Curtas (44)
Lezíria
Atravesso a lezíria sob chuva intensa, a ouvir Brahms, um dos últimos românticos e o grande mal amado da modernidade. Terceira sinfonia, a do famoso terceiro andamento. Atravesso a lezíria, com o Tejo a dois passos, ladeando campos ubérrimos pejados de bois e cavalos. Debaixo de um céu plúmbeo (o Eça e o seu títere Eusébiozinho quase nos iam desacreditando esta palavra, tão do Soares de Passos), dou comigo a pensar que Brahms, afinal, está bem ali. Seja como for, a telefonia não tem outra coisa para dar. Ocorre-me que Leonard Bernstein (salvo erro, foi ele) orquestrou um fandango para o incluir numa ópera (salvo erro, era uma ópera). Mas Brahms, o melodista impenitente, vago símbolo de algo que resiste e persiste, não calha mal ao coração telúrico deste país. A sopa da pedra, em Almeirim, não me desconvenceu da justeza de tais pensamentos. E, logo depois, a visita à Casa-Museu dos Patudos, em Alpiarça, ofereceu-me a prova real. Não teve José Relvas (que tragédia a morte, em sua vida, de todos os seus filhos!), homem das revoluções dos novos tempos, e grande amador de música (resgatou para Portugal o único retrato de Domenico Scarlatti que se conhece!), que estabelecer o seu refúgio no recato da província próxima e nesse florilégio, quase remoto, que é a sua fabulosa colecção de arte antiga?
Atravesso a lezíria sob chuva intensa, a ouvir Brahms, um dos últimos românticos e o grande mal amado da modernidade. Terceira sinfonia, a do famoso terceiro andamento. Atravesso a lezíria, com o Tejo a dois passos, ladeando campos ubérrimos pejados de bois e cavalos. Debaixo de um céu plúmbeo (o Eça e o seu títere Eusébiozinho quase nos iam desacreditando esta palavra, tão do Soares de Passos), dou comigo a pensar que Brahms, afinal, está bem ali. Seja como for, a telefonia não tem outra coisa para dar. Ocorre-me que Leonard Bernstein (salvo erro, foi ele) orquestrou um fandango para o incluir numa ópera (salvo erro, era uma ópera). Mas Brahms, o melodista impenitente, vago símbolo de algo que resiste e persiste, não calha mal ao coração telúrico deste país. A sopa da pedra, em Almeirim, não me desconvenceu da justeza de tais pensamentos. E, logo depois, a visita à Casa-Museu dos Patudos, em Alpiarça, ofereceu-me a prova real. Não teve José Relvas (que tragédia a morte, em sua vida, de todos os seus filhos!), homem das revoluções dos novos tempos, e grande amador de música (resgatou para Portugal o único retrato de Domenico Scarlatti que se conhece!), que estabelecer o seu refúgio no recato da província próxima e nesse florilégio, quase remoto, que é a sua fabulosa colecção de arte antiga?

1 Comentários:
A propósito de Brahms, o mal amado (pela modernidade e não só), António Cartaxo conta algumas histórias deliciosas no seu livro "Ao Sabor da Música", que não resisto a transcrever:
"Encontrava-me ao lado de Fernando Lopes-Graça num recital de música de câmara realizado há anos no Teatro Gil Vicente em Cascais. A primeira parte foi preenchida com música de Bartok e Stravinsky. Depois do intervalo, desconhecíamos o que se seguia. Sentámo-nos, e o quarteto rompe com o opus 51 de Brahms. Acto contínuo o maestro leva a mão à cabeça, algo perturbado, e murmura a meia voz: «Mas por que é que não me avisaram?»"
"Brahms sujeitava-se às mais severas e irónicas críticas à sua música, mas a verdade é que também ele era capaz de ser mordaz. Um dia ouviu alguém elogiar o jovem Richard Strauss, ainda no início da carreira de compositor. Disse prontamente: «Se é Strauss, prefiro Johann, e se é Richard prefiro Wagner.»
Mas Brahms era capaz também de se fazer o alvo do seu próprio humor. Certa vez foi convidado para um almoço com um rico negociante de vinhos. Quando este, no final da refeição, abriu a garrafa de um Rauenthaler, o melhor entre os vinhos, e disse que a marca estava para a bebida como Brahms para a música, Brahms reagiu de pronto: «Há melhor ainda. Que tal se abríssemos uma garrafa de Bach?»"
Por tudo isto, a pergunta que dá título a esse filme parece-me da maior prudência...
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