ORAÇÃO DA NOITE
por Elísio
Dou graças a Deus por este dia. Deus poupou-me de uma dor horrível de dentes que já me tinha deixado sem dormir e ter de continuar a trabalhar num meio hostil, como se nada fosse. É uma coisa complicada, vão ter de me tirar uma “ponte” que me custou muito dinheiro, agora numa altura em que tenho de tomar decisões difíceis financeiras. Pude ir comprar um casaco barato. O árabe que me recebeu, caixeiro dos caminhos, vestiu-me a camisa, tratou-me bem. Para quem não vive no terror dos homossexuais, poder-se-ia pensar que este homem toca nas pessoas com paciência e serviço porque todos nos temos que tocar, a começar quando nos libertam à nascença, da placenta e, ao fim, quando nos lavam das últimas excreções. Algum palerma, de dentro da Televisão que nos meteram na cabeça, diria que o que este árabe era, era um bom profissional. Não. É meu irmão, como somos todos irmãos, mesmo que isso não nos valha de nada. Geralmente vemos o Mundo com os olhos que nos deixamos ter. Os outros estão tão em pânico como nós mas vemo-nos sempre uns aos outros em armadura, como objectos de medo ou de desejo. Quando todos nos desfazemos como se desfizeram os meus dentes (devíamos ter sempre uma espécie de aparelho elétrico que nos lembrasse, em doses pequeninas, como vamos um dia cair desamparados no buraco da morte quando as nossas funções começarem todas a falhar e voltarmos a falar como um bébé, mas que ninguém nos ache graça). Já lá vai o sábado. Vem a Segunda. Está Sol mas a cabeça dos homens esgravata com um Inverno dentro. Alguém prometeu uma sociedade final, justa, mas a desilusão foi pior ainda que a ilusão, quem a quis ter, ignorando os mortos uns por cima dos outros, pelas mais diversas razões que se tentou esconder. Foi bem uma “Primavera de Destroços” como dizia o Adolfo. E um Verão de corpos a boiar. O Inverno, esse virá como sempre foi, sem pedir licença e, quando se reiniciar o ciclo já nos teremos desfeito com as folhas, na berma. Onde está o pardalito que cantava no ano passado na minha janela? Que levei de amor desta vida?
Uma quadra ao S. João que não pude celebrar:
S. João, neste deserto,
Santo roto e seminu
Grita, põe-me desperto
Que rude e santo eras tu
Uma quadra ao S. João que não pude celebrar:
S. João, neste deserto,
Santo roto e seminu
Grita, põe-me desperto
Que rude e santo eras tu

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