ZECA
por ElísioEra meu primo em segundo grau. Numa altura em que era popular, tentei organizar um concerto com ele, no âmbito dos estudantes de Lisboa. O Zeca estava doente, muito doente. Saía do seu momento de popularidade, como quem sai de uma chuvada de Verão, refrescado e abençoado, quando a secura que se segue, ainda rilha mais depressa. Alguns dos “camaradões” de um tempo, não lhe abriam a porta, alguns torturavam-no com aquele veneno português do “depois a gente fala”. Não os posso julgar, eles que arrumavam as malas, algumas generosas, da Revolução para partirem para essa viagem sem regresso, a qual, para a maioria das pessoas, só se faz uma vez na vida: a do Sonho para a Realidade, e com o comboio atrasado (viagem de regresso, só como uma terceira dentição...) O Zeca descreveu-me ao lado, num canapé, como ia morrer. A meio da noite, levantando-se a sufocar, com a glote presa à garganta, asfixiando como um cão. Porque gostava ele desta imagem do cão…? Cães perdidos sem coleira, dizia o Jim Morrison. Como ele sempre foi. E Homem Bom. Generoso, acendendo logo, dando-se sem taça.
Vinha da parte republicana da minha família, neto do Cerqueira de Ponte do Lima, que tem lá uma estátua, que era Inspector-Geral do Ensino Primário e que fez a primeira cartilha escolar da República (não, não foi a do João de Deus!). Guardava dele, contudo, uma lição: o Republicano era tirânico em casa, educava os filhos com um frio de arrepio. Pelos vistos, ser rico em vida, era o céu dos republicanos. Mais o inferno do Orgulho.
Depois cantou. O seu primeiro disco, “Baladas”, continha uma, claramente apelando à deserção, e foi expulso do ensino secundário, no contexto do qual, por amor aos alunos e às aulas, decidira aproveitar a sua boa voz das tunas de Coimbra, e ensinar Literatura portuguesa aos alunos, a cantar. Passou a viver de cantar. Era famoso pelo seu sentido de humor iconoclasta que punha toda a gente a rir, mas também pelos seus complicados humores gástricos e psicológicos que transtornavam os frágeis programas da sua banda. Sofreu muito de Amor por ser fiel e leal mas, nesse capítulo, acabou muito feliz. Morreu por excesso de generosidade, depois duma tournée pela Espanha operária, quando haviam disseminado o óleo alimentar, misturado do de automóveis, no mercado.
Falámos um dia sobre a praxe, que eu tentava restaurar, noutros termos, mas também muito nos termos daquilo que eu considerava a tradição da irreverência estudantil. Tenho a impressão que o termo “irreverência” passou a fazer parte do vocabulário elegante de então, porque tivemos algum êxito com a nossa “Praxis” da “Academia de Lisboa”, embora, para ser sincero, nós queríamos mesmo era ser contundentes. O Zeca entendeu-me nos gestos que um mesmo sangue gera: limitou-se a dizer que o Milo MacMahon, dos “Duo Ouro Negro”, foi um dia chamado de preto por um capitão da Praxe, em Coimbra e lhe respondeu, nos termos do Código, desafiando-o: o capitão levou bem nas ventas e o Milo ficou respeitadinho pela Praxe, em que participava, se ria, e se integrou, desde aí.
O facto de Cavaco ter repetido um verso do meu Primo, vejo-o como um estranho prémio: sim, porque o Zeca, como S. Francisco, correu do castelo para o Monte, a vida toda, para ser Povo, quando o Povo já não o queria ser. Cantava: “fui como a erva do chão. Bendita seja a Morte, bendita seja a Dor, benditas sejam as portas do Amor”. E sei que essas também foram as do Céu.
Vinha da parte republicana da minha família, neto do Cerqueira de Ponte do Lima, que tem lá uma estátua, que era Inspector-Geral do Ensino Primário e que fez a primeira cartilha escolar da República (não, não foi a do João de Deus!). Guardava dele, contudo, uma lição: o Republicano era tirânico em casa, educava os filhos com um frio de arrepio. Pelos vistos, ser rico em vida, era o céu dos republicanos. Mais o inferno do Orgulho.
Depois cantou. O seu primeiro disco, “Baladas”, continha uma, claramente apelando à deserção, e foi expulso do ensino secundário, no contexto do qual, por amor aos alunos e às aulas, decidira aproveitar a sua boa voz das tunas de Coimbra, e ensinar Literatura portuguesa aos alunos, a cantar. Passou a viver de cantar. Era famoso pelo seu sentido de humor iconoclasta que punha toda a gente a rir, mas também pelos seus complicados humores gástricos e psicológicos que transtornavam os frágeis programas da sua banda. Sofreu muito de Amor por ser fiel e leal mas, nesse capítulo, acabou muito feliz. Morreu por excesso de generosidade, depois duma tournée pela Espanha operária, quando haviam disseminado o óleo alimentar, misturado do de automóveis, no mercado.
Falámos um dia sobre a praxe, que eu tentava restaurar, noutros termos, mas também muito nos termos daquilo que eu considerava a tradição da irreverência estudantil. Tenho a impressão que o termo “irreverência” passou a fazer parte do vocabulário elegante de então, porque tivemos algum êxito com a nossa “Praxis” da “Academia de Lisboa”, embora, para ser sincero, nós queríamos mesmo era ser contundentes. O Zeca entendeu-me nos gestos que um mesmo sangue gera: limitou-se a dizer que o Milo MacMahon, dos “Duo Ouro Negro”, foi um dia chamado de preto por um capitão da Praxe, em Coimbra e lhe respondeu, nos termos do Código, desafiando-o: o capitão levou bem nas ventas e o Milo ficou respeitadinho pela Praxe, em que participava, se ria, e se integrou, desde aí.
O facto de Cavaco ter repetido um verso do meu Primo, vejo-o como um estranho prémio: sim, porque o Zeca, como S. Francisco, correu do castelo para o Monte, a vida toda, para ser Povo, quando o Povo já não o queria ser. Cantava: “fui como a erva do chão. Bendita seja a Morte, bendita seja a Dor, benditas sejam as portas do Amor”. E sei que essas também foram as do Céu.

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