sexta-feira, setembro 01, 2006

Esta é a ditosa pátria minha amada... (2)






[trato sucessivo]






PORTUGAL

Ó Portugal, se fosses só três sílabas,
linda vista para o mar,
Minho verde, Algarve de cal,
jerico rapando o espinhaço da terra,
surdo e miudinho,
moinho a braços com um vento
testarudo, mas embolado e, afinal, amigo,
se fosses só o sal, o sol, o sul,
o ladino pardal,
o manso boi coloquial,
a rechinante sardinha,
a desancada varina,
o plumitivo ladrilhado de lindos adjectivos,
a muda queixa amendoada
duns olhos pestanítidos,
se fosses só a cegarrega do estio, dos estilos,
o ferrugento cão asmático das praias,
o grilo engaiolado, a grila no lábio,
o calendário na parede, o emblema na lapela,
ó Portugal, se fosses só três sílabas
de plástico, que era mais barato!

*

Doceiras de Amarante, barristas de Barcelos,
rendeiras de Viana, toureiros da Golegã,
não há «papo-de-anjo» que seja o meu derriço,
galo que cante a cores na minha prateleira,
alvura arrendada para o meu devaneio,
bandarilha que possa enfeitar-me o cachaço.
Portugal: questão que tenho comigo mesmo,
golpe até ao osso, fome sem entretém,
perdigueiro marrado e sem narizes, sem perdizes,
rocim engraxado,
feira cabisbaixa,
meu remorso,
meu remorso de todos nós…

Alexandre O’Neill

4 Comentários:

Anonymous Anónimo said...

Oh Neil!!!
Isto não se faz...
É triste
ser capaz
de decapar um país
e servi-lo nu...

Desculpa!
Isto
só tu!

11:12 p.m.  
Blogger Pedro Martins said...

Ó luso Impaciente, não há por aí mais alguns versos destes?

11:45 p.m.  
Anonymous Anónimo said...

Haver... há!
Vamos a ver...

10:09 a.m.  
Blogger Pedro Martins said...

Cá ficamos à espera...

10:39 a.m.  

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