sábado, março 18, 2006

As aproximações a Agostinho da Silva (2)

Por estas bandas, e em ano de centenário, prosseguem as leituras da obra de Agostinho da Silva. Hoje transcrevemos um excerto do livrinho "Considerações", editado pelo autor em Famalicão, em 1944.
Amor do povo

Estes amam o povo, mas não desejariam, por interesse do próprio amor, que saísse do passo em que se encontra; deleitam-se com a ingenuidade da arte popular, com o imperfeito pensamento, as superstições e as lendas; vêem-se generosos e sensíveis quando se debruçam sobre a classe inferior e traduzem, na linguagem adamada, o que dela julgam perceber; é muito interessante o animal que examinam, mas que não tente o animal libertar-se da sua condição; estragaria todo o quadro, toda a equilibrada posição; em nome da estética e de tudo o resto convém que se mantenha.

Há também os que adoram o povo e combatem por ele mas pouco mais o julgam do que um meio; a meta a atingir é o domínio do mesmo povo por que parecem sacrificar-se; bate-lhes no peito um coração de altos senhores; se vieram parar a este lado da batalha foi porque os acidentes os repeliram das trincheiras opostas ou aqui viram maneira mais segura de satisfazer o vão desejo de mandar; nestes não encontraremos a frase preciosa, a afectada sensibilidade, o retoque literário; preferem o estilo de barricada; mas, como nos outros, é o som do oco tambor retórico o último que se ouve.

Só um grupo reduzido defende o povo e o deseja elevar sem ter por ele nenhuma espécie de paixão; em primeiro lugar, porque logo reprimiriam dentro em si todo o movimento que percebessem nascido de impulsos sentimentais; em segundo lugar, porque tal atitude os impediria de ver as soluções claras e justas que acima de tudo procuram alcançar; e, finalmente, porque lhes é impossível permanecer em êxtase diante do que é culturalmente pobre, artisticamente grosseiro, eivados dos muitos defeitos que trazem consigo a dependência e a miséria em que sempre o têm colocado os que mais o cantam, o admiram e o protegem.

Interessa-nos o povo porque nele se apresenta um feixe de problemas que solicitam a inteligência e a vontade; um problema de justiça económica, um problema de justiça política, um problema de equilíbrio social, um problema de ascensão à cultura, e de ascensão o mais rápida possível, da massa enorme até hoje tão abandonada e desprezada; logo que eles se resolvam terminarão cuidados e interesses; como se apaga o cálculo que serviu para revelar um valor; temos por ideal construir e firmar o reino do bem; se houve benefício para o povo, só veio por acréscimo; não é essa, de modo algum, a nossa última tenção.

Agostinho da Silva

2 Comentários:

Anonymous Anónimo said...

Este texto magistral é de uma lucidez e de uma justeza arrepiantes.
É uma espécie de ADN, TAC, ecografia, ressonância magnética e radioscopia de um vastíssimo contingente dos nossos políticos oportunistas e incapazes.
Lê-se Eça e vê-se que a natureza humana não mudou.
Agostinho da Silva é implacável e fulminante.
Bela escolha, mestre Pedro!

5:43 p.m.  
Blogger Pedro Martins said...

É exactamente como diz o leitor, fora o mestre que não sou.
As palavras de Agostinho foram escritas noutra época e tinham destinatários muito precisos.
Todavia, permanecem bastante actuais, porque, como avisadamente diz o leitor, a natureza humana não muda. E talvez nem seja necessário ir muito longe para se ver como elas têm cabimento pleno nos nossos dias.
Agostinho da Silva é muito claro no que rejeita e no que propõe. Quando é que seremos capazes de ultrapassar alguns falsos dualismos?

7:22 p.m.  

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