Pessoa, Salazar e o Estado Novo (1)
Em 1935, na Assembleia Nacional, o Estado Novo aprovou uma lei tendo por objectivo a extinção das sociedades secretas. O alvo era claro: a Maçonaria. Fernando Pessoa saiu a terreiro, publicando um artigo no Diário de Lisboa, no qual, visando em particular o autor do projecto legislativo, José Cabral, fez brilhantemente a defesa da Ordem e dos ideais maçónicos e, de alguma sorte, demonstrou a impossibilidade de aquela ser destruída por decreto. Ainda que, nesse texto, afirme não ser mação, “nem pertencer a qualquer outra Ordem semelhante ou diferente”, o autor de “Mensagem”, muito provavelmente, terá sido iniciado, e, ao longo da polémica a que deu azo, revelou ser uma das pessoas que, em Portugal, melhor conhecia a Maçonaria.Vem tudo isto a propósito de ter hoje comprado o terceiro volume da poesia ortónima de Fernando Pessoa, acabado de sair com a chancela da Assírio & Alvim, e que recolhe os poemas – 123 dos quais inéditos – dos anos finais (1931-1935) e os que não estão datados. Além de muitos textos já clássicos, despertou-me a atenção uma série de poesias em que Salazar e o Estado Novo são absolutamente causticados. Algumas são já bem conhecidas – e três foram publicadas aqui –, outras só nos anos mais recentes vieram a lume, através da edição crítica. Aquela com que agora vos deixo (voltarei à carga) seria como que uma versão poética do artigo do «Diário de Lisboa», se não fosse um libelo inaudito e violentíssimo. Ora leiam…
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Solenemente
Carneirissimamente
Foi aprovado
Por toda a gente
Que é, um a um, animal,
Na assembleia nacional
Em projecto do José Cabral.
Está claro
Que isso tudo
É desse pulha austero e raro
Que, em virtude de muito estudo,
E de outras feias coisas mais
É hoje presidente do conselho,
Chefe de internormas animais,
E astro de um estado novo muito velho.
Que quadra
Isso com qualquer espécie de graça?
Nada.
A Igreja Católica ladra
E a Maçonaria passa.
E eles todos a pensar
Na vitória que os uniu
Neste nada que se viu,
Dizem, lá se conseguiu,
Para onde agora avançar?
Olhem, vão p’ra o Salazar
Que é a puta que os pariu.
1935
Fernando Pessoa
Carneirissimamente
Foi aprovado
Por toda a gente
Que é, um a um, animal,
Na assembleia nacional
Em projecto do José Cabral.
Está claro
Que isso tudo
É desse pulha austero e raro
Que, em virtude de muito estudo,
E de outras feias coisas mais
É hoje presidente do conselho,
Chefe de internormas animais,
E astro de um estado novo muito velho.
Que quadra
Isso com qualquer espécie de graça?
Nada.
A Igreja Católica ladra
E a Maçonaria passa.
E eles todos a pensar
Na vitória que os uniu
Neste nada que se viu,
Dizem, lá se conseguiu,
Para onde agora avançar?
Olhem, vão p’ra o Salazar
Que é a puta que os pariu.
1935
Fernando Pessoa

7 Comentários:
É costume dizer-se, quando alguém desaparece sem chegar a velho, que morreu cedo demais...
Eu penso que Fernando Pessoa morreu no tempo certo, porque se tivesse sobrevivido mais uns anos, a PVDE fazia-lhe a vida negra, pois pérolas como esta (dedicadas a porcos, com cara de carneiros...), deviam deixar o Salazar em Estado de Sítio.
Meu caro Luís Milheiro,
É muito interessante essa sua observação sobre a idade com que Pessoa morreu.
Robert Bréchon, que é seu biógrafo francês ("Estranho Estrangeiro - Uma Biografia de Fernando Pessoa") - creio que a ele se deve também a edição conjunta da obra pessoana na mítica colecção Pléiade -, faz notar que Pessoa morre, com poucos anos de diferença, com a idade de Beethoven, Balzac, Mahler, Proust ou Camus.
Sem a fugacidade dos "jovens loucos que queimam a vida (Kleist, Mozart, Rimbaud, Van Gogh)" ou a longevidade "dos velhos sábios que destilam a sua gota a gota, para recolher a essência do tempo (Voltaire, Goethe)", eu creio que Pessoa desapareceu num tempo em que o país se tornara já demasiado pequeno para ele - e irremediavelmente sem esperança. Em que medida isso apressou a sua morte...
Mas este poema, que como outros da mesma natureza, ficou no fundo da arca, é, a meu ver, demonstrativo da sua terrível amargura perante o ambiente mental do Estado Novo. Por outro lado, é de extrema importância para dar resposta à inevitável pergunta: Quem foi Fernando Pessoa? E aqui podemos começar a responder: sempre foi pela Liberdade.
Curioso seria ver como Pessoa, se vivo continuasse, reagiria perante o Estado Novo: se por acção directa, se no exílio interior (como Pascoaes). A defesa que faz da Maçonaria,a poucos meses da sua morte, pode dar a entender que em breve acabaria nalgum calabouço...
Quem, antes de Pessoa, seria capaz de (d)escrever "carneirissimamente" a Assembleia?
E creio que, depois dele, só Alexandre o'Neil...
Meu caro Impaciente,
Bote lá também o Almada, o Ruben A. e, por via das dúvidas, o Cesariny.
Pelo Almada e pelo Cesariny ponho as mãos no fogo!
Pelo Ruben A., não! Confesso a minha ignorância...
Pelo Ruben A. respondo eu.
Um dia destes trago-o cá.
Impaciente darling,
Pelo Cesariny eu não punha as mãos nem no gelo quanto mais no fogo.
Mas admiro o seu gosto e o seu desassombro em revelar tais afinidades.
Bem-vindo ao clube!
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