Notas de viagem: Amesterdão (6)
Os Painéis e a Ronda
Ao ver demoradamente A Ronda da Noite, de Rembrandt, exposta em sala que o Museu Rijks lhe destina de modo exclusivo, não pude deixar de estabelecer uma comparação entre esta obra magna do pintor de Leida e os nossos Painéis, ditos de São Vicente, normalmente atribuídos a Nuno Gonçalves, e conservados nas Janelas Verdes.
Têm em comum o facto de serem duas obras-primas absolutas, provenientes de dois pequenos países que viram as suas idades de ouro associadas a um comércio marítimo florescente.
Uma e outra são os grandes ex-libris dos museus nacionais que as guardam.
Em ambas estão notavelmente retratados grupos de pessoas.
Os “Painéis” espelham determinada cerimónia sagrada (religiosa? iniciática?) e reflectem uma espiritualidade cristã, porventura ecuménica (discute-se se estará representado um judeu no Painel da Relíquia).
A “Ronda” é obra profana, que representa uma guarda cívica, fruto acabado de uma sociedade burguesa.
Nas figuras dos “Painéis” surpreende-se uma atitude expectante. Como que um pressentimento. Há quem reze. No silêncio.
As personagens da “Ronda” denotam acção. Estão prontas a combater. E fazem ruído.
Os “Painéis” apresentam uma nação, estruturada nos seus diversos estados. Todos ali têm lugar, independentemente da sua condição.
Na “Ronda”, retrato de uma classe, só estão aqueles membros da Guarda Cívica que puderam pagar. E pagaram para poderem aparecer no quadro.
Os “Painéis” são, pois, obra católica onde, sob o signo do Espírito Santo, se representa uma comunidade de irmãos.
Na “Ronda”, quadro do Protestantismo, apenas estão os mais capazes, os mais aptos, medindo-se esta aptidão pelo poder que o dinheiro confere.
Nos “Painéis” não sabemos de onde vem a luz, nem de que luz se trata. Na “Ronda” sabemos que há uma luz na noite escura, e, por isso, sabemos já tudo, mesmo quando não vislumbramos o foco (e ainda que este, no que toca à verosimilhança, seja mais intencionalmente artístico do que naturalístico).
Os “Painéis” são Portugal, a Idade Média.
A “Ronda” é a Holanda, a Idade Moderna.
Nestas duas obras não se trata apenas de duzentos ou trezentos anos na história de dois países.
Numa e noutra está tudo aquilo de que os nossos dias são feitos. E hoje é dia 11 de Setembro.
Ao ver demoradamente A Ronda da Noite, de Rembrandt, exposta em sala que o Museu Rijks lhe destina de modo exclusivo, não pude deixar de estabelecer uma comparação entre esta obra magna do pintor de Leida e os nossos Painéis, ditos de São Vicente, normalmente atribuídos a Nuno Gonçalves, e conservados nas Janelas Verdes.
Têm em comum o facto de serem duas obras-primas absolutas, provenientes de dois pequenos países que viram as suas idades de ouro associadas a um comércio marítimo florescente.
Uma e outra são os grandes ex-libris dos museus nacionais que as guardam.
Em ambas estão notavelmente retratados grupos de pessoas.
Os “Painéis” espelham determinada cerimónia sagrada (religiosa? iniciática?) e reflectem uma espiritualidade cristã, porventura ecuménica (discute-se se estará representado um judeu no Painel da Relíquia).
A “Ronda” é obra profana, que representa uma guarda cívica, fruto acabado de uma sociedade burguesa.
Nas figuras dos “Painéis” surpreende-se uma atitude expectante. Como que um pressentimento. Há quem reze. No silêncio.
As personagens da “Ronda” denotam acção. Estão prontas a combater. E fazem ruído.
Os “Painéis” apresentam uma nação, estruturada nos seus diversos estados. Todos ali têm lugar, independentemente da sua condição.
Na “Ronda”, retrato de uma classe, só estão aqueles membros da Guarda Cívica que puderam pagar. E pagaram para poderem aparecer no quadro.
Os “Painéis” são, pois, obra católica onde, sob o signo do Espírito Santo, se representa uma comunidade de irmãos.
Na “Ronda”, quadro do Protestantismo, apenas estão os mais capazes, os mais aptos, medindo-se esta aptidão pelo poder que o dinheiro confere.
Nos “Painéis” não sabemos de onde vem a luz, nem de que luz se trata. Na “Ronda” sabemos que há uma luz na noite escura, e, por isso, sabemos já tudo, mesmo quando não vislumbramos o foco (e ainda que este, no que toca à verosimilhança, seja mais intencionalmente artístico do que naturalístico).
Os “Painéis” são Portugal, a Idade Média.
A “Ronda” é a Holanda, a Idade Moderna.
Nestas duas obras não se trata apenas de duzentos ou trezentos anos na história de dois países.
Numa e noutra está tudo aquilo de que os nossos dias são feitos. E hoje é dia 11 de Setembro.


5 Comentários:
Parabéns, Pedro Martins!
Sempre gostei de quem se sentasse à frente de um quadro - que o mereça - e o faça "falar". Não é descrevê-lo, nem debitar a biografia do pintor mais as escolas de pintura, é fazê-lo... "falar".
Porque difícil, é um desafio interessante e aqui muito bem conseguido.
Obrigado, A. Teixeira.
O mais curioso é que o contraste entre as duas obras se me impôs de repente, muito subitamente, no próprio Rijks, como uma revelação.
Os quadros - sobretudo na arte antiga - têm sempre algo para contar. Sucede que estes dois são quase inesgotáveis.
É. Se me permite. E é também demonstrativa, na sua descoberta, daquilo que fomos e somos: os painéis foram descobertos quando serviam de andaimes, na recuperação de um edifício. Qual, não me recordo. Se me ajudarem... Que tal colocarem a imagem dessa obra magistral, assim tinham uma referência.
Com efeito, uma das figuras do Painel dos Pescadores revela grandes semelhanças fisionómicas com António de Oliveira Salazar. Mas está absolutamente fora de questão qualquer tentativa de adulteração do políptico.
A sua restauração foi confiada, em 1909, por José de Figueiredo, o fundador e primeiro director do Museu Nacional de Arte Antiga, ao pintor Luciano Freire, homem probo e restaurador de grande competência, que concluiria o trabalho no ano seguinte.
Tem toda a razão a Urbana. Os painéis foram encontrados por Columbano Bordalo Pinheiro e sua irmã, em 1882, a servirem de andaime a operários numa obra no Paço Patriarcal de S. Vicente de Fora! Estavam em muito precário estado de conservação.
Fiz uma ligação permanente ao "Sesimbra e Ventos" de um sítio sobre os Painéis, que oferece muita informação e razoáveis reproduções das seis tábuas.
Muito bem, Pedro.
André
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