quinta-feira, junho 29, 2006

DUAS ANDORINHAS

por Elísio

Tenho vertigem, mãe, tenho vertigem! O ex-cabo da GNR diz que “só matou três adolescentes” e as duas meninas belgas apareceram mortas, depois de terem sido raptadas em 9 de Junho. Tenho vertigem! Ah, ainda bem que não tenho ressaca... será que isto soa como se fosse a prosa de um bandido, ou de um drogado? Ah, mas eu queria ser drogado, em vez de me andar a esconder pelas sombras, a dizer que não sou guarda do meu irmão Abel, nada tenho a ver com o criminoso que raptou as duas meninas, violou uma delas, e matou ambas. Eu não tenho nada a ver com isso, com o maricas alemão que pôs na Internet que queria que alguém o comesse, almoçou os seus genitais com o canibal e depois, deixou-se morrer para ser rilhado com ervilhas. Eu não tenho nada a ver com isso! Não tenho nada a ver com o que se diz, com que o Povo diz, porque isso é a liberdade democrática e eu tenho toda uma história atrás de mim para me justificar e para me fazer merecer a Liberdade e o Poder de usar a Liberdade, de ser reconhecido e admirado. Eu não sou guarda do meu irmão Abel! Por isso, Deus, não venhas falar comigo!

Hoje mato-te Liberdade! Hoje mato-te como um Guerrilheiro do Rei deposto, antigo, morto e esquecido! Hoje mato-te como o Cigano vingador, como o cavaleiro árabe louco de Alá, como o Guerrilheiro judeu agarrado à metralhadora no Ghetto de Varsóvia, só para vingar a honra do seu Povo, como o atirador solitário numa torre de Itália. Hoje mato-te Liberdade porque não foste mais que uma palavra e eu não sou livre de matar, nem livre de pensar matar, nem livre de odiar, nem livre de me deixar pensar que sou livre até de alimentar um ódio. Não reconheço direitos à auto-determinação, nem direitos à felicidade, não reconheço o direito ao riso, nem ao sorriso. Sim, Deus, eu não sou guarda do meu irmão Abel, porque sou guarda do meu irmão Caim! Afinal Liberdade, és apenas uma estátua. Paro à tua frente e pergunto-te: não tens outro nome? Liberdade de quê? Liberdade Humana?! Isso vejo bem que sim, que tens a forma humana, desculpa-me lá podias-te cobrir mais um bocadinho porque venho do deserto onde não há muita coisa e sou um Homem. Mas não sou apenas isso. Tenho uma Alma. Por isso cobre-te um bocadinho. No mundo que se perdeu, púnhamos um menino ao alto, ou um cordeirinho, ou um humilde peixinho, ou uma mãe e seu menino, ou um velho bondoso, ou um príncipe dos vagabundos sentado e meditando com um sorriso suave, apesar dos seus farrapos. Quem és tu, Liberdade? Vejo que não respondes, com esse teu ar de enervada a comandares toda a gente num sentido em que a gente iria na mesma, porque está toda junta, voltada para aí, mesmo que não estivesses. Queres-te fazer notada, não é? Não te conseguiste fazer notada pelas tuas qualidades, agora estás aí em cima só para que te agarrem. Vejo quem és, és a Liberdade de cair. Pois eu tenho-me em pé e derrubo-te hoje. Pelo Rei antigo, que reinava dentro de nós.

Pois Deus não quis ressuscitar Abel. Não porque não amasse mais o género humano em Caim, mas porque Caim fora criado à sua Imagem e Semelhança e tinha que ser ele a reparar o que fez. Não, não existe só Deus e apenas Deus. Existe também o Homem e existem outras coisas, o passarito que arqueja no chão, no Inverno, a mosca no vidro, as duas meninas tentando fugir dum vida triste, as adolescentes paralisadas ao verem o ex-cabo. Existo eu, até, que não passo de um entusiasmo, ou de uma chuvita de Agosto. E que aqui estamos todos, breves, como um suspiro. Ah, deixai o suspiro suspirar...
(imagem: "O Corpo de Abel encontrado por Adão e Eva", de William Blake)

1 Comentários:

Anonymous Anónimo said...

"...como uma chuva de Agosto!" - Fez-me bem esta frase! Obrigada, Elísio. De vez em quando faz bem lembrar-mo-nos do nosso lugar no mundo.

2:50 p.m.  

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