Curtas (47)
Dádivas
A exposição “Sesimbra – Retrato de Uma Vila Piscatória”, da fotógrafa canadiana Denyse Gérin-Lajoie, que encerrou no passado sábado, na Sociedade Nacional de Belas Artes, em Lisboa, e a encenação, na Azoia, do “Sonho de Uma Noite de Verão”, por São José Lapa, envolvendo jovens actores amadores daquela zona, são factos muito recentes que nos oferecem vários planos de abordagem para uma reflexão. Primeiro, terão o seu mérito artístico próprio. Maior ou menor, não importa aqui discretear. Mas, por certo, significativo. Depois, mais do que se julga, têm o condão de, conforme os casos, promover a imagem de Sesimbra no país ou no estrangeiro. A amplitude da mostra de Lajoie, numa importante sala da capital, e a dois passos da concorrida Cinemateca Nacional, deve querer dizer alguma coisa. E a exposição vai ainda conhecer uma considerável itinerância no Canadá, nos Estados Unidos e em França. Por outro lado, no último fim-de-semana, e em dois dias distintos, vi passar em rodapé, nos serviços noticiosos da TVI, uma chamada de atenção para a peça que voltará a estar em cena nas Aguncheiras. Por último, e talvez seja este o aspecto mais importante a reter, estamos perante autênticos gestos de dádiva, da parte de quem chega de fora e verdadeiramente nada nos pede em troca. Saberemos estar à altura das circunstâncias?
A exposição “Sesimbra – Retrato de Uma Vila Piscatória”, da fotógrafa canadiana Denyse Gérin-Lajoie, que encerrou no passado sábado, na Sociedade Nacional de Belas Artes, em Lisboa, e a encenação, na Azoia, do “Sonho de Uma Noite de Verão”, por São José Lapa, envolvendo jovens actores amadores daquela zona, são factos muito recentes que nos oferecem vários planos de abordagem para uma reflexão. Primeiro, terão o seu mérito artístico próprio. Maior ou menor, não importa aqui discretear. Mas, por certo, significativo. Depois, mais do que se julga, têm o condão de, conforme os casos, promover a imagem de Sesimbra no país ou no estrangeiro. A amplitude da mostra de Lajoie, numa importante sala da capital, e a dois passos da concorrida Cinemateca Nacional, deve querer dizer alguma coisa. E a exposição vai ainda conhecer uma considerável itinerância no Canadá, nos Estados Unidos e em França. Por outro lado, no último fim-de-semana, e em dois dias distintos, vi passar em rodapé, nos serviços noticiosos da TVI, uma chamada de atenção para a peça que voltará a estar em cena nas Aguncheiras. Por último, e talvez seja este o aspecto mais importante a reter, estamos perante autênticos gestos de dádiva, da parte de quem chega de fora e verdadeiramente nada nos pede em troca. Saberemos estar à altura das circunstâncias?

11 Comentários:
Se não nos pedem nada em troca, não há expectativas a corresponder e, consequentemente, nenhuma frustração. Ou não é assim?
Não percebo é a questão com que termina o post.
Não estaremos à altura, por falta de público?
Ou não estaremos à altura porque dentro de portas não valorizamos as pessoas que sendo de ou vivendo cá a enaltecem também?
Ou, por fim, porque nos resignamos à indiferença e não promovemos quaisquer outras iniciativas?
P. Trafaria,
Agradeço o seu comentário.
Quem (se) dá artisticamente, espera sempre alguma resposta, creio eu, por mais subtil ou imperceptível que esta possa ser. Pode é não pedi-la, no sentido de que não faz depender a dádiva da retribuição. Mas isso não quer dizer que a não espere, e que a não possamos dar. Foi neste sentido aquilo que escrevi.
Quanto à questão com que termino a minha entrada... é bastante lúcida a forma como a escalpelizou. Sim, é tudo isso, e talvez algo mais. Mas, no fundo, a indiferença será o denominador comum. E é por causa dessa indiferença que a resposta não é dada, mesmo a quem dela não faz uma "condição sine qua non". Mudar este estado de coisas, eis o desafio...
Caro Pedro Martins,
Por vezes a indiferença esconde, não a simples indiferença ou desinteresse, mas tão-só o receio de de dar o primeiro passo, de ser mal interpretado, e, na maioria das vezes (se não em todas), o de falhar.
Se o dar nem sempre implica receber, o que é certo é que o dar implica a exposição. E é essa a barreira que muitas vezes é intransponível.
É mais fácil dar quando o outro é-nos desconhecido, longínquo ou quando se confunde no meio da multidão.
