O QUE O PAPA NÃO DISSE

por Elísio
Benedito XVI deu-nos uma Encíclica sobre o Poder do Amor. Agora diz-nos uma coisa que Manuel II Paleólogo, antepenúltimo Imperador dum dos últimos lugares civilizados do seu tempo, disse, num momento de raiva, a um persa culto: Zeig mir doch, was Mohammed Neues gebracht hat und da wirst du nur Sclechtes und Inhumanes finden wie dies, dass er vorgeschrieben hat, den Glaube, den er predigte, durch das Schwert zu verbreiten (§.4) É isso mesmo que o Papa citou, sobre a doutrina de Maomé: « … e tu só encontrarás aí Mal e Desumano, como aquilo que ele prescreveu, ou seja espalhar a Fé que ele predica, pela espada».
É óbvio que nem tudo o que Maomé trouxe de novo, foi mau e desumano. Se o Papa pensasse isto, ainda assim seria falso. Mas repetir o que disse, com voz rude (schroffer) um Imperador cristão, cercado, instrumentalizado e desprezado, a um iraniano culto, nesta altura, é o seguinte: descortês.
E será sincero? O Papa diz (§ 9) que a Cristandade, apesar da sua origem e importantes desenvolvimentos no Oriente, encontrou por fim a sua marca histórica decisiva na Europa. E que isto define também a Europa (§§ 14 e 15). Depois, diz que a Cristandade sofreu duas depurações do seu Helenismo, primeiro com a Reforma protestante (§16) e depois com a Teologia natural do séc. XIX, mas já a começar em Pascal (§17).
Ora o Papa diz estas coisas todas para combater os deslumbramentos tecnológicos da nossa época que fazem uma «Synthese zwischen Platonismus (cartesianismus) und Empirismus», isto para dizê-lo de «uma forma resumida» (§17). O helenismo do Novo Testamento é só o desenvolvimento do helenismo do Antigo Testamento, na sua parte final (§19). Porquê a tradição helénica, a propósito da condenação da violência? Porque o Papa Benedito quer-nos dizer que a Religião só é compatível com a Razão, a qual é também Religião e não apenas tecnologia e que o Cristianismo é uma Razão e uma Religião racional, ocidental. Conclusão: a Religião não pode sair da Razão e um Ocidental religioso muito menos. Com base, nisto, o diálogo é possível. Razão/Religião é incompatível com a violência, nomeadamente, a da Jihad. Mas há outras violências.
Devia tê-lo dito de viva voz. Em vez disso preocupou-se em definir os sentimentos de um Ocidental, dum Europeu, talvez turco, mas não indonésio, esquecendo-se do seguinte:
- É errado citar uma emoção dum perseguido do século XV para um assunto de hoje;
- Maomé criou a Jihad em situação de auto-defesa. O Ocidente está na mesma;
- O Papa baseou o Diálogo na Razão que só se sabe o que é, após o Diálogo;
- Pôs Deus a falar grego quando Ele nos pôs a falar línguas com o terror de Babel e, de novo, com a coragem do Pentecostes.
Que o Amor guie a Razão aos que vão fazer a Paz – nós, que defenderemos S. Pedro, um Santo que negou três vezes antes de cantar de galo. Porque o Amor nunca se cansa, tudo perdoa e tudo suporta… disse Saulo, que não negou. Deus negou-lhe tudo, numa estrada.

4 Comentários:
Notável, Elísio!
Até um leigo como eu vê que estamos em presença de um texto denso de sabedoria e lucidez, um texto que esclarece sem pretender dar lições. Parabéns!
Parabéns também ao Pedro que lançou o tema com oportunidade, profundidade e visão certeira.
Formam um belo par!
Meu caro senhor,
recomendo-lhe, para que perceba, o editorial do director do público a propósito desta questão... Talvez o único problema no seu escrito - além do preconceito, claro - seja o não ter lido verdadeiramente o discurso do papa... e deixe que acrescente: desastrados são os comentários agrestessem feitos na ausência de todos os factores. Quem não tem todos os factores de uma questão, e por culpa própria, porque até estão disponíveis na íntegra - deve ser mais cauteloso nas apreciações que faz... Ninguém lhe tira a liberdade de dizer o que pensa, mas isso não significa que pense verdadeiro, já que de facto não procurou a verdade sobre este assunto mas apenas aquilo que o preconceito deixa entrever... E já que aprecia Agostinho da Silva - o que é uma nota positiva, muito positiva - era melhor inspirar-se no seu exemplo de procura da verdade e de cautela nos julgamentos. PS - já agora, o anónimo chama-se João Magalhães
O senhor João Magalhães dirige-se a mim ou a Elísio?
A si, senhor AM
Enviar um comentário
<< Home