domingo, janeiro 08, 2006

Pela estrada fora

Coordenado por Ruy Ventura, e contando com a colaboração regular de Nicolau Saião, "Estrada do Alicerce" é um blogue que dedica particular atenção às ideias, à literatura e às artes plásticas, além de ser um espaço de opinião e debate. Quem o quiser visitar, tem uma ligação feita aqui ao lado.
O "Sesimbra e Ventos" já ali foi simpaticamente referido, há alguns dias.
Professor no concelho de Sesimbra, Ruy Ventura escreveu vários livros de poesia: "Arquitectura do Silêncio" (Difel, 2000, Prémio Revelação - Poesia da Associação Portuguesa de Escritores), "sete capítulos do mundo" (Black Sun Editores, 2003) e "Assim se deixa uma casa" (Alma Azul, 2003). Tem colaboração poética e de outra índole em publicações portuguesas, brasileiras e espanholas. Mestre em Estudos Portugueses, é autor de artigos e ensaios sobre Poesia Contemporânea, Literatura Tradicional e Toponímia.
De Ruy Ventura, a quem enviamos um abraço amigo, publicamos hoje um poema recente.

FERNANDO PESSOA

a rosa impede
a corrupção do ouro
e da madeira.

entalha na língua
um brilho negro
e, nos olhos,
filamentos de sede
que atravessam
o horizonte.

o relâmpago
multiplicou a eternidade.
semeou sobre o campo
fragmentos de árvore
que incendiaram
a colheita.

a voz ausentou-nos
do medo. o mar
(semeado de ilhas)
rebentou a vidraça
inundando
os subterrâneos da cidade.


*****


desfibraste a carne,
as folhas de madeira,
para escreveres no corpo
a força da nascente.

(só não quiseste ler
a epístola da tua sede.)

as raízes rebentaram
no horizonte. a chuva
afundou o navio.

destroços brilham
no esplendor do lume,
procurando uma cinza
que não existe.

a rosa impede
a combustão do ouro
e da madeira.

negro, o brilho
entalha na língua
o calor da chama

sobre o campo.


*****


fragmentos de morte
iluminam a cidade.
os espinhos florescem
sobre o rosto –
flamas sem tempo
que o tempo retomou.

a cinza
lava-nos do mundo.
a estátua
(sem olhos)
divide a alma inteira.

nada nos esconde
do incêndio.

a roseira arde
no centro do mundo.
deixa no largo
outras línguas
de fogo
que o sangue não soube dividir.

longe de tudo,
um vulto alimenta-se
de sombras.
projecta na caverna
o som das asas

enquanto a chuva
se infiltra nas paredes.

Ruy Ventura

2 Comentários:

Blogger Ruy Ventura said...

Abraço de gratidão ao Pedro pela publicação do poema e de incentivo por este Sesimbra e Vento que já está a mexer e bem.

8:22 a.m.  
Blogger Pedro Martins said...

Eu é que ficou grato pelas tuas palavras, Ruy...
E que a "Estrada" continue em grande...
Um abraço.

7:37 p.m.  

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