wimblendon. E, num assomo inusitado de espiritualidade, o grande Mike observa ainda que nos filmes de guerra não há vilões nem heróis portugueses e que o Super-Homem nunca teve de salvar ninguém que fosse de Portugal. E, perante este gourmet confesso da salsicha alemã e das massas italianas – afinal há vida para além do Mac! –­, nem o cozido à portuguesa, nem o arroz de marisco, nem as pataniscas de bacalhau, são capazes de nos içar do purgatório gastronómico a que Lopresti sumariamente nos condena, posto que reconheça no torrão pátrio, terra de gente que muito trabalha, alguns lugares bonitos. Porém, no auge da ironia, esta gracejante criatura condescende em assegurar-nos presença nos melhores restaurantes, através das rolhas das garrafas de vinho, pois, como bem esclarece, sempre somos líderes mundiais na produção de cortiça. E vai por aí fora, de tirada em tirada. O leitor poderá verificar.

Como afirmei, quase tudo foi já escrito no “Boca de Incêndio”. Mas fica ainda a ideia de que poderemos estar perante um caso de pueril imbecilidade, paredes-meias com a natureza infantil que, de ordinário, se reconhece a esta gente. Se fosse apenas isto, o episódio resolvia-se com três nalgadas no gaiato. Sucede que é algo mais, a roçar a desumanidade, e, seja lá o que for, é como o vento que passa, não cala a desgraça e nos dá notícias daquele país. Assim, e ainda que Lopresti nunca nos chegue a ler, avisado será retorquir-lhe que os heróis portugueses não são feitos de celulóide e que Nuno Álvares Pereira e Vasco da Gama, por muito que isso lhe custasse, caso o não desconhecesse, existiram realmente à face deste globo terráqueo cuja posse os seus governantes, mailos sino-comuno-capitalistas, teimam hoje em disputar com afã. Para terminar redondamente esta conversa, diga-nos lá, já agora, senhor Lopresti (se as graçolas lhe não tiverem levado os dentes todos): Nunca lhe ocorreu que vossemecês não sabem mesmo dar um chuto numa bola?

11 Comentários:

Anonymous godgil said...

Pois é Pedro:

É claro que não. O soccer americano é o desporto mais imbecil que já algum dia foi inventado, a seguir ao bilhar de bolso.
Outra coisa. Há um filme baseado numa experiência real em que o protagonista quis testar pessoalmente as aconsequências de se alimentar exclusivamente no Mac Donalds. Acontece que ao 20º dia a experiência teve que parar, a conselho dos médicos e nutricionistas que acompanhavam a maratona: é que os nivéis de colestrol e açucar eram tão elevados que poderia ter um acidente cardiovascular ou o figado deixar de funcionar, simplesmente. Seria pois de bom tom dar a conhecer a essa alimária que escreveu o artigo as nossas preciosidades gastronómicas. E já agora lembrar-lhe que, passados dois meses a degustá-las, talvez curasse o atrofiamento cerebral de que padece.

Abraço

6:53 da tarde  
Blogger Pedro Martins said...

Aliás, Gil, se este senhor soubesse o que é a Europa, talvez se admirasse com os feitos de Benfica, Sporting e Porto nas taças uefeiras, e com os pódios da selecção nacional nos europeus de 1984, 2000 e 2004. Mas, para ele, a Europa não conta, se é que realmente existe.
Já falar-lhe de Camões ou Pessoa, ou de todos os outros nossos grandes poetas é ensaiar a quadratura do círculo... Será que o homem sabe o que é um alexandrino?
A verdade é que os Estados Unidos não têm e não exportam aquilo de que o mundo precisa - Humanidade!

Um abraço

7:21 da tarde  
Blogger P. Trafaria said...

"The bad guys in war movies are never from Portugal" - ai, ai, ai, não anda a fazer o trabalho de casa. Então e o nosso hollywoodesco Joaquim de Almeida.

Bem, mas isso agora não interessa nada, porque vozes de burro não chegam ao céu. Quanto à(s) nação(ões) americana(s) também uma andorinha não faz a primavera... e um energúmeno não faz, não faz... sei lá.

Caro Pedro Martins,

Aproveito a ocasião para de forma completamente inadvertida e impertinente lhe dirigir um pedido: como se põe música num blog?
Se estiver na disposição de partilhar esse seu conhecimento desde já deixo aqui mail para contacto: se_zimbra@hotmail.com

P. T.

8:35 da tarde  
Anonymous pargo malato said...

Se o tal Lopresti tivesse perguntado ao erudito Bush, este teria sido capaz de falar dos Açores, um pequeníssimo arquipélago "espanhol" onde ele já foi muito feliz...

8:53 da tarde  
Blogger Pedro Martins said...

Caro P. Trafaria,

Um energúmeno talvez não faça o inverno, mas eles são muitos, e têm feito infernos por onde passam, aliás cheios de boas intenções, como é próprio de qualquer inferno que se preze.

P. S. - A "encomenda" já foi expedida.

9:38 da tarde  
Blogger P. Trafaria said...

Muito obrigada (mais uma vez).

Esta é realmente uma das grandes vantagens da blogoesfera. A partilha saudável de opiniões e de conhecimentos.

10:37 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Pedro e Gil,

Todos os lugares de Portugal são bonitos, de Valença a Belém do Pará, de Cabinda, a Maliana e Liquiçá. Da triste Serpa à fria Guarda, da angustiante Nazaré ao triste Porto, do eterno Sagres à traiçoeira Lisboa. Mas mais belo lugar é à sombra da bandeira, vermelha e verde, azul e branca, das cinco chagas, negra das noites do Cruzeiro do Sul e do Norte do marinheiro Côrte-real, esfarrapada e negra do braço-de-ferro sem fim entre o Paraíso e a Adversidade. E belo é o lugar onde se cai, afagado por essa bandeira, que é solo português. Português que morre de pé, como o galo esfaimado gritando antes do Sol ,sentinela da Humanidade. Não português que se perde em rasteiras. Quem sou? Ninguém, ninguém, filho de Ulisses, escapado ao Gigante de um só olho, naufragado e aportado à praia de Vera Cruz.O Mundo e o Universo são solo de Portugal.

Elísio

12:18 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Xenofobia pura, ignorância nata. Como é possível que um jornalista premiado escreva assim?

2:29 da tarde  
Anonymous impaciente português said...

Ouvindo Sua Excelência, o Presidente (eleito) dos Estados Unidos da América, percebe-se o que a casa gosta!!! Gastar, gasta tudo e demais, porque a imbecilidade não aceita poupanças...

4:17 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

E a foto é retirada de onde e com quem?

2:45 da tarde  
Blogger Pedro Martins said...

Leitor das 2:45 PM,

A foto foi retirada do "site" www.patrickcrusade.org e nela está Allen Lee Davies, pouco depois de ter sido executado na cadeira eléctrica, no estado norte-americano da Florida. O site referido dá-nos conta de uma deliberação de um tribunal daquele estado, tomada por 4 votos contra 3, que não considerou cruel a morte pela electrocução...

5:05 da tarde  

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