sábado, setembro 09, 2006

Notas de viagem: Amesterdão (5)


Rembrandt e Vermeer

Que, no primeiro tomo da “Recherche”, a detestável Senhora Verdurin considere A Ronda da Noite (a par da Nona, de Beethoven, e da Samotrácia), como a maior obra-prima do universo, pode, já de si, ser entendido como algo pouco lisonjeiro para Rembrandt. Mas que, no mesmo volume, Marcel Proust nos apresente o elegante Swann como alguém que, anos antes, houvera pretendido estudar a obra de Vermeer, quase põe as coisas por claro. Não que Proust desdenhe do mestre de Leida. Mas, cripticamente, talvez nos tenha querido dizer que o futuro seria do discreto pintor de Delft.

Faz amanhã três semanas, no Rijks, o confronto entre os dois mestres não me deixou grandes dúvidas. Rembrandt está onde está como uma maravilha fatal da sua idade burguesa. Naturalmente, veio ocupar o trono, numa época de apogeu. Já Vermeer é a semente dos séculos que hão-de vir. Premonitória e anunciadora, improvável e singular, a sua arte, tão imponderável quanto assombrosa, revela uma beleza frágil, grácil e sumamente transfiguradora, que não consigo descobrir na obra virtuosa de Rembrandt.

Proust, talvez por ser francês, teria, como poucos, o sentido da estesia. Certo que isso não chega para se compreender que – como eu julgo que fez – tenha escolhido Vermeer em detrimento de Rembrandt. E também não é o suficiente para explicar que, mencionando Beethoven, tivesse especialmente assinalado, noutro passo da sua obra-prima, os últimos quartetos para cordas do génio de Bona, deixando à Senhora Verdurin a apologia óbvia da previsível Nona Sinfonia. Mas ajuda. O que falta, e aliás nos escapa, ficará, decerto, por conta daquela intuição visionária que não cabe nunca justificar.

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