sexta-feira, julho 07, 2006

PORTUGAL

por Elísio

Portugal não é uma cerveja nem um trocadilho de publicidade. Portugal não é uma equipa de futebol, antes ou depois de ganhar. Não é uma toalha, um lenço, uma cor maluca do cabelo ou uma maquilhagem mais ou menos de filme. Portugal não é uma confraternização depois do jogo, ou antes, à volta de um televisor. Portugal não é “aqui estou eu!”. Portugal não vale uma missa, em que entro, me ajoelho e me levanto, canto uma ou duas canções, molho os dedos na água benta e me limpo de alguns maus pensamentos, para depois ir fazer o que faço sempre. Portugal não é as costas quentes para bater nos outros que não são Portugal. Se não se lembram, aprendam que Portugal é esforço, sacrifício e também tragédia e até um pouco mais tristeza, uma tristeza inexplicável que não tinge os rostos de outras Nações. E, por isso, de vez em quando, Portugal é uma alegria infantil, quase, uma tranquilidade, imaculada do medo. Por isso Portugal é senhor da Tristeza, domador do Monstrengo que está no fim do Mar, surdo barquinho frágil, flutuando com a brisa nas barbas do Adamastor. Portugal não é reconhecimento em vida e, ao invés, é tremenda guerra e batalha enquanto a vida dura. Portugal é quase, quase uma maldição, porque africano e atlântico, celta e viking, roçou o fogo do Inferno. Quem está disposto a ir com Orfeu e com Jesus a essa profundezas e acompanhá-los até fora, sem olhar para trás, sabe que essa é a gotinha de orvalho que Portugal condensou na mão de Deus, o seu pequenino presente acrescentado ao Universo. Não saberemos nunca o que verdadeiramente se esconde por trás dos olhos de um português e essa é a nossa bandeira.

Portugal não é uma rasteira na grande área. Portugal não é uma rasteira. Portugal é renúncia, oração e grandeza na noite da viagem, em direcção à luz da madrugada...
(Imagem: Onda (Vaga), de António Carneiro)

5 Comentários:

Blogger Pedro Martins said...

Texto sublime, Elísio. Porque Portugal não é um lugar no mapa...

8:32 p.m.  
Anonymous Anónimo said...

Portugal somos nós !

9:04 p.m.  
Blogger Luis Eme said...

Apesar da inspiração do autor... não acredito que sejamos assim tão indefinidos. Agora que somos fruto de uma grande misturada de povos, somos sim senhor.

10:01 p.m.  
Blogger Pedro Martins said...

O texto desta entrada é da autoria de Elísio, o que, por lapso meu, não foi indicado no momento da sua publicação.

Ao autor e aos leitores, as minhas desculpas.

10:39 p.m.  
Anonymous Anónimo said...

Luis Milheiro,

Penso que tem razão. O texto liberta uma indefinição muito grande, aflitiva até. Foi encontrado um poema num paraquedista alemão, na WWII, em que ele pedia que Deus lhe desse tudo o resto das certezas que nao podia ter, ou seja, o nevoeiro. Eu nao penso que sejamos assim, excepto alguns sebastianistas de que nao quero a vertigem. Mas o texto quer também dizer que Portugal é sobretudo a solidariedade entre os portugueses, às vezes entre apenas dois deles. O resto e tudo mito, que mais tarde ou mais cedo se desfaz. Peço perdão se transmiti angùstia, quando queria transmitir vigilia para os tempos duissimos, a meu ver, sobretudo em termos de Alma, que os portugueses vivem.

Elisio

6:53 p.m.  

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