Fragmentos (6)

Quem te não fez jesuíta, alma do diabo?!
Saia, saia, esse Infante bem andante;
Seu nome é D. João,
Tire e leve o pendão e o guião,
Poderoso e triunfante.
Os Sebastianistas do J fizeram F, dizendo por João, Foão, por não excluírem seu amoroso zelo» Etc.
Não há tal. Os Bragancistas é que do F fizeram J, dizendo por Foão, João.
Na verdade? Na verdade.
O segredo estava num cartimpácio, publicado em 1603 por D. João de Castro, e que é a primeira impressão das profecias de Bandarra. Mas esse impresso desaparecera quase totalmente. «Os exemplares são tão raros (escreve Inocêncio) que ainda não achei memória de algum existente em local designado.»
Foi uma destruição completa. A partir do Portugal restaurado, nunca mais ninguém viu rasto sequer da estampada Paraphrase et concordancia de alguas prophecias de Bandarra, çapateiro de Trancoso.
Até que subitamente me aparece no Porto um exemplar, talvez o único restante desta obra condenada. Em Março de 1901, saía, sob minha revisão, uma reprodução fac-símile dessa raridade ultra-rara. A actual edição termina-se por uma notícia bibliográfica da minha lavra. Vá de reclame. Inovemos. Ao elogio mútuo suceda o elogio próprio.
Ora, a pág. 113 (capítulo dozeno), lá surge o texto exacto:
Saya? Saya esse Infante
Bem andante?
O seu nome he Dom foam. Etc.
Curioso resulta agora ler o idóneo comento de D. João de Castro, ferrenho, patriótico visionário infeliz, longe da pátria e em miséria extinto.
Ilibem-se, pois, os sebastianistas; não lhes cabe o labéu que se lhes assacou. E o frade da Ressoreiçam de Portugal, por intermédio do impressor, Guillelmo do Monnier, duplamente moscambilha quando, à sombra da ambiguidade da exótica incorrecção tipográfica, pondera: «Custume he dos Vatiçinios Poeticos trocarem os nomes das pessoas, e fazerem nelles alguã mudança, e alteração. Vê-se em Bandarra, qual falando do Encoberto diz. O seu nome he Dom João. E conhecidamente, he do João, porque o F. antigo, parecia J.»
Porque o F antigo parecia J.
Ah Manuel Homem! Dominicano! Quem te não fez jesuíta, alma do diabo?!
Sampaio (Bruno)
(O Encoberto, 1904)

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