Os encontros de Paris (2)

(continuação do texto publicado ontem)
Albert Uderzo
UDERZO.
Com um ponto final, sem mais. Foi desta forma sumaríssima que o grande criador de banda desenhada me autografou, em 2001, um exemplar de “Astérix et Latraviata”. As Galerias La Fayette bem anunciavam para as duas – ou duas e meia – da tarde desse sábado, 21 de Abril, uma sessão de “dédicaces” com Allbert Uderzo, mas nenhuma outra palavra, além do nome de família, se conseguiu extorquir ao celebrado génio dos quadradinhos. Nem palavras escritas, nem ditas, pois o homem, durante os minutos em que o observei, limitou-se a sorrir esfingicamente, a sorrir muito, a sorrir sempre, com o mesmo sorriso diplomático e inexpressivo, enquanto assinava os frontispícios do seu novo álbum.
De manhã, eu passara por acaso, e um pouco a contragosto, com a minha mulher no famoso armazém dos Grands Boulevards. Mas tive a sorte de ali encarar com o anúncio da sessão de autógrafos. Não estranhei o sucedido, mas acabei por entranhá-lo. Talvez uma hora depois, junto à Torre Eiffel, a ideia começou a germinar. Acabaria por obsidiar-me. Seria estulto deixar Paris, dali por dois dias, sem levar na bagagem a pequena relíquia. Na Avenue do General Leclerc – por gentilíssima concessão familiar da prima Florinda, o nosso habitual poiso parisiense –, não mandei o almoço às malvas, mas releguei-o para as calendas.
Chegar a tempo às Galerias La Fayette tornou-se logo uma obsessão. Com o metropolitano à porta de casa, isso não se antevia difícil. Bastar-me-ia tomar a linha 4 até ao Châtelet e ali mudar de direcção uma única vez. Desci confiadamente as escadas da estação de Mouton Duvernet, mas deparei-me com uma avaria arreliadora. Como alternativa, restava-me o autocarro. Das duas carreiras que passam naquela avenida, uma – a número 68 – pára precisamente à porta das Galerias. Mas, dado o desarranjo próximo nos comboios subterrâneos, à superfície os autocarros abarrotavam. Por fim, e a custo, lá consegui enfiar-me num daqueles que mais me convinham. Até à Rue de Chaussée d’Antin, deparei-me ainda com um trânsito infernal. Temi pelo troféu. Mas cheguei à tabela e pude, assim, resgatar estoicamente a assinatura preciosa de Uderzo.
Fariam talvez uma vintena as pessoas que, como eu, haviam comprado “Latraviata” com o fito interesseiro do autógrafo. Um ambiente frio, um distanciamento cultivado, um apertado, posto que discreto, esquema de controlo, rodeavam o majestático Uderzo. Todos os nossos passos eram rigorosamente observados por empregados da loja. Longínquo, inacessível, quase glacial, nada deveria incomodá-lo. As palavras, poucas que fossem, estavam-nos tacitamente vedadas. Deslizávamos céleres perante aquele homem que desenhava como poucos, e agora apenas traçava o seu nome célebre nas primeiras páginas dos nossos livros. Dir-se-ia que os seus sorrisos eram o reflexo dos nossos. Sim, talvez tenha sido o meu sorriso aquele que ele me devolveu, como um raio de sol que a neve reflectisse. Sim, talvez fosse o meu sorriso, o sorriso da criança que já fui e que, por alguns minutos, ali renasceu, maravilhada por estar ao pé de um dos homens que mais encheram de magia as suas primeiras tardes de leitura…
UDERZO.
Com um ponto final, sem mais. Foi desta forma sumaríssima que o grande criador de banda desenhada me autografou, em 2001, um exemplar de “Astérix et Latraviata”. As Galerias La Fayette bem anunciavam para as duas – ou duas e meia – da tarde desse sábado, 21 de Abril, uma sessão de “dédicaces” com Allbert Uderzo, mas nenhuma outra palavra, além do nome de família, se conseguiu extorquir ao celebrado génio dos quadradinhos. Nem palavras escritas, nem ditas, pois o homem, durante os minutos em que o observei, limitou-se a sorrir esfingicamente, a sorrir muito, a sorrir sempre, com o mesmo sorriso diplomático e inexpressivo, enquanto assinava os frontispícios do seu novo álbum.
De manhã, eu passara por acaso, e um pouco a contragosto, com a minha mulher no famoso armazém dos Grands Boulevards. Mas tive a sorte de ali encarar com o anúncio da sessão de autógrafos. Não estranhei o sucedido, mas acabei por entranhá-lo. Talvez uma hora depois, junto à Torre Eiffel, a ideia começou a germinar. Acabaria por obsidiar-me. Seria estulto deixar Paris, dali por dois dias, sem levar na bagagem a pequena relíquia. Na Avenue do General Leclerc – por gentilíssima concessão familiar da prima Florinda, o nosso habitual poiso parisiense –, não mandei o almoço às malvas, mas releguei-o para as calendas.
Chegar a tempo às Galerias La Fayette tornou-se logo uma obsessão. Com o metropolitano à porta de casa, isso não se antevia difícil. Bastar-me-ia tomar a linha 4 até ao Châtelet e ali mudar de direcção uma única vez. Desci confiadamente as escadas da estação de Mouton Duvernet, mas deparei-me com uma avaria arreliadora. Como alternativa, restava-me o autocarro. Das duas carreiras que passam naquela avenida, uma – a número 68 – pára precisamente à porta das Galerias. Mas, dado o desarranjo próximo nos comboios subterrâneos, à superfície os autocarros abarrotavam. Por fim, e a custo, lá consegui enfiar-me num daqueles que mais me convinham. Até à Rue de Chaussée d’Antin, deparei-me ainda com um trânsito infernal. Temi pelo troféu. Mas cheguei à tabela e pude, assim, resgatar estoicamente a assinatura preciosa de Uderzo.
Fariam talvez uma vintena as pessoas que, como eu, haviam comprado “Latraviata” com o fito interesseiro do autógrafo. Um ambiente frio, um distanciamento cultivado, um apertado, posto que discreto, esquema de controlo, rodeavam o majestático Uderzo. Todos os nossos passos eram rigorosamente observados por empregados da loja. Longínquo, inacessível, quase glacial, nada deveria incomodá-lo. As palavras, poucas que fossem, estavam-nos tacitamente vedadas. Deslizávamos céleres perante aquele homem que desenhava como poucos, e agora apenas traçava o seu nome célebre nas primeiras páginas dos nossos livros. Dir-se-ia que os seus sorrisos eram o reflexo dos nossos. Sim, talvez tenha sido o meu sorriso aquele que ele me devolveu, como um raio de sol que a neve reflectisse. Sim, talvez fosse o meu sorriso, o sorriso da criança que já fui e que, por alguns minutos, ali renasceu, maravilhada por estar ao pé de um dos homens que mais encheram de magia as suas primeiras tardes de leitura…
(continua)

1 Comentários:
No fundo, os livros do Astérix também são para leitores dos 7 aos 77 anos.
O nome do genial Goscinny mantém-se sempre nas capas, mesmo nos albuns posteriores à sua morte, ao lado do de Uderzo. And "it's the name above the title"...
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