quinta-feira, agosto 31, 2006

As aproximações a Agostinho da Silva (4)

A um mês da realização do Colóquio/Debate “Agostinho da Silva e o Espírito Universal”, promovido pela Câmara Municipal de Sesimbra, por iniciativa de um grupo de munícipes, através do Pelouro das Bibliotecas Municipais, retomamos, no “Sesimbra e Ventos”, as aproximações à obra do filósofo. Desta feita, a nossa escolha volta a propor uma das notáveis “Considerações”, livrinho editado pelo autor em 1944, em Famalicão. No final da entrada, o leitor encontra ligações para todos os textos de Agostinho da Silva publicados neste blogue.

Em louvor do contrário

Todo o ambiente é favorável ao forte; de um modo ou de outro ele o ajuda a cumprir a missão que se impôs e a conseguir ir porventura mais além das barreiras marcadas. A derrota deve mais atribuir-se à invalidez do impulso interior do que aos obstáculos que lhe ponham diante, mais à alma incapaz de se bater com vigor e tenazmente do que às resistências, às invejas e às dificuldades que o mundo possa levantar perante Hércules que luta.

O mal que se vê é aguilhão para o bem que se deseja; e quanto mais duro, quanto mais agressivo, se bate em peito de aço, tanto mais valioso auxiliar num caminho de progresso; o querer se apura, a visão do futuro nos surge mais intensa a cada golpe novo; o contentamento e a mansa quietude são estufa para homens; por aí se habituam a ser escravos de outros homens, ou da cega natureza; e eu quero a terra povoada de rijos corações que seguem os calmos pensamentos e a mais nada se curvam.

Mais custa quebrar rocha do que escavar a terra; mais sólido, porém, o edifício que nela se firmou. A grandeza da obra é quase sempre devida à dificuldade que se encontra nos meios a empregar, à indiferença que cerra os ouvidos do povo, e aos mil braços que logo se levantam para deter o arquitecto. Se cai sem batalha, pobre dele, podemos lamentá-lo; não o chamara o Senhor para as grandes empresas; mas se pelo menos a voz se lhe erguer clara, firme, heróica no meio do turbilhão, não foram inúteis as dores e os esforços; algum dia um novo mundo se erguerá das brumas e o terá como profeta.

Quem ia perturbar ficará perturbado, quem ia a matar ficará morto. Não é com os mesquinhos artifícios, nem com o desprezo, nem com a mentira, nem pelo cansaço, nem pela opressão, nem pela miséria que se vencem os que pensaram um futuro e, amorosamente, com cuidados de artista, continuamente, com firmeza de atleta, o vão erguendo pedra a pedra. É necessário que se resista enquanto houver um fôlego de vida, mas que essa resistência seja sobretudo o contacto com a realidade da força criadora; é esta que afinal tudo leva de vencida e reduz oposições a pó inútil e ligeiro.

Agostinho da Silva

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Agostinho

2 Comentários:

Anonymous Anónimo said...

Perguntar não ofende :
estes textos foram seleccionados ou lançados AO ACASO ?

3:15 p.m.  
Blogger Pedro Martins said...

Reflectem gostos e leituras pessoais.

Mas "Projecto" tem a particularidade de se centrar em Sesimbra. "Reflexão", de que publicamos o começo, é talvez o livro mais significativo de Agostinho. "Doutrina Cristã" (publicado na íntegra) foi folheto aprendido pela polícia política, por ser considerado subversivo. "Amor do povo" tem o mérito de talvez impedir certas leituras marxistas da sua obra, que a mesma, de resto, visivelmente não consente. E o pedaço da novela "Teresinha" encerra um diálogo magistral.

6:24 p.m.  

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