MIGUEL JORGE...
... é um escritor de língua portuguesa que precisa ser descoberto em Portugal. Nascido em Campo Grande (Mato Grosso do Sul, Brasil) e residente em Goiânia, conta na sua bibliografia com 26 (!) títulos publicados, todos com qualidade ímpar, em áreas tão distintas quanto o romance, o conto, a poesia, o teatro e a narrativa infanto-juvenil. Recebeu vários prémios, como o prestigiado “Machado de Assis”. Tem narrativas suas adaptadas ao cinema. Sobre a sua obra debruçaram-se já vários ensaístas e académicos do país-irmão, dos Estados Unidos da América, etc.. Um ensaio recente, por exemplo, compara a força e a novidade da sua ficção à que é conhecida na obra de Júlio Cortazar. Com tudo isto, é quase totalmente desconhecido em Portugal. Tanto quanto sei, tem por cá publicados dois ou três poemas numa antologia de poesia brasileira lançada pelas edições Alma Azul e organizada por Álvaro Alves de Faria – e alguns textos que Nicolau Saião e eu demos à estampa no “Fanal”, suplemento do jornal “O Distrito de Portalegre”... Até quando?
Conheci Miguel Jorge há alguns anos em Lisboa. Foi amizade ao primeiro abraço – e, durante os oito dias em que permaneceu no nosso país, fomos companheiros inseparáveis. Todos os dias me dirigia à pensão no Largo da Misericórdia, em Lisboa, e daí partíamos em deambulação que tanto nos conduzia a vários recantos da capital quanto a outros lugares de intensidade telúrica e espiritual. Recordo com especial carinho o passeio que demos até ao Cabo Espichel e a Sesimbra, localidade em que Miguel Jorge pediu a “benção ao mar”.
Tanto quanto sei, o autor de Veias e Vinhos não escreveu qualquer poema dedicado à “piscosa”, embora nunca mais a tenha esquecido. O poema que se segue - retirado do seu mais recente livro, Marbrasa, comemorativo dos seus 40 anos de vida literária – não sendo sobre ela, não deixa de apresentar a respiração de um espírito comum (que o mar une sempre os lugares que o emolduram).
NO MAR NENHUM BARCO
Os amores são largos e longos e não cabem nas cartas.
A noite lenta fere de faca a luz cega do medo.
Indiferentes, as borboletas são anjos vestidos de prata.
Assim, os musgos vão cobrindo de vermelho os moluscos
dentro das caixas.
São do domingo os escargots, lentas flores, colocadas sobre
bandejas de prata.
Talvez não se possa evitar a falta de pão, reflexos da ira,
a dor que não se quer dar aos filhos.
Dormem as naves sobre as janelas do mar, talvez um barco,
igual a um barco, indo além do mar, brasa da alma. (Baco
num riso igual a um risco de língua nas bocas.)
Igual a um casaco de frio que se pendura detrás da porta.
Igual às ondas a testemunhar as rosas se desfazendo no branco
laço das águas.
(A noite carrega os diamantes no impacto do chão que se faz
cinza).
Se viam roucas as Américas, a constituição dos ventos cobrindo
lábios muito finos. Estrelas ostentam um festim ameno de
vozes. Os ratos, os gatos o nojo anunciado. O gozo desfeito
em nada, se põem de lado, ainda mais quando do céu se
toma lei e posse de secretos códigos.
... é um escritor de língua portuguesa que precisa ser descoberto em Portugal. Nascido em Campo Grande (Mato Grosso do Sul, Brasil) e residente em Goiânia, conta na sua bibliografia com 26 (!) títulos publicados, todos com qualidade ímpar, em áreas tão distintas quanto o romance, o conto, a poesia, o teatro e a narrativa infanto-juvenil. Recebeu vários prémios, como o prestigiado “Machado de Assis”. Tem narrativas suas adaptadas ao cinema. Sobre a sua obra debruçaram-se já vários ensaístas e académicos do país-irmão, dos Estados Unidos da América, etc.. Um ensaio recente, por exemplo, compara a força e a novidade da sua ficção à que é conhecida na obra de Júlio Cortazar. Com tudo isto, é quase totalmente desconhecido em Portugal. Tanto quanto sei, tem por cá publicados dois ou três poemas numa antologia de poesia brasileira lançada pelas edições Alma Azul e organizada por Álvaro Alves de Faria – e alguns textos que Nicolau Saião e eu demos à estampa no “Fanal”, suplemento do jornal “O Distrito de Portalegre”... Até quando?
Conheci Miguel Jorge há alguns anos em Lisboa. Foi amizade ao primeiro abraço – e, durante os oito dias em que permaneceu no nosso país, fomos companheiros inseparáveis. Todos os dias me dirigia à pensão no Largo da Misericórdia, em Lisboa, e daí partíamos em deambulação que tanto nos conduzia a vários recantos da capital quanto a outros lugares de intensidade telúrica e espiritual. Recordo com especial carinho o passeio que demos até ao Cabo Espichel e a Sesimbra, localidade em que Miguel Jorge pediu a “benção ao mar”.
Tanto quanto sei, o autor de Veias e Vinhos não escreveu qualquer poema dedicado à “piscosa”, embora nunca mais a tenha esquecido. O poema que se segue - retirado do seu mais recente livro, Marbrasa, comemorativo dos seus 40 anos de vida literária – não sendo sobre ela, não deixa de apresentar a respiração de um espírito comum (que o mar une sempre os lugares que o emolduram).
NO MAR NENHUM BARCO
Os amores são largos e longos e não cabem nas cartas.
A noite lenta fere de faca a luz cega do medo.
Indiferentes, as borboletas são anjos vestidos de prata.
Assim, os musgos vão cobrindo de vermelho os moluscos
dentro das caixas.
São do domingo os escargots, lentas flores, colocadas sobre
bandejas de prata.
Talvez não se possa evitar a falta de pão, reflexos da ira,
a dor que não se quer dar aos filhos.
Dormem as naves sobre as janelas do mar, talvez um barco,
igual a um barco, indo além do mar, brasa da alma. (Baco
num riso igual a um risco de língua nas bocas.)
Igual a um casaco de frio que se pendura detrás da porta.
Igual às ondas a testemunhar as rosas se desfazendo no branco
laço das águas.
(A noite carrega os diamantes no impacto do chão que se faz
cinza).
Se viam roucas as Américas, a constituição dos ventos cobrindo
lábios muito finos. Estrelas ostentam um festim ameno de
vozes. Os ratos, os gatos o nojo anunciado. O gozo desfeito
em nada, se põem de lado, ainda mais quando do céu se
toma lei e posse de secretos códigos.

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