segunda-feira, junho 26, 2006

Os encontros de Paris (1)















Eric Rohmer

“Os encontros de Paris” é o título de um filme de Eric Rohmer, um dos meus cineastas preferidos. Vi-o na RTP 2, em Agosto de 2000, alguns dias antes de visitar a capital francesa pela primeira vez. Na altura, empreender uma viagem aérea para aquela cidade poderia passar por ser um pequeno acto de coragem, pois, no início desse Verão, um avião Concorde havia caído tragicamente, pouco depois de descolar, no aeroporto de Charles de Gaulle. Mas, ainda assim, levantei voo.

Lembro-me de não ter visto o filme de Rohmer desde o início. Descobri, por acaso, que estava a passar nessa noite no segundo canal. Mas segui boa parte da fita, que, se a memória me não atraiçoa, nos conta três histórias de amor, a última das quais termina nas ruas íngremes de Montmartre. Como seria de esperar de Rohmer, realizador austero e circunspecto, o Paris que nos é dado conhecer neste filme será tudo menos a cidade mais óbvia dos roteiros turísticos, polarizada em meia dúzia de lugares muito comuns: do êxtase gótico da Notre-Dame à ênfase patriótica do Arco do Triunfo, passando pelas longas linhas rectas das Tulherias e dos Campos Elíseos e pelos brandos traços curvos do Sena, vê-se uma cidade há muito tomada de assalto pela avidez (de imagens e souvenirs) das hordas nipónicas e de outros magotes de forasteiros, que, partindo de Orly e Roissy, convergem para as galerias intermináveis do Louvre ou para o acume do Sacré-Coeur. No alto da colina singular, nem por isso têm Paris a seus pés, pois a cidade, fugidia, incomensurável, não se entrega em visitas mais ou menos apressadas.

Paris defende-se dos estrangeiros na monotonia que dimana das fachadas do Barão Haussmann; impressiona os espíritos meridionais pela aparente indiferença dos habitantes; e pode mesmo feri-los com a frieza pétrea da sua arquitectura e as rasoiras geométricas a que submete as copas das árvores nas alamedas rectilíneas dos seus jardins. Talvez os portugueses estranhem tudo isto, e também a diferença de escala. Confesso que a minha primeira reacção foi de um certo desapontamento, perante a sensação de vogar numa cidade liofilizada, de rosto quase artificial, e que tende a esmagar-nos pelo modo como se nos impõe.

Ora, se bem me lembro, o filme de Rohmer consegue escapar a qualquer uma das perspectivas que apontei. Foge à visão mainstream da grande máquina turística em que a própria urbe há muito se transformou, mas evita desalentar-nos com o desumano discurso do método em que a velha metrópole se desdobra. Deitar o olhar sobre certos lugares de Paris envolve o perigo de se cair ou na banalidade ou na indistinção. Mas estou em crer que Rohmer encontrou a justa medida e soube dar-nos uma visão de equilíbrio em que as pessoas e os sítios não se anulam nem se sobrepõem. Como se fosse um funâmbulo, Rohmer caminhou talvez sobre o fio da navalha, mas sem cair no precipício. E deixou-me um filme como quem deixa um programa, levando-me a procurar um outro Paris. Foi por vezes nesta cidade diferente, ou até ao seu redor, que também tive alguns encontros…
(continua)

5 Comentários:

Anonymous Anónimo said...

Ir a Paris e não ver o Sacré Coeur seria o mesmo que ir a Rohmer e não ver o Papa...

7:23 p.m.  
Anonymous Anónimo said...

Eu cá não percebo é por que é que falam em Jardim do Luxemburgo se o dito fica em Paris de França...

7:36 p.m.  
Anonymous Anónimo said...

Deus nos Louvre de ver o Papa num filme de um realizador da Nouvelle Vague...

7:38 p.m.  
Blogger Elora said...

Adoro Paris!

5:05 p.m.  
Blogger Pedro Martins said...

E faz muito bem, pois então!

8:54 p.m.  

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