quinta-feira, setembro 07, 2006

O labirinto diabólico


Leio habitualmente a coluna de opinião de Florindo Paliotes no “Nova Morada”. Por via de regra, discordo daquilo que escreve, mas aprecio a sua militância activa e frontal. Tanto quanto me lembro, foi o único militante comunista que assinou um comentário no “Sesimbra e Ventos”.

Só hoje me chegou às mãos o último número daquele jornal, que saiu na passada sexta-feira. Só agora li o artigo intitulado “A contradição”, que aquele membro da Comissão Concelhia de Sesimbra do PCP ali assina. E, desta vez, tenho de estar de acordo com algumas das suas observações.

Florindo Paliotes começa por citar o “Diagnóstico Social do Concelho de Sesimbra”, para afirmar que a freguesia do Castelo é, no município, a única que não dispõe de um simples Centro de Convívio, e para concluir (sem deixar de reconhecer “as debilidades financeiras actuais”) que “importa pensar e projectar no curto prazo as respostas necessárias às carências identificadas”.

Devo confessar-vos que me faz alguma espécie a construção de “centros” especialmente destinados ao convívio das pessoas. Toda a vida se conviveu em casa, nas ruas, nos cafés, nos jardins, nas escolas, no trabalho, nas festas. De forma livre, natural e espontânea. Mal vai o mundo quando o poder político procura organizar socialmente o convívio de cidadãos adultos, através de instituições criadas “ad hoc”, marcando-lhe o espaço, definindo-lhe os tempos. Coisa diferente será apoiar as associações na medida em que estas o solicitem, de forma a prosseguirem os seus próprios fins (que poderão ser de natureza sócio-cultural). Talvez seja esta (embora não pareça) a solução que Florindo Paliotes tem em mente. Nesse caso, estaríamos basicamente de acordo.

Dito isto, não posso deixar de lembrar que, de 1977 até aos nossos dias, com excepção do mandato correspondente ao quadriénio 1998-2001 (no qual a Câmara deu, aliás, importantes contributos a obras como a do CASCUZ, a do Centro Comunitário da Quinta do Conde ou a do CECAS-RL) o Partido Comunista deteve sempre, entre nós, através das sucessivas coligações eleitorais que liderou, o pelouro da Acção Social. Florindo Paliotes queixa-se de quê? Queixa-se de quem?

Mas, no seu artigo da semana passada, as queixas estendem-se ao domínio urbanístico. Santana é o alvo, sendo-nos apresentada como uma “encruzilhada de todos os obstáculos, onde passam camiões às dezenas, carregados de pedra e automóveis às centenas, transportando pessoas”. Santana sofre a “poluição sonora e ambiental” resultante daquele estado de coisas, sendo que a concentração urbana (“inúmeros Serviços Públicos e Privados, incluindo a Junta de Freguesia”) lhe causa reconhecidos problemas de estacionamento, “dando azo a que os carros ocupem a estrada, a rua e o passeio, além das passadeiras invisíveis”. “Deste estado desordenado”, prossegue Florindo Paliotes, “todos são vítimas e verdadeiros volantins num labirinto diabólico”.

Apelando à minha memória – corrijam-me se estiver errado –, constato que, com excepção do já referido quadriénio 1998-2001, e de uma breve passagem de Hasse Ferreira pelo pelouro – antes de o devolver à procedência – durante o último mandato de Esequiel Lino, sempre o planeamento urbanístico, desde 1977, no concelho de Sesimbra, esteve nas mãos dos comunistas. Mais: o PDM que nos rege é documento cujo principal mentor foi, indubitavelmente, o actual Presidente da Câmara, Arquitecto Augusto Pólvora. Queixa-se de quê, e de quem, Florindo Paliotes, quando execra publicamente o tal “labirinto diabólico”?

Parece que ele próprio nos dá a resposta, quando conclui o seu artigo lembrando que a freguesia do Castelo é “lugar de residência de muitos dos autarcas do Concelho” e que Santana e Corredoura são “a estrada de passagem para todos eles”. “A verem-nos passar ficam os residentes, eleitores incrédulos que acreditaram, sentem as necessidades, esperam e desesperam”.

A meu ver, nesta sua análise, Florindo Paliotes só peca por se não mostrar suficientemente explícito quanto aos autarcas que, efectivamente, envolve no seu juízo. Por melhores intenções que todos eles, os autarcas, possam ter, nem todos têm os mesmos meios, num quadro bem definido de distribuição do poder e dos poderes (entenda-se, dos pelouros). Isto em consequência de uma escolha eleitoral não muito distante, em que houve quem ganhasse e quem perdesse.

Faz agora um ano, a CDU, demarcando-se claramente da gestão socialista, apresentava ao juízo soberano dos eleitores, como trunfo eleitoral, o alegado trabalho meritório dos seus vereadores Augusto Pólvora e Felícia Costa, precisamente em áreas como aquelas que, agora, causam profundo descontentamento a Florindo Paliotes. Sendo um homem atento, nada disto lhe pode ter passado ao lado. Dentro de três anos, ninguém tomará as dores do Presidente Pólvora. Talvez por isso o colunista do "Nova Morada" termine o seu artigo ajuizando que cabe aos autarcas parar, ver e responder porque “Em Sesimbra as pessoas estão primeiro”. Ao invocar este slogan, Florindo Paliotes revela, pelo menos, uma vontade firme de se não enredar no “labirinto diabólico” que soube apontar a dedo. Resta saber se alguém lhe dará ouvidos…

3 Comentários:

Anonymous Anónimo said...

Este é, provavelmente, o primeiro grande sinal do desencanto que a governação (?) comunista vem provocando de forma persistente.
A contestação aliás não tem precisado de imaginação, bastando um mínimo de atenção a tanto vazio, por um lado, e a tanta exuberância infeliz e despropositada, por outro.
Elogie-se a coragem do senhor Paliotes que corre o risco de, ao dizer que o rei vai nu, vir a ser atacado pelo vírus da renovação, a chamada síndroma de Sousa.
A atitude de Florindo Paliotes não deixa de ser também um sinal de esperança pois mostra que naquele reino há ainda quem tenha os olhos abertos, pense pela sua cabeça e tenha a coragem das suas opiniões.
Vai haver quem não goste, mas democracia é isto. Habituem-se...

8:53 p.m.  
Blogger Luis Eme said...

Ás vezes a boca dos "Florindos" foge-lhes para a verdade... e é um encanto, ouvi-los...

11:33 p.m.  
Anonymous Anónimo said...

É curioso saber que ainda há quem preste atenção aos comunistas e às suas lenga-lengas. Mesmo àqueles que, agora, querem fazer-nos acreditar que não são nem nunca foram comunistas e nem sequer, alguma vez, votaram na CDU. Livra! E mais livra, ainda, quando Judas afirma "...tenha a coragem das suas opiniões". Coragem??? Desde quando, no Portugal de Abril, é preciso alguém ter coragem para emitir opinião? Ah, ah, ah, aprendizes de fascitazinhos.
"Habituem-se..."

2:06 a.m.  

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