Uma vida inteira

(texto de 2004)
Foi num sábado à tarde, há menos de um ano, nos alfarrabistas do Chiado. O livro “Pesca e Pescadores em Sesimbra”, de Maria Alfreda Cruz, encontrava-se à venda, numa das bancas da Rua Anchieta, pela módica quantia de 60 euros, doze contos de réis na nossa moeda antiga.
Não sei se o estipêndio marcado padecia de exagero, mas a base de licitação, na sua altura tremenda, era capaz de dissuadir qualquer bibliófilo medianamente empenhado nas coisas da Piscosa. Contrafeito, renunciei à aquisição desejada.
Seja como for, a verdade manda dizer que esta obra, datada de 1966, e há muito esgotada, nos oferece um notável estudo geográfico sobre Sesimbra e os seus homens do mar, que só encontrará paralelo nos trabalhos de António Reis Marques e Rafael Monteiro, recentemente publicados.
Vai fazer um mês que voltei ao Chiado, e o meu tempo não foi mal empregado, pois regressei do Largo de São Carlos – onde os livreiros de rua agora assentam praça – com uma preciosa biografia do sesimbrense Padre António Gomes Pólvora, resgatada por muito bom preço. “Retalhos da vida de um sacerdote”, assim se intitula este volume de José Manuel Landeiro, que sobretudo nos dá conta da profícua acção apostólica e social do Padre Pólvora no Montijo.
Não sou caçador, mas é capaz de haver algo do encantamento venatório no prazer que as investidas sobre livros velhos ou raros nos proporcionam. Grande é o sortilégio de bater mesas e vasculhar caixotes, de passar a pente fino dezenas e dezenas de volumes espalhados pelo chão, na ânsia de encontrar os livros que nos faltam e aqueles que há muito nos escapam, além de outros de que só vagamente ouvimos falar, mas cuja consciência ténue, posto que mal definida, é o bastante para nos deixar de sobreaviso.
Pela minha parte, confesso que terei ficado a dever aos vendedores de rua alguns dos mais importantes achados bibliográficos da minha vida, tão decisivos quanto improváveis, como foi o caso de “A Razão Animada”, de Álvaro Ribeiro, no início dos anos noventa, junto à Igreja de São Domingos, em Lisboa.
No ano que passou regateei com afã, no Rossio de Estremoz, a ”Bandeira Preta” de Branquinho da Fonseca, que acabei por arrematar a contento, e que despoletou uma leitura intensa de boa parte da obra do autor de “O Barão”. Num domingo recente, em Vila Nogueira de Azeitão, por entre páginas de Camilo, peças de Sttau Monteiro e romances de Urbano Tavares Rodrigues, descobri esse escritor fabuloso que foi Domingos Monteiro, novelista exímio e mestre do conto que Portugal estranhamente persiste em ignorar. E de Setúbal, que fica logo depois, trouxe já, por mais de uma vez, primeiras edições de Romeu Correia, nobre perfil de romancista e dramaturgo, nado em Almada e casado com a sesimbrense Almerinda Correia, a quem a Piscosa ficou a dever a dádiva romanesca de “Trapo Azul”.
Parece que vieram para ficar, estas feiras: umas de antiguidades e velharias, com mais ou menos livros à mistura; outras só de alfarrabistas, como a da capital. Todas são dignas de aplauso: não sei de alguma cujo balanço, definitivo ou provisório, tenha ficado aquém da satisfação. E todavia, pelo que diz respeito aos livros, confesso que me assalta, por vezes, um sentimento pouco nítido, que vagueia entre a melancolia e a tristeza, quando se não queda por uma certa forma de culpa: aquele que vem de lermos uma dedicatória do autor que nos não foi dirigida; de toparmos com as marcas de posse apostas pelos compradores primitivos no começo dos volumes; de, a páginas tantas, descobrirmos uma carta, um bilhete, um recibo, um apontamento, um simples sublinhado, que para sempre nos serão alheios. Mais ou menos interessantes, percebe-se que andam por ali pedaços de bibliotecas, restos de colecções, fundos de catálogo: um não mais acabar de sonhos e devaneios, esperanças e sacrifícios, combates e desilusões – algo que foi e não volta a ser, e que, de alguma sorte, acabamos por usurpar.
Em certos casos foi já toda a vida de um homem que desapareceu. Depois dela, pouco falta para que se desfaça de vez, em mãos alheias, esse testemunho único de um trajecto espiritual que quase sempre se pode encontrar no universo de uma biblioteca particular. E é sempre tarde de mais…

10 Comentários:
É mesmo assim, Pedro. E se precisares de algumas encomendas, aqui da Bruxa, ou até de paris, diz-me.
