Recordar Abel Gomes Pólvora, 40 anos depois da sua morte
O Engenheiro Abel Gomes Pólvora foi uma das maiores figuras da vida sesimbrense na primeira metade do século XX. Faz hoje quarenta anos que deixou este mundo. Aqui o evoco, num perfil que, há já algum tempo, dele tracei para um jornal local.
Um homem bom
Onde quer que seja, os grandes homens fazem a diferença; nas terras pequenas, a diferença é maior. O lugar será comum mas o homem é invulgar: Abel Gomes Pólvora desce à terra, em 14 de Fevereiro de 1966, e Sesimbra fica mais pobre. Aos 81 anos, desaparecia o dono dos gestos largos, o senhor dos passos arrojados. A terra estava mais pequena.
Tal pai, tal filho. Conta trinta e poucos anos quando nasce para a coisa pública. É eleito Provedor da Santa Casa da Misericórdia, sucedendo a seu pai, António Gomes Pólvora, em Julho de 1917. Tempos de guerra lá fora; de doença por cá: a “pneumónica” grassa. Sesimbra não escapa. Morre-se às mãos da epidemia.
Nestes dias de sombra, o Provedor deita mãos à obra. Conta com os médicos locais para desenvolver uma campanha de prevenção e tratamento da doença. Entretanto, empreende importantes melhoramentos no hospital, que estão prontos em 1920. Uma parte das despesas sai-lhe do bolso. De Lisboa, do Governo, chega o louvor; dos sesimbrenses recebe uma homenagem pública.
Deixa pedra sobre pedra: ainda em 1920, iniciam-se os trabalhos de construção de um edifício destinado a asilo de idosos e inválidos. Hoje, o edifício acolhe valências do Centro de Saúde...
No ano seguinte, e até 1926, será o Presidente da Câmara. As dificuldades republicanas vêm em todos os livros: a sempiterna instabilidade política; uma crise económica que se arrasta, teimosa, longa, grave. Em Sesimbra, o edil generoso tem de abrir os cordões à sua própria bolsa. Não raras vezes, empresta dinheiro ao município para fazer face aos problemas de tesouraria. Prementes, as despesas correntes impõem-se. Mas o pessoal não deixa de receber a horas…
Que dizer do político? Um visionário? Simples pioneiro? Pouco importa o juízo, se temos os factos. Começa com o Presidente Gomes Pólvora a construção da rede geral de saneamento da vila de Sesimbra. E é nos anos da sua administração que Santana tem um estabelecimento de ensino: em 1923, a escola está finalmente instalada, sem custos, num edifício que é propriedade do Presidente. O lugar inaugura a casa; a casa, por sua vez, estreia a electricidade na cabeça da freguesia rural, graças a um gerador, oferecido por Gomes Pólvora. Dez anos mais tarde – só então –, a electrificação entre Santana e Sesimbra será uma realidade!
Engenheiro agrónomo – deixará dispersa, por várias publicações e opúsculos, uma vasta obra sobre a matéria –, Gomes Pólvora dedica-se, desde cedo, à produção vinícola, criando uma marca apreciada. O rótulo leva o nome da terra: o vinho «Cezimbra» é sempre distinguido nas mostras. Em 1923, concorre à exposição internacional do Rio de Janeiro e a regra do prémio não abre excepção.
Gomes Pólvora: mais do que um apelido, o nome próprio da tradição. Em 1927, é de novo o pai quem lhe entrega o facho. Sócio fundador da Associação dos Bombeiros Voluntários, António Gomes Pólvora deposita, agora, nas mãos do filho Abel os destinos da instituição. Não perde tempo: muda, inova, melhora. Depois, será, anos a fio, o comandante do corpo activo. O espírito benfazejo sopra em terreno fértil. Bombeiro emérito, a palavra de Abel Gomes Pólvora é escutada, com respeito e admiração, um pouco por todo o país, nos congressos dos soldados da paz.
O ano de 1926 vale por uma vida. Em 25 de Julho, dia de Santiago, funda o jornal «O Cezimbrense». António Reis Marques contou, ao pormenor, há alguns anos atrás, na revista «Sesimbra Cultural», a história dos primórdios desta publicação. Vale a pena retomá-la, abreviadamente, nalguns dos seus pontos essenciais.
