segunda-feira, junho 12, 2006

Curtas (41)

O povo é quem mais ordena

Lê-se no “Diário de Notícias” de hoje. Numa homenagem a Vasco Gonçalves realizada ontem, no cemitério do Alto de São João, no dia em que fez um ano que morreu o antigo primeiro-ministro, José Saramago afirmou que não resta “rigorosamente nada” do 25 de Abril de 1974 em Portugal e que nem a democracia é uma herança directa da revolução. Não discuto o que ficou (ou não) do 25 de Abril. Mas há um ponto em que estou de acordo com o escritor do Nobel: a democracia não resulta em linha recta da revolução. Aliás, fez-se precisamente contra ela. E isto tem a sua lógica, pois o povo é quem mais ordena.

7 Comentários:

Blogger Elora said...

O senhor José enganou-se. Há um pequeno que ainda hoje continua a tirar partido dos seus minutinhos de fama, quando enfiou um cravo numa espingarda para a objectiva. Portanto, do 25 de Abril resta o pequeno, embora já sem caracóis.

6:29 p.m.  
Anonymous Anónimo said...

Há quem veja nessa mistificação um implacável retrato do 25 de Abril, suposta poesia e indomável vontade do povo quando, se o Caetano tivesse dado mais umas coroas aos capitães, adeus ó Abril...

3:24 p.m.  
Blogger António Godinho Gil said...

Pois é, Pedro:
Pior do que a nostalgia faduncha, ancorada na tradição nacional, é esta nostalgia de uma certa esquerda que se julga moralmente superior. Que invoca um tempo de que se julga a única intérprete qualificada, um tempo cuja idealização alucinada serve para justificar uma espécie de pedagogia revolucionária insuportavelmente paternalista.
A propósito, transcrevo António Sousa Homem, numa das suas excelentes crónicas. A prova de que ser conservador nada mais é do que uma forma de cepticismo, como disse Borges.
"Mudar o mundo é uma tarefa muito aborrecida porque as pes­soas, em geral, gostam deste, com as suas imperfeições e com os seus momentos de felicidade. É, provavelmente, um sinal de que o mundo, em geral, também não aprecia o gesto (..) pressinto o problema das pessoas que nunca conseguiram con­ciliar as duas coisas: a música e o ruído que vem dos pátios. Elas querem o silêncio absoluto ou a música absoluta. Coisas impossíveis, como sabemos hoje, para bem da humanidade."

10:13 p.m.  
Blogger Pedro Martins said...

Gil,

O Manuel Alegre dizia ontem no "Público" que do 25 de Abril ficara pelo menos a Liberdade. No plano político, eu acredito mais em liberdades do que na Liberdade. E algumas, por certo, nos ficaram do 25 de Abril. Sucede que, pelos vistos, no singular ou no plural, esta coisa muito chata de, por exemplo, se poder expressar diferenças de opinião, não conta nada, mesmo nada, para alguns. A verdade é que, há mais de 30 anos, não passamos disto. É a natureza das coisas. Mas aqui é que bate o ponto. Sempre.

7:51 a.m.  
Blogger Pedro Martins said...

Gil,

Acabei agora de ler uma crónica de António Sousa Homem - a da música de Bach e do ruído nos pátios. É uma revelação - eis tudo o que te posso dizer, se bem que não seja pouco. É uma prosa superiormente encantatória como a de Proust. Vou mergulhar.

8:01 a.m.  
Anonymous Anónimo said...

Este António S. Homem será da família do António C. Rapaz?

Já agora, se vai mergulhar, não se esqueça de pôr uma touca e de verificar se a bandeira é vermelha.

2º já agora : acaso saberá informar se, este ano, por obra e graça da doutora Felícia, vamos ter bandeiras azuis?

Com uma Câmara CDU, as bandeiras não deveriam ser sempre vermelhas?

11:18 a.m.  
Blogger Pedro Martins said...

Não creio que seja da família, mas há certas afinidades entre as crónicas de um e as de outro. Experimente o meu amigo a ler...

11:27 a.m.  

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