Elísio
Obrigado, amigo.
Não se caçam espécies em vias de extinção!
Espera-se que sejam "clonadas", para então ser possível a caçada.
Paguei um preço exorbitante (e em escudos - daqueles a sério!) pela "Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica" que, pouco tempo depois, apareceu em edição de bolso... e pagável em euros!
Não dá vontade de chorar? De raiva, como convém!?!
Fique o meu querido amigo Impaciente a saber o seguinte: tenho uma exemplar da primeira edição da "Antologia da Poesia Portuguesa Erótica e Satírica", da Natália Correia, e não gastei um tostão. Ofereceu-mo o Dr. João Norberto da Palma Carlos, com quem tive a honra e o proveito de fazer o meu tirocínio profissional.
Seja como for, parece-me que a sua argumentação improcede: ao que julgo saber, a segunda edição, recente, com a chancela da Antígona e da frenesi, não inclui as ilustrações de Cruzeiro Seixas para a edição "princeps". E isso faz toda a diferença...
A propósito: acha que os nossos leitores levavam a mal se, lá para o Carnaval, aqui publicássemos A TORRE DE BABEL ou A PORRA DO SORIANO, do Guerra Junqueiro, que se encontra a pp. 344 e ss. da dita primeira edição?
Guerra Junqueiro não tem poemas "impublicáveis"; o que pode existir é quem, não sendo analfabeto, não saiba ler, o que coloca problemas graves...
Quanto à edição "de bolso" a que me referi, desconhecia que tivesse omitido as ilustrações. Obrigado pelo esclarecimento.
Ainda quanto ao meu "post" anterior, é lógico que também procuro livros nos alfarrabistas: há muitos livros que não são "clonados" e a única maneira de ter acesso aos mesmos é comprar as edições antigas. Foi apenas uma "alfinetada" (que resultou!!!).
Também tenho o "vicio" dos livros... e já perdi algumas oportunidades de adquirir edições esgotadas, importantes (para mim claro) que não voltei a encontrar...
Depois, fica no ar a sensação de perda... embora, a decisão de não comprar seja a mais indicada, porque os albarrabistas, por vezes, esticam demasiado a corda.
Impaciente,
Vamos então aguardar pelo Entrudo.
Quanto ao mais, "alfinéte" e "agulhe" sempre que desejar.
Meu caro Luís Milheiro,
Há, com efeito, certos alfarrabistas que parecem ter perdido a noção das realidades, e cujos preços até nos dão vontade de rir. Nesses casos, lamentamos pouco, ou nada, o que ficou por resgatar.
O pior será quando os preços estão dentro da tabela mas, ainda assim, se mantêm inacessíveis...
Também já "descobri" muitas vidas e coisas em alfarrabistas. E continuo. E tenho amigos que também prosseguem. Que sensação se pode ter ao ler num livro algo do género "este livro pertenceu a Bocage"? Ou quando se encontra um dedicado a uma personalidade conhecida de tempos de antanho? Para nós , leitores, procuradores e compradores, parece que algo da história perpassa... E que dizer quando compramos em alfarrabista um livro cujo autor e destinatário de dedicatória conhecemos pessoalmente e que, entretanto, já partiram?... Os livros também são isto, afinal.
Gostei muito do post do Pedro Martins. O pretexto foi um livro sobre Sesimbra, mas podia ser sobre outra terra qualquer. Nisto de livros em alfarrabistas recordo o conselho de um professor, dono de uma impressionante biblioteca e bibliófilo: quando tropeçamos num livro que gostaríamos de ter e não o conseguimos comprar, brevemente nos arrependeremos de não termos feito o esforço de o adquirir. Já senti este arrependimento. Já tive momentos em que não me pude esforçar. Já segui o conselho. Parabéns, Paulo Martins! JR
Agradeço ao leitor JR as suas palavras simpáticas.
O pretexto desta crónica foi, com efeito, um livro sobre Sesimbra, que não comprei e não tornei a encontrar. Creio que hoje o teria comprado logo, mesmo por aquele preço.
Assim, fiquei com a sensação de arrependimento de que fala, pois, muito embora deite sempre o olho aos catálogos de alfarrabistas na esperança de o descobrir, até hoje isso ainda não aconteceu.
Manda a verdade dizer que, sobre Sesimbra, pouco se encontra nos alfarrabistas. Vi há coisa de um ano, em Lisboa, a "Monografia" à venda por 75 euros, e pouco mais...
Curiosamente, foi no Porto, há mais de um ano, que, de uma assentada, descobri três títulos da bibliografia sesimbrense.
E, nalguns anos no terreno, foi quase tudo o que descobri sobre a Piscosa...
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