Portugal, de Sesimbra a Sta. Apolónia

por Elísio
Portugal é uma bela adolescente que vem da praia a chinelar, em túnica de gaze, e se senta na camioneta com as suas riquezas físicas douradas pelo sol, como uma rainha desavergonhada e irritadiça, entre os plebeus. Com o Sol, a tristeza portuguesa fica bela, a inveja fica resmungo de amor e a rudeza torna-se convite.
Por mais que queiramos quadrar o círculo de Portugal, não conseguimos, como não conseguimos quadrar o de nenhuma Nação. Cada Povo tem o seu segredo de quebrar as convenções que levam alguns ao suicídio e outros, porque, tontos, se enganam na porta, ao genocídio, tudo para que a vindima da vida continue. Para que as mulheres se imolem no altar dos homens e estes lhes arranquem o coração, deixando a vida dentro, em troca. Todos vão lá. De lá viemos todos. Mas olhando do cimo deste monte dos sacrifícios, para trás e para diante, aos pés do altar, não há flores.
Falei com “Maria Lisboa”, à espera do 28, entre a Graça e os Prazeres, uma mulher sardinha, viúva jovem, com olhos bonitos e sem intenções. Disse-me que, este ano, lhe morrera primeiro o pai, depois a mãe, um irmão (assassinado em Angola) e um sobrinho caíra gravemente doente. Teve, é claro, uma depressão. Desempregada há oito anos, tem a sorte de ter um filho na TAP, que a ajuda. O meu Portugal flutua abaixo da linha de água e, como é da água, afunda-se fresco, fluido, sem gritar.
Um africano, no meu compartimento para Hendaye, desliga embaraçado o telemóvel que apita com uma voz gravada, zangada, o seguinte (e várias vezes): “Fo...-se! Que mer...do ca...alho!”. É um som fora do vulgar para um telemóvel mas não deixa de ser original.
O Destino parece fechado e Portugal procura alternativas onde nunca as teve. Somos bem guiados? Os números que cresceram nos nossos talões dos bancos e no acesso a bens de consumo, valerão a tinta em que foram impressos?
Portugal, a bela adolescente que descruza e rola as ternas pernas louras, com um talismã barato que lhe tropeça para dentro dos seios, parece viver e prosperar do ar dourado. A nossa mente esquarteja-se em quadraturas do círculo. Fazemos mentalmente castelos no ar. Penetram-nos olhares cheios de som e o nosso corpo, pátria primeira, ajeita-se no espaço, como uma planta muda a disposição das folhas.
Andamo-nos todos a enganar uns aos outros com uma dor contínua no peito. No pântano tropical, uns caem mais cedo e outros mais tarde, adormecemos nos braços uns dos outros, entre saliva de beijos e sangue de facadas. Como passar isto? A nossa mente roda em voltas, como a gaivota persistente...
Fugir antes que seja tarde, apesar de este monstrengo de tristeza dormir sobre nós e as voltas da sereia nos puxarem para baixo.
Não se pode fugir do Mundo. Mas talvez fosse melhor comer e vestirmo-nos mais modestamente. Dar valor à fome. Dar valor ao espírito que paira sobre as roupas.

1 Comentários:
Um texto de antologia, com um poder de dissecação fora do comum e uma poesia (trágica) bem nacional!
Venham mais!!!
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