O título já dera vida a outros periódicos da vila, mais ou menos efémeros. Agora, fosse pelos bons auspícios, fosse pelas circunstâncias, seria a valer. Gomes Pólvora não se limita a dar a cara pelo projecto. Empresta-lhe uma casa ampla, na Rua da República, que mobila e equipa a preceito. E é com generosidade que paga ainda, na prática, as despesas de tipografia. No início, é apenas o proprietário; cinco anos mais tarde, assume a direcção do semanário.
Em 1952, o periódico, consolidado, pujante, vencera já todas as provas. Logo em Janeiro, o engenheiro vende o título, por um preço simbólico, à Liga dos Amigos do Castelo. Como testemunhará Amável de Sousa, décadas depois, no «Jornal de Sesimbra», já em 1945 Abel Gomes Pólvora se encontrava doente, raras vezes saindo de casa. Era, pois, chegada a altura de passar o testemunho…
Indeléveis, dois traços firmam a ilustração da sua memória. Por um lado, Abel Gomes Pólvora deixa a imagem de um incansável homem de saber e de acção, de um homem que sobrepuja o seu tempo; por outro, não há quem não lhe aponte o dedo… ao coração, para frisar a sua condição de homem de bem – um homem bom, como preferimos dizer. A reunião de duas naturezas assim faz, por certo, a felicidade de uma terra. Dificilmente alguém, na primeira metade do século XX, terá feito tanto por Sesimbra…
Um homem bom
Onde quer que seja, os grandes homens fazem a diferença; nas terras pequenas, a diferença é maior. O lugar será comum mas o homem é invulgar: Abel Gomes Pólvora desce à terra, em 14 de Fevereiro de 1966, e Sesimbra fica mais pobre. Aos 81 anos, desaparecia o dono dos gestos largos, o senhor dos passos arrojados. A terra estava mais pequena.
Tal pai, tal filho. Conta trinta e poucos anos quando nasce para a coisa pública. É eleito Provedor da Santa Casa da Misericórdia, sucedendo a seu pai, António Gomes Pólvora, em Julho de 1917. Tempos de guerra lá fora; de doença por cá: a “pneumónica” grassa. Sesimbra não escapa. Morre-se às mãos da epidemia.
Nestes dias de sombra, o Provedor deita mãos à obra. Conta com os médicos locais para desenvolver uma campanha de prevenção e tratamento da doença. Entretanto, empreende importantes melhoramentos no hospital, que estão prontos em 1920. Uma parte das despesas sai-lhe do bolso. De Lisboa, do Governo, chega o louvor; dos sesimbrenses recebe uma homenagem pública.
Deixa pedra sobre pedra: ainda em 1920, iniciam-se os trabalhos de construção de um edifício destinado a asilo de idosos e inválidos. Hoje, o edifício acolhe valências do Centro de Saúde...
No ano seguinte, e até 1926, será o Presidente da Câmara. As dificuldades republicanas vêm em todos os livros: a sempiterna instabilidade política; uma crise económica que se arrasta, teimosa, longa, grave. Em Sesimbra, o edil generoso tem de abrir os cordões à sua própria bolsa. Não raras vezes, empresta dinheiro ao município para fazer face aos problemas de tesouraria. Prementes, as despesas correntes impõem-se. Mas o pessoal não deixa de receber a horas…
Que dizer do político? Um visionário? Simples pioneiro? Pouco importa o juízo, se temos os factos. Começa com o Presidente Gomes Pólvora a construção da rede geral de saneamento da vila de Sesimbra. E é nos anos da sua administração que Santana tem um estabelecimento de ensino: em 1923, a escola está finalmente instalada, sem custos, num edifício que é propriedade do Presidente. O lugar inaugura a casa; a casa, por sua vez, estreia a electricidade na cabeça da freguesia rural, graças a um gerador, oferecido por Gomes Pólvora. Dez anos mais tarde – só então –, a electrificação entre Santana e Sesimbra será uma realidade!
Engenheiro agrónomo – deixará dispersa, por várias publicações e opúsculos, uma vasta obra sobre a matéria –, Gomes Pólvora dedica-se, desde cedo, à produção vinícola, criando uma marca apreciada. O rótulo leva o nome da terra: o vinho «Cezimbra» é sempre distinguido nas mostras. Em 1923, concorre à exposição internacional do Rio de Janeiro e a regra do prémio não abre excepção.
