TRÊS CANÇÕES
por ElísioEstive outro dia a rever a Maria Callas, a Dalida e a Barbara. Depois lembrei-me de Luigi Tenco, de Leo Ferré e de Jacques Brel. Começo por Barbara, vítima de ser mulher e não ser bela, a quem os parisienses, finalmente, pela força do seu trabalho e da sua graça lhe fizeram um favor: ser bela. Quando o que ela queria era que reconhecessem que encher a brisa de canções, mesmo quando não se é belo, é tão importante como ver.
Todos sabem a história da Maria Callas, o seu emagrecimento urdido por um marido que a passeava pelos palcos, a paixão ao primeiro encontro por Onassis e o seu fim trágico, quando tocava piano sozinha no apartamento de Paris, imerso em sombra, cheio de fotografias do filho de Onassis, de quem nunca pudera ser mãe. No fim do seu casamento, Onassis gritava-lhe que a única coisa que ela tinha era um apito na garganta.
Lembrei-me de Dalida, saída raivosamente dum subúrbio de Alexandria, jurada a ser famosa apesar do seu estrabismo, que não a impediu de ser Missa França. Depois recordo as suas canções, sobretudo a interpretação dessa laje de túmulo que é a canção de Leo Ferré, Avec le temps. Com perto de cinquenta anos conseguia ter uma beleza fora do vulgar. Mas três dos seus amantes suicidaram-se. Ou só dois. Porque nunca ficou bem apurado o caso de Luigi Tenco.
Tenco, uma das vozes mais brilhantes do seu tempo. De olhar pasmado, parado frente ao mundo quando o percebeu e decidiu, como um garoto de Roma, não apanhar a moeda. Ter-se-ia suicidado depois da sua canção, a meias com Dalida, Ciao, Ciao Bambina, não ter sido apurada para o festival de San Remo. Sabia-se que mantinha, além de Dalida, uma relação com um rapariga mais nova com quem estivera a falar duas horas seguidas antes de morrer. Deixou um bilhete que era um protesto contra o absurdo da Indústria musical em que pedia que tudo ficasse claro quando o Júri apurara “Tu, Io e le Rose” e “La Rivoluzione”, de Lucio Dalla, que estava no quarto ao lado. Dalla diz que, depois de ouvir o tiro, nunca mais foi o mesmo, apesar de nos ter brindado com canções tão bonitas, como Gesù Bambino. Tenco não era de esquerda nem de direita, não era de Dalida, nem de outra qualquer. Havia nele pugno di ferro, cuore di veluto. Queria reformar a canção ligeira em Itália, fazê-la uma forma feliz e desperta de existir na realidade. Tinha uma missão clara, embora sem ambição. Cantou todo o tipo de ritmos e fê-lo sempre com dedicação. Como Elvis “Era alguém. Tinha algo a dizer. Era tudo.”
Ou Ferré, que finalmente morreu em paz nos seus vinhedos no país cátaro, talvez quando ia começar a sorrir ao perceber que a violência do Mundo não é mais forte que a Alma.
Finalmente Brel, imagino-o morrendo nos braços da sua havaiana, como Gauguin. Com o corpo esclerosado porque um belga se tem de manter em pé num país plano, como as torres de Bruges e Gand. Fez rir os outros, fê-los descansar o espírito e, no fim, ninguém lhe abriu a porta. Benditos sejam os que nos fazem assobiar. Esta noite, o Vento.
Todos sabem a história da Maria Callas, o seu emagrecimento urdido por um marido que a passeava pelos palcos, a paixão ao primeiro encontro por Onassis e o seu fim trágico, quando tocava piano sozinha no apartamento de Paris, imerso em sombra, cheio de fotografias do filho de Onassis, de quem nunca pudera ser mãe. No fim do seu casamento, Onassis gritava-lhe que a única coisa que ela tinha era um apito na garganta.
Lembrei-me de Dalida, saída raivosamente dum subúrbio de Alexandria, jurada a ser famosa apesar do seu estrabismo, que não a impediu de ser Missa França. Depois recordo as suas canções, sobretudo a interpretação dessa laje de túmulo que é a canção de Leo Ferré, Avec le temps. Com perto de cinquenta anos conseguia ter uma beleza fora do vulgar. Mas três dos seus amantes suicidaram-se. Ou só dois. Porque nunca ficou bem apurado o caso de Luigi Tenco.
Tenco, uma das vozes mais brilhantes do seu tempo. De olhar pasmado, parado frente ao mundo quando o percebeu e decidiu, como um garoto de Roma, não apanhar a moeda. Ter-se-ia suicidado depois da sua canção, a meias com Dalida, Ciao, Ciao Bambina, não ter sido apurada para o festival de San Remo. Sabia-se que mantinha, além de Dalida, uma relação com um rapariga mais nova com quem estivera a falar duas horas seguidas antes de morrer. Deixou um bilhete que era um protesto contra o absurdo da Indústria musical em que pedia que tudo ficasse claro quando o Júri apurara “Tu, Io e le Rose” e “La Rivoluzione”, de Lucio Dalla, que estava no quarto ao lado. Dalla diz que, depois de ouvir o tiro, nunca mais foi o mesmo, apesar de nos ter brindado com canções tão bonitas, como Gesù Bambino. Tenco não era de esquerda nem de direita, não era de Dalida, nem de outra qualquer. Havia nele pugno di ferro, cuore di veluto. Queria reformar a canção ligeira em Itália, fazê-la uma forma feliz e desperta de existir na realidade. Tinha uma missão clara, embora sem ambição. Cantou todo o tipo de ritmos e fê-lo sempre com dedicação. Como Elvis “Era alguém. Tinha algo a dizer. Era tudo.”
Ou Ferré, que finalmente morreu em paz nos seus vinhedos no país cátaro, talvez quando ia começar a sorrir ao perceber que a violência do Mundo não é mais forte que a Alma.
Finalmente Brel, imagino-o morrendo nos braços da sua havaiana, como Gauguin. Com o corpo esclerosado porque um belga se tem de manter em pé num país plano, como as torres de Bruges e Gand. Fez rir os outros, fê-los descansar o espírito e, no fim, ninguém lhe abriu a porta. Benditos sejam os que nos fazem assobiar. Esta noite, o Vento.

1 Comentários:
António,
Tem razão, o Ciao Bambina é de outro e o Ciao Amore corresponde bem àquilo que o Tenco queria, uma música inodora politicamente mas alegre espontaneamente, para ele que não conseguia sair do seu existencialismo, das relações básicas de poder e oprimido. Cabe-lhe a si agora falar no Reggiani, de que pouco me recordo, mas que tem umas canções muito bonitas sobretudo uma em que se usa o violino e penso que o refrão é qualquer coisa "De l'amour...". Ou outros. Conheci o Férré pessoalmente ( fiz-lhe uma entrevista em que não liguei o gravador...tive de recosntituí-la toda de memória!) e é de todos o que achei mais poderoso. Mas do Tenco é de quem gosto mais. E há tantos outros. Cabe-lhe a si. Mas não estou de acordo com o Fado! Eu só gosto do Fado de Coimbra e do fado-canção de um tempo mais esperançoso, até mesmo com o Carlos do carmo no Olyimpia, sabendo eu depois que ele pagou uma implantação de cabelo caríssima. Elísio
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