Os encontros de Paris (5)

(conclusão do texto publicado ontem)
Bruno e o homem de Setúbal
“Isso é que é falar português!”. Inadvertida, a exclamação interceptou-nos a marcha, logrou deter-nos. Foi no dia seguinte, seria pelo meio-dia, perto da Bolsa, depois de havermos batido os Grands Boulevards. Tratava-se de um patrício, natural de Setúbal, vivendo em França há largos anos. Ouvira-nos falar na língua de Camões e não resistira a dar sinal de si. Já não me recordo de toda a conversa, aliás breve, que entabulámos naquela esquina de Paris. Falou-se de Portugal, de Setúbal e, por extensão, de Sesimbra; das vagas de calor que por esses dias assolavam Portugal; da trágica inclemência dos fogos florestais. Falámos nós das nossas pessoas, e ele da sua vida. Mas o que sobretudo retive dos breves minutos em que conversámos, foi a luz anímica que, de pronto, lhe inundou os olhos, foi o seu rasgo decidido de nos falar, de nos chamar, de nos reter, como quem nos gritasse num gesto de súplica, protestando que estava ali como quem sempre tivesse estado à nossa espera, desde o início do mundo.
Na altura, não pude deixar de me lembrar do encontro algo insólito com Alice Machado, na tarde anterior. Também na véspera a língua portuguesa fora o traço de união com a escritora, mas houvera então algumas outras circunstâncias concomitantes, que tornavam o episódio incomparável e, até, há que dizê-lo, improvável em altíssimo grau. Aqui tinham sido meras palavras banais ditas em português, que, por entre os transeuntes, haviam furado o bulício e avivado o ânimo daquele nosso compatriota.
Alguns dias mais tarde, ao rever este encontro, lembrei-me do relato pungente que Sampaio Bruno nos faz, na sua obra-prima, de uma gélida e algo solitária noite de Natal que passara em Paris, em 1891, durante o exílio subsequente ao frustrado golpe republicano do 31 de Janeiro desse ano. Eu havia lido “A Ideia de Deus” por aqueles dias, e as frases do nosso maior filósofo estavam bem vivas na minha memória. São palavras terrivelmente desoladas aquelas com que nos descreve o seu trajecto, nessa noite da consoada, desde o Arco da Estrela até à Madalena, passando pelos Campos Elísios e pela Concórdia. Descrevendo cruamente o seu drama, é também implacável o juízo que Bruno faz dos parisienses: “Atingiu, enfim, a crise o paroxismo; e todos os que leram Balzac sabem como é atroz, em Paris, la misère en habit noir. Sob a hipocrisia da sua polidez artificial, a gente do Norte de França é dum egoísmo descaroável, áspero, sarcástico, sem limites. A pobreza, ali, considera-se infame; e, depois de cobarde, a injúria mortal que se pode dirigir a um homem é o chamar-lhe mendigo. Lâche ou mendiant são vocábulos que em Paris se expiam com sangue.”
Não sei se é justa a sentença de Bruno. E em pouco, ou em nada, se compara o caso do escritor com o do nosso homem de Setúbal. Sei, porém, que também agora fui levado a reler algumas passagens de “A Ideia de Deus”, para de novo tentar compreender o que seja o exílio de qualquer homem ou mulher de quem se possa dizer que é um estranho em terra estranha. A minha ocasional condição de turista nunca chegou para tanto. Excepto naquele começo de tarde de Agosto, vai para dois anos, perto da Bolsa de Paris. Percebi então que era ali, naquele passeio, naquela esquina, naquele bairro, que verdadeiramente estava em Portugal, porque Portugal estava connosco, como se alguém ali tivesse erguido, num ápice, a grande embaixada.

5 Comentários:
Eu sei o que é isso... de estarmos num país distante e ao ouvirmos falar a nossa língua, sermos quase de imediato, compelidos a falar com os nossos conterrâneos. Algumas pessoas chamam-lhe saudade e dizem que é uma coisa nossa, mas eu penso que é de todos os povos.
Um sentimento só nosso, por certo não será. Mas talvez nos marque de uma forma peculiar. Daí o facto de a palavra "saudade" não ser rigorosamente traduzível.
Desculpe lá, Mestre António, mas aqui não estamos mesmo de acordo. Simplesmente, o meu metabolismo actual não é de feição a outras considerações. Assim sendo, fica a peleja para outra oportunidade.
O ser humano é intrinsecamente o mesmo em todo o lado e, por isso, o que pode sentir deve ser igual em qualquer parte. Por outro lado, não há maquineta que permita medir tais coisas como a "saudade".
