A GREGA
por Elísio
Conheci uma grega que me faz lembrar Amália. Nunca troquei uma palavra com ela, não tenho idade para me apaixonar, sou um homem casado e pai. Digo que a conheci embora nunca tivéssemos trocado uma palavra, de oito meses que me cruzo com ela. É obviamente uma rapariga que tomou o ascensor social. Fala inglês perfeitamente, faz-se de tonta frente aos homens que a adulam, tem uma cabeleira negra como a de Amália Rodrigues e veste-se impecavelmente como uma dessas raparigas solteiras da Lisboa dos anos setenta que sabia que sair à rua era um gesto na História da Vida e um risco no Destino. Exagera no negro, contudo, porque é moda na Grécia, uma mistura de fascismo e anarquismo do post-moderno nocturno e combina-o com o verde, como quem diz que o combinaria com vermelho se o código de cores não o proibisse.
Já a vi o suficiente para perceber que todas as gregas, antes de se casarem, parecem estátuas clássicas até que o Sol, o Passado e o cinismo ático as fazem gordas e desbocadas. Por enquanto, ainda luta com êxito mas já a vi a sorrir no meio das amigas, com a voz ligeiramente rouca, como se estivesse entre as madrinhas de casamento numa festa grega, sob vinhas e oliveiras. Um dia vi-a a puxar o cabelo para trás e reparei na sua cara larga, de olhos esverdeados, com a sobrancelha contínua e a boca, grande, vermelha, zangada. Era dia não e ela olhou-me como uma mulher que acorda e vê que o marido não gosta do aspecto dela. Pode ser uma grande técnica mas o tempo de amar e o tempo de morrer são sempre os mesmos. Tenho a certeza que, um dia, na TV, ao ver uma dessas noitadas de música dita Rebética, (a mais melancólica daquela terra e que bate tão fundo que uma geração inteira de intelectuais, nos anos sessenta, por ela se fechou nas ilhotas do Egeu, fumando ópio e deixando-se morrer) chorei e ela ouviu-me.
Esta rapariga ou jovem mulher faz-me lembrar Amália. À beira do Mediterrâneo, o amor e a ternura fazem-nos cair na miséria. A melancolia e a beleza do Mar, onde o Sol se repousa, faz-nos tudo perdoar e tudo consentir. De repente, alguém se revolta e arranca dali para fora. Como Amália Rodrigues. Os meios que usa, as ruas ínvias que percorre, só Deus, um Deus misericordioso destes peregrinos do Amor, as julgará. Na voz, como o "apito"que restava na garganta de Maria Callas, ficará esse cântico indestrutível à Ternura incondicional, ao heroísmo daquele que deu a outra face e deu também a túnica.
Outro dia ri-me da Grega porque dizia uma balela. Ela passou por mim e todo o seu corpo, real e humano, tremia. Porque uma mulher é sempre uma mulher e não foi feita para levar a companha do homem. Depois via-a de novo como uma pomba negra, esperando em absoluto silêncio ao lado de um telefone mudo. De perto era volumosa e recolhia-se com uma letalidade só igual à desses animais marítimos, arcaicos, que aguardam em absoluta quietude como um vulcão.
Estou com fome. Dormi mal mas lembra-me quando estava do mesmo modo e vivia numa modesta casa em Sesimbra, fugindo ao Inimigo, lambendo as feridas duma luta de Ultramar que dura ainda hoje, mata menos mas mói muito. Vinha de Lisboa à hora de almoço e atirava-me às águas de Sesimbra. Estava frio, céu molhado, mas a agitação das ondas alimentava-me, como se houvesse uma electricidade nelas que me fortalecia entrando pelo peito e segurando a barriga vazia. O Mar.
Conheci uma grega que me faz lembrar Amália. Nunca troquei uma palavra com ela, não tenho idade para me apaixonar, sou um homem casado e pai. Digo que a conheci embora nunca tivéssemos trocado uma palavra, de oito meses que me cruzo com ela. É obviamente uma rapariga que tomou o ascensor social. Fala inglês perfeitamente, faz-se de tonta frente aos homens que a adulam, tem uma cabeleira negra como a de Amália Rodrigues e veste-se impecavelmente como uma dessas raparigas solteiras da Lisboa dos anos setenta que sabia que sair à rua era um gesto na História da Vida e um risco no Destino. Exagera no negro, contudo, porque é moda na Grécia, uma mistura de fascismo e anarquismo do post-moderno nocturno e combina-o com o verde, como quem diz que o combinaria com vermelho se o código de cores não o proibisse.
Já a vi o suficiente para perceber que todas as gregas, antes de se casarem, parecem estátuas clássicas até que o Sol, o Passado e o cinismo ático as fazem gordas e desbocadas. Por enquanto, ainda luta com êxito mas já a vi a sorrir no meio das amigas, com a voz ligeiramente rouca, como se estivesse entre as madrinhas de casamento numa festa grega, sob vinhas e oliveiras. Um dia vi-a a puxar o cabelo para trás e reparei na sua cara larga, de olhos esverdeados, com a sobrancelha contínua e a boca, grande, vermelha, zangada. Era dia não e ela olhou-me como uma mulher que acorda e vê que o marido não gosta do aspecto dela. Pode ser uma grande técnica mas o tempo de amar e o tempo de morrer são sempre os mesmos. Tenho a certeza que, um dia, na TV, ao ver uma dessas noitadas de música dita Rebética, (a mais melancólica daquela terra e que bate tão fundo que uma geração inteira de intelectuais, nos anos sessenta, por ela se fechou nas ilhotas do Egeu, fumando ópio e deixando-se morrer) chorei e ela ouviu-me.
Esta rapariga ou jovem mulher faz-me lembrar Amália. À beira do Mediterrâneo, o amor e a ternura fazem-nos cair na miséria. A melancolia e a beleza do Mar, onde o Sol se repousa, faz-nos tudo perdoar e tudo consentir. De repente, alguém se revolta e arranca dali para fora. Como Amália Rodrigues. Os meios que usa, as ruas ínvias que percorre, só Deus, um Deus misericordioso destes peregrinos do Amor, as julgará. Na voz, como o "apito"que restava na garganta de Maria Callas, ficará esse cântico indestrutível à Ternura incondicional, ao heroísmo daquele que deu a outra face e deu também a túnica.
Outro dia ri-me da Grega porque dizia uma balela. Ela passou por mim e todo o seu corpo, real e humano, tremia. Porque uma mulher é sempre uma mulher e não foi feita para levar a companha do homem. Depois via-a de novo como uma pomba negra, esperando em absoluto silêncio ao lado de um telefone mudo. De perto era volumosa e recolhia-se com uma letalidade só igual à desses animais marítimos, arcaicos, que aguardam em absoluta quietude como um vulcão.

1 Comentários:
Lindo. A apetecer ler mais. Para quando um livro?
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