E foi essa a questão que mais me suscitou o interesse no seu post: o de duas mulheres estranhas à terra a valorizarem. Uma centrando a atenção na vila propriamente dita, a outra nas pessoas do seu concelho. E mais, os locais onde os acontecimentos tiveram lugar - em Lisboa e na Azoia - longe daquele que é centro das nossas atenções.
Quando falo de indiferença, longe de mim julgar intenções. E é muito bem observado esse aspecto da timidez. Em muitos casos será esse o motivo, sem dúvida. Noutros, será a falta de tempo, a ausência de informação, de divulgação. Os blogues podem - e devem - dar alguns contributos. E fazem-no. Talvez pudessem fazer mais, o que os obrigaria a estarem mais atentos. Mas não podemos esquecer que são sobretudo páginas pessoais, reflectem gostos.
Por outro lado, talvez os resultados estejam longe de ser imediatos.
Conheço mal a evolução do "Sonho De Uma Noite de Verão" na Azoia. Mas, do pouco que sei, acho o projecto da actriz São José Lapa notável.
Quanto à Denyse, no sábado passado pude testemunhar - e não fui o único - o seu amor a Sesimbra, o entusiasmo e a paixão que põe no seu trabalho, o espírito de equipa que procura cultivar, a atenção, a solicitude, a gentileza que revela no trato com o seu semelhante. É simplesmente contagiante!
Lisboa e a Azoia também são pistas muito interessantes. Que ideia é que Sesimbra-vila faz do seu concelho? Afinal de contas, estarão a nascer actores na Azoia...
E que ideia faz da região de que naturalmente faz parte? Tenho para mim que as serras de Sintra e da Arrábida delimitam uma pequena-grande região. É a esse mundo que Sesimbra pertence. Poderá a vila viver apenas virada para o mar, fechada na sua concha, de costas voltadas para esse pequeno mundo, ou para o mundo inteiro? Atenção: eu não estou certo de que seja exactamente assim. Mas São José Lapa e Denyse Gérin-Lajoie representam bem os novos caminhos a seguir...
Em jeito de adenda
Parafraseando um conhecido programa de rádio: será que São José Lapa traz o mundo a Sesimbra e que Denyse leva Sesimbra ao mundo? É o eterno diálogo entre o local e o universal. Este último, diz Torga, é o local sem muros... Haverá muros por derrubar? E deverão todos cair?
Será uma fatalidade a desqualificação cultural a que o poder autárquico tem votado Sesimbra?
A visão “ popularucha” do pelouro da cultura não abre brechas.
Sopram de fora, felizmente, brisas serenas.
William Sakespeer na Azóia, é possível sim senhor e sem apoios camarários.
Pelos vistos os apoios em Sesimbra são canalizados para Ágata e Alex. Que tristeza…
O Pedro Martins pergunta se “Haverá muros por derrubar? E deverão todos cair?”
Em minha opinião existem muros que valerá a pena derrubar.
Comecemos pelos muros da ignorância e da desqualificação.
A propósito de muros, aqui fica um dos mais belos poemas de José Afonso
Utopia
Cidade
Sem muros nem ameias
Gente igual por dentro
gente igual por fora
Onde a folha da palma
afaga a cantaria
Cidade do homem
Não do lobo mas irmão
Capital da alegria
Braço que dormes
nos braços do rio
Toma o fruto da terra
E teu a ti o deves
lança o teu
desafio
Homem que olhas nos olhos
que não negas
o sorriso a palavra forte e justa
Homem para quem
o nada disto custa
Será que existe
lá para os lados do oriente
Este rio este rumo esta gaivota
Que outro fumo deverei seguir
na minha rota?
Um facto: no programa distribuído no espectáculo das Aguncheiras havia um agradecimento à Vereadora Felícia Costa.
Quando oiço ou leio críticos dos apoios oficiais a actividades culturais, digo para mim mesmo: pode ser que sim, mas e que apoios dariam os "críticos" se tivessem poderes para tal?
Que autores seriam levadas à cena? Seria Shakespeare? Ou seria mais "Sakespeer"?
J.A. não critica a programação cultural da câmara. Poderei considerar que a apoia? Não tem nenhum problema. Admita no entanto, nem que seja em tese, que nem todos gostam de Ágata e de Alex.
Veio em defesa de uma vereadora da Câmara Municipal. Não lhe fica mal. Mal ficaria que, não sendo J.A. critico da programação cultural da Câmara, saísse em defesa de programação alternativa.
Existe diferença entre quem gosta do que come e quem come do que gosta?
