quinta-feira, setembro 14, 2006

INTERPRETAÇÃO DO 11 DE SETEMBRO


por Elísio

Vi hoje o caso de Joaquín Martinez, um espanhol que estava no corredor da morte em Miami e conseguiu provar que era não-culpado de um duplo assassínio pelo qual fora condenado. Uma família unida e ibérica juntou-se, um bom Rei, um honrado cônsul, um homem bom, advogado norte-americano …

Vejo que as pessoas que entraram nas Torres Gémeas no dia 11 de Setembro de 2001, entraram no corredor da morte sabendo que eram inocentes. Os mesmos do 11 de Março em Madrid e noutros lugares. Os miúdos que entraram no refúgio em Qanah, onde viriam a ser esquartejados, durante o sono, entre um canhão do Partido de Deus e um míssil do Povo de Deus, esses sabiam, por não saberem, serem um pouco culpados, ao andarem e terem nascido em fuga há muito tempo e, sobretudo, por serem inocentes.

Quem não tem, por definição, nenhuma culpa, é culpado, porque não entrou ainda no Mundo asfixiante da culpa. Eu matei um gatito preto quando era miúdo e, apesar de o tentar ainda salvar, quando ele me agitava a sua patita, paralisado por uma dor que o seu mundo breve, de um barranco e uma lixeira entre a poeira não explicavam, nunca me esquecerei da sua carita desolada, de boquita aberta, tentando estender a patita talvez para pôr direito esse Mundo que se virara, brutalmente ao contrário. Deus sabe que nunca conseguirei ultrapassar esta dor dentro de mim, visto que não posso ressucitar este gatito e adormecermos os dois numa tarde de Verão, sozinhos, um velho adiado com um gato zarolho nos joelhos, que só se têm um ao outro. Posso tentar ajudar animais, ser vegetariano, como já tentei, mas nunca ultrapassarei esta dor que me há-de acompanhar até ao fim da vida. E que Deus e vós me perdoem…

Assim é o mesmo com as pessoas que entram nos vários corredores da morte, sejam da Existência ou da História, sabendo-se culpados ou desconhecendo-o completamente. Vão para o corredor da morte como quem se mete numa escada rolante. Lembra-me dum casal de dois velhitos chineses, agarrados um ao outro, rindo um pouco envergonhados a tentarem meter o pé numa escada dessas e a retirarem-no várias vezes, sem conseguirem.

Descubro então que a única defesa para não cometer mais crimes, estejam eles ou não inscritos nos meus genes, é a de ter saudades e amar toda a abjecção duma vida falhada, obscura, disléxica e até anedótica se não fosse tão torta. Tenho a certeza que uma vida assim, me fará suspirar, quando vier o tropeço final, a brisazita de não fazer grandes disparates. Posso até somar os deveres de todas as religiões, tentar loucamente cumpri-los, perder a razão na penitência de pecados imaginários, fazer até tropeçar o pé esquerdo no pé direito que tropeçara antes, julgando sem saber bem que até pus o diabo tolo.

Mas quantas pessoas por esse Mundo fora, apagadas e de quem já o vento se esqueceu, são a vitória definitiva contra todos os tortos e disparates que não chegámos a cometer? E saber que essas pessoas rodam com o silêncio da Terra pelo Universo, pelos séculos dos séculos, adormecidos na colcha luminosa do Tempo, serena enfim meu coração.

Ah, enganei-me na tecla. Que bom chegar ao fim e tropeçar mais uma vez…

1 Comentários:

Blogger Luis Eme said...

Tantas questões levantadas...
Prefiro congratular-me por um inocente ter conseguido escapar do "corredor da morte", num mundo cheio de "culpados", cujo poder e força são, muitas vezes, o seu passaporte para a liberdade.

3:23 p.m.  

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