Os encontros de Paris (4)
(continuação do texto publicado ontem)
Nessa mesma tarde regressámos a Paris muito a horas de um chocolate quente na esplanada do Café de La Mairie, na Place de Saint-Sulpice. A igreja, a fonte, as casas e as árvores fazem dela uma das mais belas praças do mundo. Dir-se-ia um pequeno trecho de Itália enxertado no coração da França. A actriz Catherine Deneuve – que ainda não encontrei em Paris – mora num prédio fronteiro ao soberbo templo católico, que “O Código Da Vinci” ajudou a celebrizar. Por esses dias, eu ainda não lera o romance de Dan Brown. Fá-lo-ia umas semanas depois, para não morrer estúpido. Mas, naquele fim de tarde, Saint-Sulpice (num dos cantos da praça fica a excelente livraria La Procure) já haveria de ficar marcada na minha esfera pessoal pelo sortilégio dos livros e da literatura.
A Florinda estacionou o carro num dos arruamentos que ladeiam a igreja. Logo que saí, deparei-me com uma montra onde se exibiam algumas capas de livros. O nome de uma autora soou-me lusitano. Alice Machado. Perguntei então à Florinda, que é professora de Português perto dali, no Liceu Montaigne, à beira do Jardim do Luxemburgo, se aquela escritora era portuguesa, e se a conhecia. Respondeu-me que sim. Quase em simultâneo, ouvimos uma voz exclamar: “Sim, sou eu! A Alice Machado sou eu…” E logo uma senhora se nos dirigiu, dizendo-nos que era ela Alice Machado, a autora das minhas cogitações, transportada, como que por magia, da montra da editora Lanore para aquele passeio de Saint-Sulpice.
Transmontana há muito radicada em França, acabara de regressar a Paris, vinda do Porto, naquele mesmo dia, e dirigia-se precisamente à casa que, em França, lhe publica os romances, quando nós ali parámos. Convidou-nos a entrar. Apresentou-nos a alguns empregados da editora, que não sendo das mais conhecidas, é uma chancela respeitável. Se a memória me não atraiçoa, Alice Machado, como quem ia urdindo a teia que a ligava à pátria de origem, adiantou-nos, com uma ponta de orgulho, que a sua editora fora a primeira a editar o Eça em França. Doutorada em Literaturas Modernas pela Universidade de Paris, Alice escreve em francês mas tem dois romances traduzidos para a sua outra língua – “O Vale dos Heróis” e “A Cor da Ausência” –, publicados pela Editorial Europa-América. Na portuense Campo das Letras editou também “Horas Azuis”, um volume de poesia.
Mesmo se a sua produção literária tem passado despercebida aos leitores portugueses, Alice Machado já recebeu uma medalha de honra da Assembleia da República em reconhecimento da sua obra; recentemente, ganhou também o prémio LABEL da revista “Elle”. Confesso não ter lido ainda qualquer dos seus livros, mas guardo na memória este encontro súbito e imprevisto à sombra da igreja de Saint-Sulpice, que só o comum código da língua tornou possível.
A Florinda estacionou o carro num dos arruamentos que ladeiam a igreja. Logo que saí, deparei-me com uma montra onde se exibiam algumas capas de livros. O nome de uma autora soou-me lusitano. Alice Machado. Perguntei então à Florinda, que é professora de Português perto dali, no Liceu Montaigne, à beira do Jardim do Luxemburgo, se aquela escritora era portuguesa, e se a conhecia. Respondeu-me que sim. Quase em simultâneo, ouvimos uma voz exclamar: “Sim, sou eu! A Alice Machado sou eu…” E logo uma senhora se nos dirigiu, dizendo-nos que era ela Alice Machado, a autora das minhas cogitações, transportada, como que por magia, da montra da editora Lanore para aquele passeio de Saint-Sulpice.
Transmontana há muito radicada em França, acabara de regressar a Paris, vinda do Porto, naquele mesmo dia, e dirigia-se precisamente à casa que, em França, lhe publica os romances, quando nós ali parámos. Convidou-nos a entrar. Apresentou-nos a alguns empregados da editora, que não sendo das mais conhecidas, é uma chancela respeitável. Se a memória me não atraiçoa, Alice Machado, como quem ia urdindo a teia que a ligava à pátria de origem, adiantou-nos, com uma ponta de orgulho, que a sua editora fora a primeira a editar o Eça em França. Doutorada em Literaturas Modernas pela Universidade de Paris, Alice escreve em francês mas tem dois romances traduzidos para a sua outra língua – “O Vale dos Heróis” e “A Cor da Ausência” –, publicados pela Editorial Europa-América. Na portuense Campo das Letras editou também “Horas Azuis”, um volume de poesia.
Mesmo se a sua produção literária tem passado despercebida aos leitores portugueses, Alice Machado já recebeu uma medalha de honra da Assembleia da República em reconhecimento da sua obra; recentemente, ganhou também o prémio LABEL da revista “Elle”. Confesso não ter lido ainda qualquer dos seus livros, mas guardo na memória este encontro súbito e imprevisto à sombra da igreja de Saint-Sulpice, que só o comum código da língua tornou possível.
(continua)


2 Comentários:
Lembro-me de entrar nessa Igreja e perder a fala. De achar o tecto parecido com o céu de uma noite de Verão.
É um lugar mágico e misterioso. À direita de quem entra, há pinturas extraordinárias de Delacroix. Ouvi dizer a quem sabe que são enigmáticas, e que oferecem outras leituras... Mas a Elora não me pergunte quais são essas leituras, que eu não sei, não retive os ensinamentos...
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