A graçola sobre Shakespeare ou "Sakespeer"? fez-me rir. A sério J.A. Obrigado pela correcção e ironia. Quanto à defesa apressada, e sem jeito, da sua vereadora que posso eu dizer?
A Câmara poderá apoiar qualquer iniciativa que tenha organização própria, através de todo o equipamento logístico e promocional que seja solicitado ou através de apoio financeiro(o que, verificada as dificuldades orçamentais que atravessa fruto, entre outras(muitas)causas, das assessorias (des)necessárias para a elaboração, programação e execução de animação cultural e turística de qualidade (Ágata, Alex e Carnaval todo o ano), bem como (des)necessárias a todo o marketing inerente a qualquer actividade de promoção de imagem que tenham, que no caso, são quase todas.
Como se depreende o agradecimento na pessoa da Sra. Vereadora faz sentido, porque esta Sra. acumula a Vereação da Cultura/Turismo e da Informação e Relações Públicas e este tipo de iniciativas, embora sem a organização de fundo e realização da Câmara, necessitam desta para as promover e divulgar.
Infelizmente. Para a Câmara, é a única hipótese de apresentar animação de qualidade neste grande Carnaval o ano inteiro, e ter o seu cunho.
Interessantes os comentários que se seguiram ao último de Pedro Martins.
Porque, independentemente do seu teor mais ou menos viperino, tocam uma questão importante: até que ponto deve a sociedade civil (para usar uma expressão em voga) deve esperar do poder local ou até estadual o único impulso no que toca a eventos culturais e artísticos?
Ao que sei nos eventos aqui alvo de comentário não houve qualquer papel quanto à sua organização da CMS. Mas será que a CMS tinha que o ter?
Quanto aos exemplos que são apresentados como organização da CMS, independentemente do facto de se gostar ou não dos intérpretes digo tão-só que gosto em geral de música. Sucede que até à data nem a Ágata nem o Marco Paulo (porque confesso a minha ignorância o Alex não sei quem é) não produziram nenhuma música que me soasse bem ao ouvido, mas também não tinha qualquer pudor em admitir o contrário.
Pegando agora na questão de Pedro Martins quantos aos "limites geográficos", reconheço que certas barreiras hoje em dia não têm razão de existir e que a abertura aos outros é importante como processo de enriquecimento, porque ganha-se sempre algo (lá voltamos mais uma vez ao dar e receber). Por outro lado, tendo em conta o progressivo desaparecimento da população do centro da vila e a sua fixação naquelas que há tempos eram consideradas os seus subúrbios, certamente que a vila não pode ser mais considerada o centro DA vida, mas não perderá, nem pode perder, por tal facto, o seu papel aglutinador.
miguel:
aprecio o sentido de humor e, por isso, fico contente por o miguel ter sabido rir da minha observação; afinal, por lapsos bem menores (vírgulas, etc.) já vi exigir demissões de cargos públicos...
mas, quanto à questão de fundo, levo-a muito a sério: até que ponto os críticos fariam melhor?
acredite que me rio sempre que leio esses escritos inflamados sobre as actividades culturais publicas se limitarem à música ligeiríssima, pois sei que as iniciativas da autarquia não se restringem a isso; e também o sabem aqueles que, dotados de boa capacidade de escrita, apontam e salientam esses espectáculos menores, omitindo propositadamente os de maior qualidade, por razões que eles lá conhecerão; o certo é que nunca se comprometem: não dizem que não há outras coisas, apenas o omitem com arte e engenho.
e ainda continuo a sorrir, embora com menos vontade, daqueles que se limitam a ler estes escritos e, ingenuamente, ficam convencidos de que a actividade cultural da autarquia se limita às Ágatas e Alexes, e o escrevem, denunciando, afinal, desconhecimento do que se passa.
mas já não me rio (também tenho as minhas limitações) quando, depois destes últimos comentários expressamente equivocados, os autores iniciais não os corrigem - embora sejam lestos noutras correcções.
note bem: não é que eu esteja a defender a programação cultural da Câmara - não me pronunciei sequer sobre isso; estou apenas a dizer, e espero ter sido claro, que gente que escreve, ou insinua, que a programação cultural da autarquia se limita às Ágatas e Alexes, não está a escrever a verdade e, portanto, nunca poderá ser uma boa alternativa cultural; e acredite que não me estou a referir a si, porque se limitou a repetir o que leu - ou deduziu do que leu.
amigo: há uma parte do seu curto escrito que eu ignorei; acredite não foi por leviandade, mas sim por boa educação.
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