As aproximações a Agostinho da Silva (7)

[trato sucessivo]
A pouco menos de uma semana do Colóquio/Debate “Agostinho da Silva e o Espírito Universal”, nova aproximação à obra do pensador, desta vez com um excerto (são as palavras iniciais) da novela “Herta”, do livro “HERTA / TERESINHA / JOAN ou Memórias de Mateus Maria Guadalupe” (1959). Na verdade, “A obra literária de Agostinho da Silva” é o tema de uma das mesas do colóquio de sábado, que me cabe moderar, e cujos oradores são Ruy Ventura (professor do ensino básico, escritor e ensaísta); Nicolau Saião (pintor e escritor); e António Cândido Franco (professor da Universidade de Évora, escritor e ensaísta).
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Herta
Há pessoas que nasceram com o dom de imaginar e quase até diria com o dever de imaginar: porque, em virtude de qualquer disposição superior que nos escapa, a vida lhes transcorre tão fixamente no mesmo lugar e tão vazia de acontecimentos que na realidade a única possível existência para eles é a do sonho. Quanto a mim, se dispuseram os fados de outro modo: acho que por excesso de vida exterior, o imaginar me ocorre tão delgado que apenas consigo narrar o que vi, ouvi e senti; e à primeira situação difícil que se me depara na vida, tenho logo de recorrer ao conselho dos meus amigos para que me desenvencilhem da situação; a menos que a própria vida se não encarregue de o fazer, coisa que tem sucedido, mas quase sempre com um desembaraço meio brutal que, para dizer a verdade, me não agrada nada.
De vez em quando penso nisto, ou, como diz gente da minha terra, «magino» disto; porque, pelo que se refere a pensar, abstracta e discursivamente, não vai por aí o meu gosto. De qualquer modo, sucede que hoje pensei nisto, ente as muitas coisas que tenho pensado neste quarto de hospital; e sobretudo durante a noite: noites irreais, pesadas de todo o sofrimento e, no fundo, de toda a resignação que vem dessas enfermarias e desses quartos; donde a onde, o relógio, donde a onde o passo do vigia, e a luz mortiça, e a gente lembrando-se dos bons dias de saúde que se julgavam eternos.
Agostinho da Silva
Há pessoas que nasceram com o dom de imaginar e quase até diria com o dever de imaginar: porque, em virtude de qualquer disposição superior que nos escapa, a vida lhes transcorre tão fixamente no mesmo lugar e tão vazia de acontecimentos que na realidade a única possível existência para eles é a do sonho. Quanto a mim, se dispuseram os fados de outro modo: acho que por excesso de vida exterior, o imaginar me ocorre tão delgado que apenas consigo narrar o que vi, ouvi e senti; e à primeira situação difícil que se me depara na vida, tenho logo de recorrer ao conselho dos meus amigos para que me desenvencilhem da situação; a menos que a própria vida se não encarregue de o fazer, coisa que tem sucedido, mas quase sempre com um desembaraço meio brutal que, para dizer a verdade, me não agrada nada.
De vez em quando penso nisto, ou, como diz gente da minha terra, «magino» disto; porque, pelo que se refere a pensar, abstracta e discursivamente, não vai por aí o meu gosto. De qualquer modo, sucede que hoje pensei nisto, ente as muitas coisas que tenho pensado neste quarto de hospital; e sobretudo durante a noite: noites irreais, pesadas de todo o sofrimento e, no fundo, de toda a resignação que vem dessas enfermarias e desses quartos; donde a onde, o relógio, donde a onde o passo do vigia, e a luz mortiça, e a gente lembrando-se dos bons dias de saúde que se julgavam eternos.
Agostinho da Silva

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