domingo, março 26, 2006

Instantâneos (11)

Vilar Formoso, 13 de Junho de 1960.

REGRESSO

Pátria magra – meu corpo figurado…
Meu pobre Portugal de pele e osso!
Nada na tua imagem se alterou:
A casca e o caroço
Dum sonho que mirrou…

Miguel Torga

11 Comentários:

Anonymous Anónimo said...

Infelizmente, neste Portugal, quase meio século depois, nada mudou.
Continuamos com a pele e o osso, obrigados a emigrar, saindo pelo mesmo Vilar Formoso onde o poema foi escrito.
O sonho, já de si mirrado, só desperta com o futebol, ironia suprema.

Caroço não há, e a casca continua grossa...

11:02 a.m.  
Anonymous Anónimo said...

Nem mais...

12:40 p.m.  
Blogger Joao Augusto Aldeia said...

Este poema de Miguel Torga é deprimente e não traduz a realidade do país - mas fica bem a uma certa visão desencantada e masoquista que por aí circula. É lamentável que se diga tanto mal do próprio país.

3:45 p.m.  
Anonymous Anónimo said...

Concordo com o J.A, Portugal vai de vento em popa. É certo que temos droga a boiar ao largo de Sesimbra, muitos Intendentes de vergonha,polícias que prendem outros polícias, sacos azuis, autarcas com sobrinhos e contas na Suiça, universidades da treta a fabricar desempregados, a saúde e a educação com sucessivos encerramentos, etc.
Felizmente, há incontáveis desfiles de moda, o Rock in Rio, o Mundial de futebol e, em certas terras à beira mar, o Carnaval todo o ano.
Só motivos para sorrir. E a música a tocar...

3:59 p.m.  
Blogger Pedro Martins said...

Meu caro João Aldeia,

Julgo que devemos distinguir o desencanto do masoquismo. Revejo-me em muitos aspectos do primeiro, mas nunca no segundo. E creio que niguém tem gosto em sofrer a Pátria.

Algumas coisas terão por certo mudado desde 1960. Este Portugal de Torga não é o nosso Portugal.
Mas, que me lembre, são raríssimos os poemas postos nos nossos blogues que tenham suscitado algum debate. Logo agora que há uma profusão inestimável de computadores e de blogues, que se edita livros em barda, e que não há censura. Como sintoma, talvez isto queira dizer alguma coisa.

Calhou agora ser este poema, calhou ser Torga, calhou sermos nós. Ainda bem. Continuemos...

4:11 p.m.  
Blogger Joao Augusto Aldeia said...

don quixote:
Não escrevi que o país ia de vento em popa. Como metáfora, de resto, seria uma má escolha, pois daria a ideia de vamos empurrados por algo exterior.

Pedro Martins:
Os poemas, em princípio, não se destinam a ser comentados ou explicados, embora o passam ser. Porém, a leitura de um poema é sempre influenciada pela circunstância, o tempo e o lugar em que é colocado perante nós. Neste caso, seguido dos comentários que antecederam o meu, o significado é inequívoco: afirmar que somos uma sombra do que já fomos, que deixámos de sonhar.

Não digo (nem disse) que o Pedro Martins aqui o colocou com esse objectivo, suponho que não, mas as gentes estão preparadas mentalmente é para essa leitura, como vimos e veremos.

Há um masoquismo intelectual, dado a conhecer ao país essecialmente através de artigos de opinião em jornais e, menos, nos debates televisivos, que consiste em dizer, por exemplo, que estamos tal e qual o Eça de Queiroz nos retratou. Ou seja: não melhorámos, não evoluímos. O masoquismo está no facto dessa gente usar das benesses do progresso (por exemplo: mais gente a ler jornais, a) para o negar. É masoquismo porque contribui para um sentimento geral de desânimo, contrário ao progresso. Depois há aqueles que, estando distraídos, estão convencidos de que são originais, mas que afinal se limitam a macaquear os anteriores (do tipo: nunca leram Eça, desconhecem a História da respectiva época, mas "sabem" que aquelas citadas frases do escritor provam que o país está "na mesma").

Este masoquismo alimenta-se, no senso comum, de analogias muito simples, tais como a de se dizer que estamos na "cauda da Europa", ou de que uma qualquer país nos "ultrapassou". No fundo, é a transposição do desgosto causado pelo facto do carro do vizinho ser melhor do que o meu, etc.

O que é que nos interessa que a República Checa tenha ultrapassado Portugal? E ultrapassou em quê? Em cultura? Em humanismo? Em solidariedade? Em modéstia? Não! Ultrapassou em "pib por habitante". E é por isso que estamos deprimidos? Fracos espíritos!

E, afinal, que sonho foi esse que mirrou? O sonho de erradicar o infiel da Terra, que alimentou o país durante os primeiros séculos? O sonho das Descobertas? O sonho de dominar o mundo, a meias com a Espanha? O sonho de estarmos no "pelotão da frente" do pib europeu?

O poema de Torga é datado. Torga é um grande poeta, autor de poemas geniais, mas também tinha destes desabafos mais comezinhos. Imaginemo-nos: vamos ali a Sevilha, por exemplo, e no regresso, parando na ponte sobre o Guadiana, olhamos para a terra lusa e, entre lágrimas, gememos: "Meu pobre Portugal de pele e osso!". É isto que se passa convosco?