Uma coisa diferente é a expressão desses sentimentos através da linguagem. Essa expressão tem uma fortíssima componente cultural, distinta em diferentes comunidades.
Em Portugal, diversos autores (entre eles o rei D. Duarte) utilizaram a palavra "saudade" para exprimir um sentimento que resultava da mistura de duas coisas: um desejo de ver alguém (ou algo) que muito estimamos e de quem estamos afastados (pela geografia ou pelas barreiras sociais, ou por ambas), e uma espécie de alegria sofrida por causa dessa mesma provação; um quase sentimento masoquista.
Considerando a palavra "saudade" como exprimindo essa mistura especial de sentimentos, entenderam alguns autores que não existe outra palavra no mundo que traduza a mesma coisa. Contudo, esta ideia foi-se espalhando e "simplificando", ao ponto de ouvirmos e lermos muitas vezes que os outros povos não têm palavra para a "saudade" ou, até, que a não sentem: afirmações falsas e ridículas.
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O que me parece é que a maioria das pessoas usa a palavra "saudade" como significando simplesmente essa tristeza por estar longe de algo de que se gosta e o correspondente desejo de o voltar a ver. Neste sentido, não há nada de exclusivamente português, nem na palavra nem no sentimento.
1. De acordo em que a natureza humana é só uma.
2. De acordo em que saudades qualquer pessoa, em qualquer parte do mundo, pode ter.
3. Mas, à parte a questão da respectiva natureza, já não estou de acordo em que o ser humano seja intrinsecamente o mesmo em todo o lado. Quem acredita numa antropologia situada não pode deixar de levar em consideração os elementos religiosos, étnicos, históricos, geográficos e paisagísticos, etc. Escreve Pessoa, e eu cito de cor: "As nações todas são mistérios / Cada uma é todo o mundo a sós."
4. A Saudade é lembrança de alguma coisa com desejo dela. O João Aldeia aponta um aspecto de masoquismo que não se me afigura exacto na Saudade. A Saudade é dor e desejo, mas não é o desejo da dor. É o desejo daquilo que se não tem e cuja ausência nos dói.
5. No meu primeiro comentário, não disse que Saudade fosse um vocábulo intraduzível. Disse que não era rigorosamente traduzível. Isto é diferente. Disse e mantenho.
6. Sou dos que crêem que a palavra ganhou, entre nós, um sentido próprio e exclusivo, conformador da alma pátria, que a leva a distinguir-se das próprias "soledades" galegas ou castelhanas.
7. A Saudade portuguesa vai muito para além das saudades. Esta respeitam apenas à dimensão antropológica, e correspondem a um sentimento de carência, pela ausência, temporária ou definitiva, de alguém ou de algo.
À Saudade corresponde uma ideia do Homem, do Mundo (da Natureza) e de Deus. A Saudade é uma filosofia, com as suas três disciplinas fundamentais - Antropologia, Cosmologia, Teologia - muito bem definidas. E a esse pensamento corresponde, no mais alto grau, uma tradição poética que é sobretudo: antropológica na poesia medieval; cosmológica em Camões; teológica em Frei Agostinho da Cruz.
Quanto ao pensamento da Saudade, ele conhece em Sampaio (Bruno) o seu mais alto momento especulativo, posto que não designado de saudoso. Mas é na obra, genial e visonária, de Teixeira de Pascoaes, que a Saudade se desvenda superiormente, como credo religioso, como síntese superior do Paganismo e do Cristianismo, ou dos princípios ariano e semita, no que é uma heterodoxia, ou até uma heresia. Mas ainda assim uma religião.
Claro que tudo isto soa estranho aos ouvidos modernos, mas nós, os que não temos, nem queremos, maquinetas para medir sentimentos, estamos prontos a arrostar com as acusações de ridículo que possam surgir.
Não quero estar aqui longas horas a discorrer. Cito, para terminar, esta notável passagem de síntese de "Os Poetas Lusíadas" (um livro de Pascoaes onde está tudo):
«Nenhum Povo tem, como o Português, uma sensibilidade tão íntima, tão nascida da terra e das almas que ela criou. Daí a originalidade do nosso Lirismo. Exprimindo o amor de que falam Cervantes e Lope de Vega, há nele também um sentimento profundo da Natureza e a visão saudosa de Deus. É a mística atitude da Saudade, rezando a melancolia de todas as cousas que esperam regressar à Luz divina da sua infância…»
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