quarta-feira, junho 28, 2006

Os encontros de Paris (3)


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(continuação do texto publicado ontem)

Agnès Jaoui

Quando, haverá dois anos em Agosto, voltámos a Paris, deu-se o caso de fazermos anteceder, uma vez mais, a partida do visionamento de um filme de Eric Rohmer. Desta vez era “Agente Triplo”, então uma novíssima longa-metragem, que fomos ver ao Nimas. Tinha a curiosidade de algumas das suas primeiras cenas serem rodadas no “14.ème arrondissement”, que daí a alguns dias seria o nosso bairro de destino. Por essa altura, passara também, mas na televisão, uma outra fita (um pouco menos) recente, “O gosto dos outros”, da realizadora e actriz Agnès Jaoui. Se já não vira o começo de “Os encontros de Paris”, neste, por qualquer razão – nada como as férias nos conduz à dispersão –, não cheguei ao fim, e não retive suficientemente a imagem de Jaoui.

Dias depois, com a Florinda, seguimos o curso do Sena na senda de Claude Monet. Passámos por Mantes-La-Jolie, cidade airosa cuja velha ponte mereceu a Corot um óleo notável, que hoje se conserva no Museu Calouste Gulbenkian. Depois, parámos em Vétheuil, em cuja região Monet pintou “O Degelo”, quadro que também se pode apreciar neste museu de Lisboa. Almoçámos em La Roche-Guillon, onde se revela o panorama magnífico do vale do Sena, que serviu de cenário às aventuras de Blake e Mortimer em “A Armadilha Diabólica”. Já às portas da Normandia, chegámos, enfim, a Giverny, onde, durante as suas últimas décadas, viveu Claude Monet. A casa do pintor, bem como o respectivo jardim, estão hoje consagrados à memória deste grande nome da história da arte, e formam um museu singular onde, por nada deste mundo, se deve recusar a possibilidade de contemplar, da ponte de madeira, o pequeno lago encantador pespontado de nenúfares. Só por si, os nenúfares de Giverny representam uma fase emblemática da pintura de Monet. Podem ser vistos em Paris, no Museu d’Orsay, e, sobretudo, no Museu de l’Orangerie, que há pouco tempo reabriu as suas portas.

À entrada da casa, junto à bilheteira, a Florinda, a quem falara de "O gosto dos outros", chamou-nos a atenção para o facto de, mesmo à nossa frente, se encontrar Agnès Jaoui, acompanhada por um homem ainda jovem, um pouco mais novo que ela. Observei-a detidamente e pude, com efeito, reconhecer na sua pessoa uma das personagens de “O gosto dos outros”, o tal filme que também realizara, e que uns dias antes passara no segundo canal português. A nossa visita à casa e ao jardim seguiu de perto a sua e, a dado momento, quando a cineasta se encontrava sentada junto à balaustrada de um pequeno terraço, a Florinda propôs-nos que lhe tirássemos uma fotografia. Seria um pretexto discreto para, igualmente, registar a presença de Jaoui na casa de Monet. Assim fizemos, para maior glória do pintor. E dei comigo a pensar como a pintura, o cinema e a banda desenhada se iam curiosamente entretecendo nestas nossas visitas à Cidade-Luz.
(continua)

3 Comentários:

Anonymous Anónimo said...

O apelido , Jaoui, desta realizadora (pouca gente saberá) é artístico e nasceu de uma brincadeira.
Certa noite, numa roda de amigos, alguém lhe perguntou :- Agnés, tu já...? Oui, foi a resposta. E lá ficou Agnès Jaoui.

Cultura é isto, saber estas coisas só ao alcance de espíritos superiores a quem a História um dia há-de fazer justiça.

A propósito, Pedro, tu já...?

10:22 p.m.  
Blogger Joao Augusto Aldeia said...

Há uma cena de um filme de Woody Allen em que ele mostra a uma senhora (Diane Keaton ?) um foto com os amigos. Espanta-se a senhora: "Mas não te vejo na fotografia!" E ele: "Ah, pois, eu estava aqui neste sítio" - e apontava para o espaço imediatamente à direita da fotografia.

O Pedro, nesta foto, não ficou nesse limbo woodyallenesco, mas faltou pouco.

7:08 p.m.  
Blogger Pedro Martins said...

É bem verdade, João. Confesso que só ontem, ao ampliar a foto, descobri que lá estava. Se calhar fiquei inadvertidamente na foto - e na sombra.

Digo "se calhar" porque já não me lembro se o propósito era, ou não, o de também aparecer.

Este episódio foi muito rápido, a Agnès estava mesmo ali à mão de semear, com um semblante muito triste e contemplativo, muito, muito melancólica, a nossa prima Florinda teve a belíssima ideia-pretexo de a fotografarmos, e, provavelmente, eu não era para aparecer na fotografia. Mas fiquei na sombra, algo conspirativo, e satisfeito por ter colaborado nesta inocente devassa.

Já agora, aproveitando a benévola provocação do João, respondo também ao impertinente Cláudio Moneta: já, Cláudio, já cheguei a casa, como podes ler. Ou ver.

7:26 p.m.  

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