Gomes Pólvora: mais do que um apelido, o nome próprio da tradição. Em 1927, é de novo o pai quem lhe entrega o facho. Sócio fundador da Associação dos Bombeiros Voluntários, António Gomes Pólvora deposita, agora, nas mãos do filho Abel os destinos da instituição. Não perde tempo: muda, inova, melhora. Depois, será, anos a fio, o comandante do corpo activo. O espírito benfazejo sopra em terreno fértil. Bombeiro emérito, a palavra de Abel Gomes Pólvora é escutada, com respeito e admiração, um pouco por todo o país, nos congressos dos soldados da paz.
O ano de 1926 vale por uma vida. Em 25 de Julho, dia de Santiago, funda o jornal «O Cezimbrense». António Reis Marques contou, ao pormenor, há alguns anos atrás, na revista «Sesimbra Cultural», a história dos primórdios desta publicação. Vale a pena retomá-la, abreviadamente, nalguns dos seus pontos essenciais.
O título já dera vida a outros periódicos da vila, mais ou menos efémeros. Agora, fosse pelos bons auspícios, fosse pelas circunstâncias, seria a valer. Gomes Pólvora não se limita a dar a cara pelo projecto. Empresta-lhe uma casa ampla, na Rua da República, que mobila e equipa a preceito. E é com generosidade que paga ainda, na prática, as despesas de tipografia. No início, é apenas o proprietário; cinco anos mais tarde, assume a direcção do semanário.
Em 1952, o periódico, consolidado, pujante, vencera já todas as provas. Logo em Janeiro, o engenheiro vende o título, por um preço simbólico, à Liga dos Amigos do Castelo. Como testemunhará Amável de Sousa, décadas depois, no «Jornal de Sesimbra», já em 1945 Abel Gomes Pólvora se encontrava doente, raras vezes saindo de casa. Era, pois, chegada a altura de passar o testemunho…
Indeléveis, dois traços firmam a ilustração da sua memória. Por um lado, Abel Gomes Pólvora deixa a imagem de um incansável homem de saber e de acção, de um homem que sobrepuja o seu tempo; por outro, não há quem não lhe aponte o dedo… ao coração, para frisar a sua condição de homem de bem – um homem bom, como preferimos dizer. A reunião de duas naturezas assim faz, por certo, a felicidade de uma terra. Dificilmente alguém, na primeira metade do século XX, terá feito tanto por Sesimbra…

5 Comentários:
Não resisto!
Ler e não comentar não é para mim! Se não me quizerem anónimo, paciência!
Gostei do texto sobre a vida e obra de Abel Gomes Pólvora. Haja alguém que nos ensine algo sobre a nossa terra.Bom trabalho comunitário. Mais deviam fazer o mesmo. fico a aguardar novas notas históricas!
Urban@
Belo texto.
Acho excelente que Abel Gomes Pólvora esteja hoje, aqui, a ser recordado. Trata-se de uma figura impar,que teve grande significado para Sesimbra e sua população.
Homem de bem, de uma personalidade bem vincada que ao longo do tempo sacrificou muito do seu bem estar e seus haveres em prol da comunidade sesimbrense. Um grande exemplo que na altura do 40º aniversário da sua morte bem merece ser aqui recordado.
São figuras como a de Abel Gomes Pólvora que me levam a supor que a história se faz sobretudo com as grandes figuras, sejam elas homens superiores ou personagens tenebrosas, e não tanto com as abstrações colectivas tão caras ao positivismo ou ao materialismo...
Como é óbvio, saúdo vivamente o regresso da Urbana. Sem ela, e sem os seus comentários saborosos, este blogue não era o mesmo. De resto, e como o António Cagica Rapaz explicou, com o seu comportamento exemplar, não havia qualquer razão para que a Urbana nos deixasse.
Para mais quando vêm aí - já nos próximos dias - novos escritos históricos sobre Sesimbra. E por ora mais não digo, que o segredo é alma do negócio, por mais insignificante que ele seja, como é o caso desta nossa pequena porta aberta... à Urbana e a quem mais vier por bem...
Até mais blog!
Que bem escrito este texto. Que gosto lê-lo. Lembrou-me a escrita de Saul Bellow (não encheu o texto de coisa nenhuma, dizendo o que é importante).
Estrela Santos
Agradeço as simpáticas palavras de Estrela Santos. Tomo-as como mais um estímulo para levarmos por diante este projecto.
O perfil do Eng. Abel Gomes Pólvora inseriu-se numa série que escrevi, há alguns anos, para o "Jornal de Sesimbra", e na qual procurei aliar a busca da concisão à tentativa de dar vida nova a frases feitas...
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