sábado, março 04, 2006

As aproximações a Agostinho da Silva (1)

Tal como tínhamos anunciado no passado dia 13 de Fevereiro, quando assinalámos o seu centenário, aqui iniciamos uma série de aproximações ao pensamento de Agostinho da Silva, através da publicação de trechos da sua obra. E começamos com o texto integral do folheto Doutrina Cristã, editado pelo autor em Lisboa, em 1943.
Doutrina Cristã
1. Existe um Deus que é o conjunto de tudo quanto apercebemos no Universo. Tudo o que existe contém Deus, Deus contém tudo o que existe. Pode-se, sem blasfémia, considerar o aspecto imanente ou o aspecto transcendente de Deus; pode-se, sem blasfémia, falar não de Deus mas apenas do Universo, com Espírito e Matéria, formando um todo indissolúvel. A doutrina de Deus, tal como a pôs Cristo, permite considerar todas as religiões como boas embora em graus diferentes, todos os homens como religiosos. Não poderá, portanto, fazer-se em nome de Deus qualquer perseguição: todo o homem é livre para examinar e escolher; a maior ou menor capacidade de exame e o resultado da escolha serão, em qualquer caso, a expressão do que ele é e do máximo a que pode chegar segundo as suas capacidades.

2. A visão mais alta que podemos ter de Deus, nós que somos apenas uma parte do Universo, é uma visão de Inteligência e de Amor; os pecados fundamentais que o homem poderá cometer são as limitações da Inteligência ou do Amor: toda a doutrina estreita, sem tolerância e sem compreensão da variedade do mundo, toda a ignorância voluntária, todo o impedimento posto ao progresso intelectual da humanidade, toda a violência, todo o ódio, limitam o nosso espírito e o dos outros, impedem que sintamos a grandeza, a universalidade de Deus.

3. Deus não exige de nós nenhum culto; prestamos a nossa homenagem a Deus, entramos em contacto pleno com o Universo, quando desenvolvemos a nossa Inteligência e o nosso Amor: um laboratório, uma biblioteca são templos de Deus; uma escola é um templo de Deus; uma oficina é um templo de Deus; um homem é um templo de Deus, e o mais belo de todos. Todos podemos ser sacerdotes, porque todos temos capacidades de Inteligência e de Amor; e praticamos o mais elevado dos cultos a Deus quando propagamos a cultura, o que significa o derrubamento de todas as barreiras que se opõem ao Espírito. Estão ainda longe de Deus, de uma visão ampla de Deus, os que fazem consistir o seu culto em palavras e ritos; mas dos que subirem mais alto não pode haver outra atitude senão a de os ajudar a transpor o longo caminho que ainda têm diante. Ninguém reprovará o seu irmão por ele ser o que é; mas com paciência e persistência, com inteligência e com amor, procurará levá-lo ao nível mais alto.

4. Para que possa compreender Deus, para que possa, melhorando-se, melhorar também os outros, o homem precisa de ser livre; as liberdades essenciais são três: liberdade de cultura, liberdade de organização social, liberdade económica. Pela liberdade de cultura, o homem poderá desenvolver ao máximo o seu espírito crítico e criador; ninguém lhe fechará nenhum domínio, ninguém impedirá que transmita aos outros o que tiver aprendido ou pensado. Pela liberdade de organização social, o homem intervém no arranjo da sua vida em sociedade, administrando e guiando, em sistemas cada vez mais perfeitos à medida que a sua cultura se for alargando; para o bom governante, cada cidadão não é uma cabeça de rebanho; é como que o aluno de uma escola de humanidade: tem de se educar para o melhor dos regimes, através dos regimes possíveis. Pela liberdade económica, o homem assegura o necessário para que o seu espírito se liberte de preocupações materiais e possa dedicar-se ao que existe de mais belo e de mais amplo; nenhum homem deve ser explorado por outro homem; ninguém deve, pela posse dos meios de produção e de transporte, que permitem explorar, pôr em perigo a sua liberdade de Espírito ou a liberdade de Espírito dos outros. No Reino Divino, na organização humana mais perfeita, não haverá nenhuma restrição de cultura, nenhuma coacção de governo, nenhuma propriedade. A tudo isto se poderá chegar gradualmente e pelo esforço fraterno de todos.

Agostinho da Silva

4 Comentários:

Anonymous Anónimo said...

Boa tarde caros blogadêros
O que mais me fascina em Agostinho da Silva era a sua opiniao sobre a liberdade economica e o seu despreendimento ao estado.
Vou tentar seguir-lhe o exemplo, este ano nao entrego a declaraçao de rendimentos de IRS, seguidamente peço a isençao de nº de contribuinte , e de seguida peço para me anularem o BI. :-)
Quero-me dedicar ao Amor, quero ter tempo para desenvolver a minha liberdade de espirito.
Um abraço com amor
J. Cagica

3:25 p.m.  
Anonymous Anónimo said...

Olá, homens dos Ventos,

O que me fascina em vocês é a facilidade com que saltam da crítica afiada e certeira para a gravidade da vida e da morte, expondo, pelo meio, poesia sublime a par de outra brejeira, mas não menos valiosa.
Este extraordinário texto do mestre Agostinho da Silva vem trazer uma brisa de intelectualidade e de profundidade que talvez não agrade ao maroto do Al Mocreve, mas que é um belo sinal da vossa diversidade. Continuem.

J. F. G.

5:18 p.m.  
Blogger Pedro Martins said...

Caro J. Cagica,

Saúdo o seu regresso ao activo dos comentários. É sempre um prazer tê-lo por cá.
Diz quem o conheceu que Agostinho da Silva era o desprendimento em pessoa. Alimentava-se com muito pouco e, em dada fase da sua vida, não tinha cartão de contribuinte!
Seria, de certa forma, e num sentido superior, um anarquista. É o que parece resultar do final deste texto, não é?
E foi, na verdade, um amigo de Sesimbra, não desses que agora andam na boca de alguns, mas um amigo tão verdadeiro quanto discreto. Tive o privilégio de o conhecer quando o entrevistei. Foi a única vez que com ele estive, poucos meses antes de o professor partir para a última viagem. E, nessa tarde memorável, pude verificar o quanto ele gostava de Sesimbra.
Foi, realmente, um dos grandes homens do século XX português!

Saudações bloguísticas

7:05 p.m.  
Blogger Pedro Martins said...

Fascinado J.F.G,

Se bem o entendo, está a sugerir que somos um antibiótico de largo espectro, com função analgésica e anti-inflamatória, sem mesmo descurar uma dimensão ansiolítica...

Pois tem o meu amigo muita razão.

Seja bem-vindo e volte sempre.

7:08 p.m.  

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