domingo, setembro 10, 2006

As aproximações a Agostinho da Silva (5)

[trato sucessivo]

A três semanas do Colóquio/Debate “Agostinho da Silva e o Espírito Universal” (organizado por um grupo de munícipes e pela Biblioteca Municipal de Sesimbra), nova aproximação à obra de Agostinho, nova incursão nas suas “Considerações”.

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Valor da oposição

Há países em que as circunstâncias – e os próprios criadores como elementos do meio – não deixam que os espíritos se realizem plenamente nas especialidades a que mais se inclinavam; não poderá um deles vir a ser um grande escultor, nem outro um profundo filósofo; ninguém os solicita e os anima, antes os obriga às tarefas inferiores que mecanizam e deprimem e lhes nega os meios indispensáveis a um trabalho seguro.

Posso imaginar uma forte vontade continuamente batendo-se e procurando construir a sua obra; já a não vejo, porém, conseguido erguer e firmar sobre a terra a bandeira da vitória; tudo ficará incompleto e rude, parados a meio os arcos mais audazes, apenas desenhados os ornatos mais finos; fácil será adivinhar os fortes músculos e a coragem do gigante; mas traiu-o o lodo em que tentou firmar-se, faltou-lhe a firme base que colabora nas abóbadas e tombou ante as capelas imperfeitas.

O mesmo, porém, se não poderá dizer das vidas; por aí poderemos louvar o ambiente que, resistindo, combatendo, apura e engrandece as personalidades que ousam afrontá-lo; não os deixa ser altos no campo estreito em que possivelmente se viriam a fechar; mas obriga-os a ser homens; leva-os à mais larga compreensão do total e porque não podem deixar de ser pessimistas perante o actual, à ânsia heróica de transformar o mundo; dá-lhes o amor do futuro.

A obra mais nobre de Herculano não é a História, nem a de Antero os Sonetos ou as Prosas; há melhores investigadores do passado e filósofos mais finos e mais largos; num admiramos o protesto, noutro o ideal de uma sociedade generosa, de um universo cheio de amor; e só foram assim porque o meio os levou a lutar, os levantou acima de si próprios; pareceram vencidos e venceram; ante quem os fez não vejo senão uma atitude de gratidão, de prazer e de alegre batalha.

Agostinho de Silva

4 Comentários:

Anonymous Anónimo said...

Diz o Elísio:

Nada de entusiasmos. O Agostinho da Silva que a Ana me apresentou uma vez nos Jerónimos sob os auspícios do Soares, mas que pareceu que se afastava dos convidados entrtidos nas habituais hipocrisias, deu-me um caloroso aperto de mão, como um pobre travesti, me deu um dia, quando todos gozávamos com ele. A mensagem de ambos era a mesma: Elisio, tu és muito malandro e isso é uma coisa que tenho vindo a combater. Nao conheci o Pessoa e fiquei muito triste por o Harold Bloom dizer dele que tinha "homoerotismo". Nunca ouvi falar que o Pessoa tivesse tendências maricas. Enfim, as palavras sao menos que as atitudes, como diz Mestre Agostinho. Mas mais que as atitudes são as obras que fazemos e para as quais contribuímos; Nao é so fado, futebol e fatalismo. Os pândegos do 25 de Abril sempre, fizeram a Fornicação, Furto e Ferocidade.Espero que o colóquio traga algo de Reactividade de que tanto estamos a precisar, porque o Poema do Pessoa já foi lido em outras ocasiões, nomeadamente numa magnífica recitaçao do actor Júlio César numa campnaha do PPM, em que participou enquanto republicano e todos ficaram hipnotizados. Mas as coisas nao mudarm nem um bocadinho por isso. O que hÁ primeiro que fazer é dizer que nÃo é fatalismo aceitar perder em vez de colaborar com gangsters, sejam eles capitalistas ou comunistas. A outra é impedir em concreto que seres humanos como Antero se tenham de suicidar porque não tinham dinheiro para sustentar a sobrinha, ao que se tinham comprometido ou de Agostinho que, apesar da mão passageira do Soares, nao arranjou um lugar num Universidade Portuguesa, porque não era doutorado e viveu muito mal ate morrer. Portanto: menos poemas e mais acções.

5:00 p.m.  
Blogger Pedro Martins said...

Elísio:

Um poema é um poema. Um colóquio é um colóquio. Cada coisa em seu sítio, sendo que uma não exclui a outra. Antes pelo contrário. O pensamento é que move. E, convém não esquecer, até foi o Agostinho que escreveu "Um Fernando Pessoa", com uma antologia de releitura no final. E o NEVOEIRO, fatal, lá está. É o último dos poemas.

Só não estou nada certo quanto ao que dizes no final. O Agostinho doutorou-se, em 1929, imediatamente antes de o Estado Novo a encerrar, na primitiva Faculdade de Letras do Porto. Tese: "O Sentido Histórico das Civilizações Clássicas". E leccionou durante décadas em universidades brasileiras.

Também não creio que tivesse passado propriamente dificuldades após o regresso a Portugal, onde chegou a exercer cargos importantes na Universidade Técnica de Lisboa e no ICALP.

Era, no entanto, um homem muito desprendido de bens materiais, o que, sendo muito diferente, pode dar azo a confusões.

Portanto, cada coisa em seu sítio, e todas elas nos seus lugares.

5:30 p.m.  
Anonymous Anónimo said...

Pedro,

Bom, pelo menos o Doutoramento dele não foi reconhecido depois da Abrilada, porque andaram a tentar que ele desse aulas em Portugal e ele nunca teve hipóteses. Sobre dar aulas no Brasil, as Universidades Brasileiras são de outro tipo. Agora que ele estava mal, mas mesmo mal, pouco antes de morrer, parece não haver dúvidas, que saíram vários artigos nos jornais ( ele nem era perdulário, nem jogava). Sobre poemas e acções, Pedro, sou um bocadinho mais antigo que tu e coisas que vês hoje, já as vi em muitos ciclos.Uma das coisas mùas da abrilada é que quando se abre um telejornal, se esquece do que aconteceu na noite anterior, de tal modo que os velhos já nem falam.

7:03 p.m.  
Blogger Pedro Martins said...

Quanto à situação de Agostinho da Silva, tenho uma ideia algo diferente da tua, mas posso estar enganado.

Por muito prosaico que isto seja, e talvez indesejavelmente prosaico, tenho de te dizer que Agostinho tinha, pelo menos, o suficiente para ter, e manter, um apartamento na falésia, em Sesimbra. E para ajudar vizinhos e amigos, em Lisboa e não só. E tinha uma reforma do Brasil. E, a partir de certa altura, outra, de Portugal.

Quanto ao poema, é "só" um poema. E um poema sobre Portugal. Vale aquilo que nós quisermos que valha. Mas, em princípio, não faz mal nenhum a ninguém. Quem quiser ler, lê. Quem não quiser, fecha os olhos, ou passa ao lado. Que mais te posso dizer? Que a "Mensagem" é um dos livros mais importantes, e mais geniais, que conheço? Que é nela que está o verdadeiro Pessoa (que a Universidade tenta neutralizar), o Pessoa patriota, nacionalista, ocultista, messianista (tal como o Agostinho), iniciado, defensor do direito de se ser livremente maçon ante o Estado Novo? É, sim. É isso mesmo.

Por favor, não mistures o Pessoa com o telejornal e a televisão. Ele morreu bem a tempo de não ter de fazer um esforço para se livrar de tudo isso...

7:36 p.m.  

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