5:48 p.m.  
Blogger Pedro Martins said...

Caro João Aldeia,

Concordo quando diz que os poemas não se destinam, em princípio, a ser comentados ou explicados, se pensarmos na leitura a partir do livro. Esta é sobretudo um acto solitário e silencioso, mas que pode e deve anteceder o momento da tertúlia.

Em princípio, o mesmo se pode(ria) dizer da leitura de poemas nos blogues. Mas este novo meio de comunicação, pelas possibilidades que oferece, é também, senão sobretudo, um espaço de partilha que o diferencia da leitura tradicional.

Ao criar esta rubrica, que denominei de "Instantâneos", tive fundamentalmente em vista a escolha de poemas de que gosto, que, pela sua dimensão miniatural, permitissem uma leitura muito rápida, atendendo a que os poemas de maior dimensão correm maiores riscos de não serem lidos. Em todo o caso, tenho procurado que os textos encerrem alguma ideia, ou seja, que se não resumam a um mero exercício estético.

Baseado nestas premissas, esperaria eu que os textos seleccionados suscitassem mais reacções do que aquelas que, efectivamente, têm surgido. No entanto, parece que estamos confinados à "meia dúzia de sempre" de que alguém falava. Se calhar é mesmo assim...

Ao escolher este poema de Miguel Torga, fi-lo também por me identificar com a sua mensagem. Pela matriz telúrica, Torga é um dos escritores que mais admiro, embora me afaste de certos aspectos do seu pensamento. Creio mesmo que é o nosso grande escritor do elemento Terra...
A imagem que nos transmite no poema é uma imagem de decadência da Pátria que, como diagnóstico, está, a meu ver, correcta. Não creio que o desencanto de Torga seja muito diferente do de Camões n'"Os Lusíadas", ou do do António Nobre do "Só", ou do do Junqueiro da "Pátria".

Sou daqueles que acham que, com D. João III, o estabelecimento da Inquisição e a perseguição aos Judeus, entrámos num processo de decadência de que não recuperámos ainda nem presumivelmente recuperaremos. Já vê o João Aldeia que não considero que o sonho dos primeiros séculos da nacionalidade se tenha reduzido a erradicar o infiel da terra. Creio mesmo que o segredo português foi o da convivência pacífica das três religiões do Livro, a qual, no meu entender, só foi quebrada com o Piedoso.

Estou, no entanto, de acordo com o João Aldeia quando verbera o envenenamento mental do país que gera ou agrava um sentimento geral de desânimo. A este propósito, a figura de Eça é nuclear, pois a Geração de 70, e em particular o autor de "Os Maias" - fique já dito que este romance é um dos livros da minha vida -, contribuíram largamente para a criação desse sentimento de desânimo. O que não quer dizer que muitos dos tipos que emanam das personagens do Eça não sejam verdadeiramente actuais. Veja o João Aldeia o que se passa aqui ao nosso redor, sem ser necessário ir além do Marco do Grilo. Não descortina Conselheiros Acácios ou Libaninhos?

Ponto é que o sentido crítico não anule a auto-estima nacional. E a verdade é que esta anda pelas ruas da amargura, de tão combatida que tem sido, a pretexto de ser reaccionária. Felizmente, começamos hoje a poder voltar falar de Pátria sem sermos apodados de "fascistas". Em França, país racionalista, positivista e voltaireano, ninguém tem pejo de falar de "Pátria", vêm-se bandeiras tricolores em tudo o que é repartição pública, e eu só consigo levar-lhes a mal o que cheire a "chauvinismo".

Quanto ao mais, claro que o nosso país está diferente, que se modernizou, que há progressos admiráveis em certas áreas, material e moralmente falando. Claro que não devemos reduzir os nossos horizontes à preocupação de nos aguentarmos no ombro a ombro com os boémios.

Mas lá que nos falta o sonho, falta. E isso pressente-se nas ruas, percebe-se nos discursos oficiais. Goste-se ou não, ainda não saímos da austera e apagada vil tristeza. E é pena, porque pelo sonho é que vamos...

6:47 p.m.  
Blogger Pedro Martins said...

Errar é humano: em França, "vêem-se" bandeiras, e não "vêm-se" bandeiras. Pudera lá ser!

6:51 p.m.  
Anonymous Anónimo said...

Cumpre-se, desta forma erudita, civilizada e cordial, o principal objectivo deste blogue, a partilha de ideias, valores e sentimentos.
No caso vertente, cada um de vocês defendeu as suas convicções e fez os seus juízos com clarividência e elevação.
Estais, pois, de parabéns.
E (já cá faltava a maroteira), se eu fosse o Jorge Sampaio, colocava nos vossos peitos ilustres e lusitanos duas egrégias medalhas...

9:18 p.m.  
Anonymous Anónimo said...

De poeta pouco tenho mas, em DEZ96, sem conhecer este poema de Miguel Torga, também tinha as minhas dúvidas:

MARTÍRIO

Um mar feito
mal feito
Império
desfeito
no tempo.

Uma Nação
sem noção
de espaço
que avança
nas vazantes
(quando o mar se encolhe)
e escolhe
as marés-cheias
de areia
da União Europeia.

Com desculpas (póstumas) ao Mestre.

10:04 p.m.  
Anonymous Anónimo said...

Mais um optimista!
Com este espírito vamos longe!

1:47 p.m.  

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