quinta-feira, março 02, 2006

Diário em Sesimbra (2)

MIRADOURO

Não tenho medo dos mortos. De alguns vivos, sim, tenho muito medo. Daqueles que assassinam o espírito. Daqueles que apagam a memória. De muitos outros que, através de actos aparentemente inofensivos, são causa da erosão que vai corroendo o nosso viver social.
Não tenho medo dos mortos. Por isso, sempre que posso, atravesso o cemitério do Castelo para me sentar durante alguns minutos no revelim que o século dezassete acrescentou às muralhas de uma vila já moribunda. Não há melhor miradouro para contemplarmos, sem ruído, a póvoa marítima que se foi tornando Sesimbra.
Mesmo sem oceano e sem vila no horizonte, valeria sempre a pena atravessar o campo santo para me sentar durante alguns minutos no revelim. A Arrábida, vista dali, tem outro encanto. As pedreiras (feridas que os Homens, masoquistas, escavam na sua própria carne) escondem-se. Fica o verde, apenas verde. E, no meio dele, como um diamante, o brilho da cal transmitido pela pequena igreja de Nossa Senhora da Pinha. Gosto deste nome, com um cheiro forte. El Carmen, nunca. Soa a enxertia de garfo que o sol não deixou pegar.

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